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O que fez Portugal com o ouro extraído do Brasil?

Duas pátrias irmãs, com uma história secular comum mas onde parece existir muito desconhecimento. O que se passa entre o Brasil e Portugal?

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Brasil
Portugal e Brasil

Vamos ser claros e concisos: não pretendemos criar conflitos nem gerar polémica. Pretendemos apenas tentar perceber as razões que levam os nossos povos irmãos a ter uma relação de quase amor/ódio, em que as pessoas se dividem de forma drástica, entre aqueles que adoram o povo irmão e aqueles que o desprezam. E falamos nos dois sentidos, ou seja, esse amor/ódio verifica-se tanto por brasileiros em relação a Portugal como de portugueses em relação ao Brasil.

Paraty
Paraty

Talvez esse tipo de relação tenha muito a ver com mal entendidos e desconhecimento de parte a parte. Por um lado, a história de Portugal que os brasileiros conhecem limita-se à época em que terminou a relação de metrópole/colónia. Por outro lado, os portugueses possuem conceitos muito errados sobre o Brasil porque adoptam esses conceitos apenas com base nas telenovelas que passam nas nossas televisões ou com base nos emigrantes brasileiros que para cá vieram em busca de melhores condições de vida.

 

O mito do ouro roubado ao Brasil

O tema do Ouro do Brasil sempre dividiu opiniões e gera inúmeras discussões entre portugueses e brasileiros. De um lado, alguns brasileiros acusam Portugal de lhes ter roubado o seu ouro. Mas terá sido bem assim? Talvez não. E para compreender esta situação, convém olhar para o assunto de uma perspectiva histórica e não apenas com base nos princípios e ideias que hoje possuímos. Um exemplo: como pode Portugal ser acusado de roubar ouro ao Brasil se, naquela época, o Brasil pertencia a Portugal? Portugal estava, como é óbvio, a explorar um recurso valioso num território que lhe pertencia. Importa ainda esclarecer que, tal como outros recursos que o Brasil possuía, o ouro não era usado nem valorizado pelos Índios, os originais e verdadeiros habitantes do território.

Diamantina
Diamantina

Segundo documentos inéditos que podemos encontrar no Repositório temático da Universidade do Porto, depois da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, a monarquia passou a contar com uma parte do ouro explorado no Brasil Mas afinal quanto chegou esse ouro a Portugal? Onde foi utilizado? Quem o utilizou e em que circunstâncias? Após a descoberta da colónia brasileira, a mesma ficou encarregue de pagar impostos à Coroa Portuguesa, muito deles pagos através da produção açucareira. No entanto, em meados do século XVII, quando D. João V era Príncipe do Brasil, essa produção sofreu uma séria crise, obrigando a antiga colónia a procurar novos territórios e novas formas de pagamento.

diamantina
Diamantina

Foi nessa altura que se passaram a pagar os impostos através de ouro, levando mesmo a um período de grande emigração portuguesa para o Brasil, sendo o século XVIII o período áureo da exploração desse metal, enviado em grandes quantidades para Portugal. Chegaram mesmo a vir para Portugal, durante alguns anos, mais de vinte toneladas de ouro, isto já no período em que D. João V reinava. No entanto, coloca-se aqui a questão, onde foi empregue esse ouro? Muito desse ouro, infelizmente, foi utilizado para o enriquecimento de algumas famílias, outra parte para o enriquecimento temporário das finanças do Estado, enquanto outras partes foram utilizadas para muitos outros assuntos.

São Luís
São Luís

No Brasil, até 1760, ano em que os aluviões começaram a esgotar-se, produziram-se cerca de mil toneladas de ouro. Tudo se resumiu a um enriquecimento temporário das finanças do estado e à formação de algumas, mas poucas, fortunas particulares. Com esses recursos, o rei D. João V, que reinou em Portugal durante toda a primeira metade do século XVIII, promoveu a construção de algumas obras públicas, sendo a mais célebre o palácio-convento nacional de Mafra, cuja construção ocupa quase todo o reinado e que absorveu uma grande parte dos recursos vindos do Brasil.

Tiradentes
Tiradentes – Foto: Hugo Martins

Construiu-se também no Rio de Janeiro o palácio dos governantes. Também com o dinheiro vindo do Brasil o rei pôde intervir em alguns problemas europeus, como na guerra da sucessão de Espanha e, por exemplo, na defesa da Europa contra os Turcos, na batalha naval do cabo de Matapan, que destruiu a armada turca e salvou a Europa de uma ameaça eminente. Contudo, com os vários acordos estabelecidos entre Portugal e a Inglaterra a partir de 1642 (Tratado de Paz e Comércio entre D. João IV e Carlos I de 1642, Tratado de Paz e Aliança de Westminster de 1654, Tratado de Paz e Amizade de 1661, Tratado de Methuen de 1703) foram concedidos grandes privilégios ao comércio e súbitos britânicos, bem como a liberdade do comércio para os ingleses no Brasil e na Índia.

cidades brasileiras
Tiradentes

Alguns historiadores defendem a tese de que o ouro brasileiro ajudou assim Inglaterra a concentrar reservas que fizeram do sistema bancário inglês o principal centro financeiro da Europa. No entanto, importa referir que apenas 20% do ouro explorado do Brasil era destinado à Coroa Portuguesa. Isso significa que grande parte desse mesmo ouro foi investido no próprio Brasil, na construção de cidades, acessos, igrejas e aquedutos. A exploração do ouro no Brasil teve grande importância porque deslocou o eixo político-económico da colónia para região sul-sudeste, com o estabelecimento da capital no Rio de Janeiro. Outro factor importante foi a ocupação das regiões Brasil adentro e não apenas no litoral como se fazia até então.

salvador brasil
Igreja São Francisco (Salvador, Brasil)

A exploração aurífera possibilitou ainda, um enorme crescimento demográfico e o estabelecimento de um comércio/mercado interno, uma vez que os produtos da colónia não eram mais apenas para exportação como ocorria com o açúcar e o tabaco do nordeste e fez com que surgisse a necessidade de uma produção de alimentos interna que pudesse suprir as necessidades dos novos habitantes. Ainda um último aspecto importante da explosão demográfica provocada pelo período de exploração do ouro no Brasil colónia, foi a questão do desenvolvimento de uma classe média composta por artesãos, artistas, poetas e intelectuais que contribuíram para o grande desenvolvimento cultural do Brasil naquela época.

Igreja Nossa Senhora do Pilar – Ouro Preto

Hoje, várias das cidades brasileiras consideradas Património Mundial da UNESCO foram construídas graças ao ouro explorado no Brasil. Também importantes monumentos do Rio de Janeiro, Bahia, Ouro Preto e Olinda, por exemplo, foram feitos à custa desse mesmo ouro. Por fim, resta ressalvar um facto muito importante: ao contrário da tese defendida por muitos historiadores que diz que Portugal roubou o ouro ao Brasil, tal não corresponde à verdade. Nessa altura, o Brasil era território português e, portanto, Portugal apenas estava a explorar algo num território que lhe pertencia.

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Prezado(a), Eu me chamo Felipe Pimenta. Eu nasci no Brasil. A família do meu pai é de origem portuguesa, o que me faz ter duas nacionalidade lusobrasileira. Atualmente, resido na Itália e faço um mestrado em desenvolvimento local. Estudar a história do Brasil e a forma como a “colonização” forçada do nosso território aconteceu e o tratamento de índios e negros, me gerava conflitos com o fato de ter orgulho da minha ascendência portuguesa. Eu visitei Portugal apenas recentemente e o blog foi muito rico na minha tomada de decisão. Acompanho as matérias. Para mim, está matéria que fala sobre o Ouro proveniente do Brasil é péssima. Como você se refere ao fato como deveríamos ser gratos pelas cidades históricas serem consideradas patrimônios graças a isso, é horrível. Você sabe quantas vidas de negros que não queriam a escravidão foram ceifadas no Brasil? A população indígena foi quase dizimada. E o que nos resta é ficar gratos por termos patrimônios pela UNESCO? Vou oficializar uma carta de repúdio à sua matéria pelas organizações brasileiras que faço parte e esclarecer alguns dados históricos que você não mencionou, talvez por desconhecimento, que pode gerar faltas interpretações do que você está dizendo.

  2. Prezado Felipe Pimenta.
    Como brasileiro, e bisneto de português, entendo o seu sentimento, pois por muito tempo dele compartilhei. Contudo, após não somente o doutoramento em História, mas também um longo trabalho em pesquisa na área de História Colonial, vejo hoje o quanto a minha visão interpretativa era distorcida. Evidente, que essa é uma discussão longa, não cabendo aqui ser abordada com a profundidade devida.
    É verdade que o ouro explorado sob o poder da Coroa de Portugal deixou realmente um legado, e não só arquitetônico, de grande importância. Por outro lado, uma quantidade maior de ouro do que a extraída durante o período colonial foi retirado do garimpo de Serra Pelada, durante o regime militar e o legado deixado foi de pobres barracos e um grande buraço, hoje cheio de água. Como temos o costume de botar na conta da colonização portuguesa tudo que temos de negativo, como ficamos no caso do ouro?
    O que posso dizer em poucas palavras é que da história da colonização brasileira é de uma complexidade enorme, e, em grande parte, ainda não entendida. Basta observar que quando do início da nossa colonização a população de Portugal se restringia a pouca mais de um milhão de pessoas. Ao mesmo tempo, Portugal estava envolvido na construção da primeira estrutura geopolítica verdadeiramente globalizante. Ou seja, o número de portugueses diponível para dar conta do nosso processo colonial era certamente exíguo. No entanto, contado com um número insignificante de reinós, o nosso processo colonial resultou na formação de um país gigantesco, que vem a ser o maior espaço contínuo unido por uma única língua já existente, e essa língua é a do pequeno Portugal.
    Evidente que, como brasileiro, não tenho razão em fazer discursos apologéticos a favor da colonização portuguesa, contudo hoje vejo o quanto é negativo o hábito de depreciar nossa formação histórica e cultural. Infelizmente não temos a oportunidade de aprofundar essa discussão, mas, calcado na minha vivência acadêmica, sugiro refletir sobre as versões históricas preconcebidas, com que somo bombardeados desde a formação primária,
    Um abraço
    Renato Pereira Brandão

  3. Tampouco concordo com esta historia de roubar o ouro do Brasil . Também não considero que haja uma relação de amor/ódio entre nosotros, situação que já ocorreu quando a seleção portuguesa eliminou o Brasil em 66 ( se não me falha a memória) . Fora este evento de importância histórica o que mais me desgosta é ver os portugueses a pronunciar i no lugar de e ou u no lugar de o, enquanto os brasileiros nos orgulhamos de pronunciar o português exatamente como escrevemos. Mas dizem que faz parte da evolução da língua e que os brasileiros ficamos no passado, também com relação a língua. Imaginem se não houvesse o tão execrado “acordo ortográfico”. Teríamos que tomar aulas de português para poder ler um livro do Saramago.
    Outro dia num programa de TV o reporter saiu à rua a perguntar como se escrevia êliatório ( palavra que desconheço, mas que grafaria com ê e i) . Ora , pois , tratava-se da palavra aleatório, que nenhum brasileiro tem dúvida quanto à grafia, embora , talvez quanto ao significado. Ou seja os portugueses estão a falar nossa língua de maneira aleatória ( ou seria êliatória).
    Quanto ao “ouro do Brasil” o problema não é se era de Portugal ou era dos índios, e tampouco se os índios foram dizimados ou os negros escravizados, porque esta é uma idiotice esquerdista, progressista , e outros istas contemporâneos. O que importa é que os Dons Joões , Pedros e Afonsos ficaram a construir igrejas e conventos e a revesti-los com ouro e não construíram navios e canhões de modo que quando o sexto ( que ainda não era Sexto) teve que fugir do Napoleão não tinha nem um navio que o levasse ao Brasil e teve que pedir boleia aos ingleses, que acabaram ficando com o “ouro do Brasil”
    O resto é bobagem.
    É claro que ao visitarmos os Palácios e Igrejas construídos com a riqueza extraída das colonias ficamos maravilhados e orgulhosos de pertencermos à esta nação luso brasileira. Não se pode esquecer , porém , que não se pode transmutar ouro em palácios ou igrejas sem os milhares de artesãos que com mãos , marretas e cinzéis criaram estas obras maravilhosas. E que dizer da logística ??
    Ao contemplar o mosteiro da Batalha ou dos Jerônimos os brasileiros costumam pensar ” olha o que os portugueses fizeram com o ouro que roubaram do Brasil”. Mentira.! Os Jerônimos são do século XVI e a Batalha do XIV. Quanto a por a culpa nos portugueses, acho que, sim têm parte da culpa. Mas não por terem matado índios ou negros, mas por não terem com a riqueza que tinham em mãos construído uma nação forte, próspera e feliz. A este respeito recomendo um conto do nosso querido Eça ( sem dúvida o maior escritor da nossa língua) chamado “A Catástrofe”, que acredito quase nenhum português conheça, mas que descreve muito bem o espírito de ” under dog” que parece permear nossa civilização luso brasileira.
    A respeito dos comentários sobre índios e negros tão ao gosto das mentalidades “libertárias” que nos tampos atuais ” se alevantam” gosto muito destes versos do nosso poeta maior :
    No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
    Destemperada e a voz enrouquecida,
    E não do canto, mas de ver que venho
    Cantar a gente surda e endurecida.

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