No coração de Trás-os-Montes, envolvido por um parque centenário de árvores altas e alamedas geométricas, o Vidago Palace Hotel continua a afirmar-se como um dos edifícios mais ambiciosos erguidos em Portugal no início do século XX.
A fachada, marcada pela estética Belle Époque, antecipa salões de pé-direito elevado, escadarias monumentais e uma escala pouco comum no interior norte do país.
A sua construção inscreve-se num momento em que Portugal procurava posicionar as estâncias termais nacionais ao nível de referências europeias como Baden-Baden ou Vichy. Vidago pretendia ser sinónimo de luxo cosmopolita, ancorado na reputação das suas águas minerais.
Um palácio inaugurado sem rei
Mandado construir por D. Carlos I, o edifício foi pensado como residência de veraneio da Família Real e como âncora de uma estância termal de elite.
O destino, porém, introduziu uma ironia histórica: a inauguração oficial teve lugar em outubro de 1910, na mesma semana em que a Implantação da República pôs fim à monarquia portuguesa.
O hotel abriu portas com aparato, mas sem a presença da coroa para a qual fora idealizado. Esse desfasamento conferiu-lhe uma identidade singular — um palácio concebido para a realeza que passou a acolher a nova elite republicana, mantendo nos salões, nas sedas e veludos e na escadaria de madeira a etiqueta de um tempo formal que, politicamente, já tinha terminado.
Uma máquina de cura no meio da floresta
Para além da dimensão simbólica, o Vidago Palace foi concebido como centro terapêutico. As águas minerais de Vidago, conhecidas desde o século XIX, eram procuradas para tratamentos associados ao aparelho digestivo e metabólico.
O parque não foi desenhado apenas para contemplação. As alamedas obedeciam a percursos calculados para a chamada “cura de repouso”: caminhadas moderadas entre a ingestão de água nas fontes e o regresso aos quartos faziam parte do tratamento clínico.
Os pavilhões termais em ferro e vidro representavam a modernidade industrial aplicada à medicina da época.
Hoje, essa vocação mantém-se através do balneário termal e do spa contemporâneo, instalado num edifício separado que dialoga com o palácio histórico. O contraste entre o Salão Nobre restaurado — com pinturas murais e dourados — e as valências modernas de bem-estar evidencia a continuidade da função curativa.
Diplomacia discreta em tempos de guerra
Durante as décadas de 1930 e 1940, num contexto de neutralidade portuguesa na Segunda Guerra Mundial, o hotel assumiu um papel menos visível mas relevante. A localização discreta no Norte e o campo de golfe — um dos primeiros e mais exclusivos do país — criaram um ambiente propício a encontros reservados.
Diplomatas, membros de famílias reais europeias no exílio e outras figuras políticas cruzavam-se nos salões sob o pretexto das águas termais. O palácio tornou-se, assim, palco de uma diplomacia silenciosa, onde se discutiam estratégias longe dos grandes centros urbanos.
Um legado preservado
Ao longo do século XX, o Vidago Palace conheceu períodos de encerramento e reabilitação profunda. A intervenção no início do século XXI devolveu-lhe o esplendor original, adaptando o edifício às exigências contemporâneas sem descaracterizar a arquitetura de José Ferreira da Costa.
Hoje, é simultaneamente hotel histórico e testemunho de um momento charneira da história portuguesa. Foi o último grande palácio construído no país, projetado para uma monarquia que deixou de existir antes de o ocupar.
Entre águas minerais, parque centenário e arquitetura cerimonial, o Vidago Palace permanece como um caso singular: um edifício nascido para um regime que desapareceu, mas que encontrou nova vida ao reinventar a sua função sem abdicar da memória.







