Há aldeias que guardam os seus segredos no alto de um monte ou por detrás de uma porta fechada. Lapas, no concelho de Torres Novas, guarda os seus por baixo. Literalmente.
Sob os alicerces das casas, estende-se uma rede de galerias escavadas na rocha calcária que mistura geologia, arqueologia e lenda com a naturalidade de quem já não consegue separar uma coisa da outra.
As Grutas das Lapas são classificadas como imóvel de interesse público desde 1943. Apesar disso, continuam a ser um dos conjuntos subterrâneos menos conhecidos do país — e dos mais intrigantes.
A história da sua formação e uso perde-se antes da escrita. Acredita-se que a escavação terá começado há milhares de anos, possivelmente ainda no Neolítico. O que está mais documentado é a extração de tufo calcário — rocha porosa usada na construção — a partir do período romano.
Mas a verdadeira extensão da rede, e o que a motivou nas suas origens, ainda alimenta o trabalho de arqueólogos e investigadores sem conclusão definitiva à vista.
O que torna Lapas singular é a convivência entre o subterrâneo e o quotidiano. Parte das grutas funciona hoje como cave ou espaço de arrumação das casas que ficaram por cima.
A aldeia cresceu sobre elas, incorporou-as, e acabou por torná-las parte da sua identidade doméstica. Só uma pequena secção está aberta ao público — cerca de 700 metros quadrados — e o acesso faz-se por uma rua estreita, sem passeio, com estacionamento escasso. Quem quiser entrar deixa o carro junto ao rio Almonda e percorre o resto a pé.
As lendas acompanham o percurso. A mais persistente fala de um túnel que ligaria as grutas ao Castelo de Torres Novas, a vários quilómetros de distância. Não há provas. Mas a hipótese sobrevive nas conversas da aldeia com a tenacidade das histórias que não precisam de ser verdadeiras para serem importantes.
Há também Vítor “Cartaxo”, habitante de Lapas que há anos acompanha visitantes pelas galerias e guarda os relatos orais sobre artefactos antigos encontrados no subsolo.
Foi ele quem contribuiu para preservar a memória da descoberta de uma imagem de Nossa Senhora da Vitória, hoje exposta na igreja local — mais um fio que se entretece neste lugar onde o sagrado e o geológico partilham o mesmo espaço.
Nos últimos anos, a Câmara Municipal de Torres Novas investiu na valorização do sítio. Criou um centro interpretativo com conteúdos sobre a formação geológica da região, a fauna fóssil encontrada nas redondezas e as principais teorias sobre a utilização das grutas ao longo dos séculos. Melhorou os acessos, reforçou a segurança.
Mas grande parte do complexo continua por explorar — as galerias estendem-se sob propriedades privadas, o que limita tanto a investigação científica como a abertura ao público.
É esse resto desconhecido que dá às Grutas das Lapas a sua melhor qualidade: a de um lugar que ainda não se esgotou. Que tem mais para dar do que aquilo que já mostrou.






