No Mosteiro de Alcobaça existe um pormenor nos túmulos de D. Pedro I e D. Inês de Castro que diz tudo sobre a intensidade do que os uniu: os dois estão colocados frente a frente, para que, quando ressuscitarem segundo a crença cristã, se possam levantar e ver-se imediatamente.
A mesma sala que guarda esse gesto do amor guarda também o resultado do ódio: foi aqui, neste mosteiro, que D. Afonso IV ouviu os conselhos dos três homens da sua confiança e decidiu mandar matar Inês.
A história de Pedro e Inês
D. Pedro estava casado com D. Constança de Castela quando se apaixonou por uma das suas aias — Inês de Castro, jovem galega de ascendência nobre do noroeste peninsular.
A relação era mal vista pelo rei, pela nobreza e pelo povo: havia a preocupação de que a influência dos irmãos de Inês pusesse em risco as relações com Castela e o próprio trono português.
D. Constança, humilhada, chegou a convidar Inês para madrinha do filho D. Luís — os costumes da época proibiam o relacionamento com comadres. D. Luís morreu poucos dias depois; D. Constança faleceu em 1345, após o parto de D. Fernando.
Sem o obstáculo do casamento, Pedro e Inês assumiram a relação e tiveram quatro filhos — D. João, D. Dinis, D. Beatriz e um que não sobreviveu.
A decisão de D. Afonso IV foi tomada em Alcobaça. Inês foi degolada em Coimbra, a 7 de janeiro de 1355, enquanto D. Pedro andava à caça.
A vingança e a lenda
Em 1356 morreu D. Afonso IV, e D. Pedro assumiu o trono. Dois dos assassinos de Inês foram capturados e mortos brutalmente — com o coração arrancado ainda em vida. O terceiro escapou.
D. Pedro mandou trasladar o corpo de Inês para um túmulo no Mosteiro de Alcobaça. A lenda acrescenta que o rei exigiu que a corte a reconhecesse como rainha postumamente, forçando o beija-mão ao cadáver e declarando que se tinha casado secretamente com ela — de modo a legitimar os filhos. Verdade ou invenção, o gesto faz parte da memória cultural portuguesa de uma forma que a documentação raramente consegue.
Os dois túmulos estão ricamente decorados, com as estátuas de cada um coroadas, e estão posicionados para o encontro descrito acima.
O mosteiro e a sua fundação
A Abadia de Santa Maria de Alcobaça nasceu da conquista de Santarém: D. Afonso Henriques ofereceu o terreno à Ordem de Cister, e o local foi construído no século XII segundo o modelo da casa da ordem em Claraval, França. Foi a primeira obra da arquitetura portuguesa inteiramente construída no estilo gótico.
Com mais de 200 metros de comprimento, o mosteiro está dividido em três corpos: uma igreja com fachada de mais de 40 metros de altura, uma ala Norte que servia o rei e a corte nas visitas, e uma ala Sul para habitação dos monges.
Está classificado como Património Mundial da UNESCO, foi considerado uma das 7 Maravilhas de Portugal, e distinguiu-se entre 794 monumentos candidatos nessa votação.
O Mosteiro de Alcobaça é simultaneamente o lugar onde uma morte foi decidida e o lugar onde o amor a sobreviveu. D. Afonso IV mandou matar Inês neste mosteiro; D. Pedro colocou os dois túmulos frente a frente.
É uma das histórias mais densas do medievalismo português, guardada em granito e numa das obras mais importantes do gótico nacional.







