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Fafião: o rio (quase) secreto do Gerês é um paraíso de cascatas e lagoas

Um pequeno paraíso, quase secreto, repleto de lagoas onde pode tomar banho. Descubra o deslumbrante rio Fafião, no Parque Nacional Peneda Gerês.

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Rio Fafião
Rio Fafião

Inserida no Parque Nacional da Peneda-Gerês, reserva Mundial da Biosfera, Fafião é uma pequena aldeia comunitária onde ainda residem as ancestrais e seculares tradições vezeireiras (transumância de gado). Durante muitos anos o turismo do Gerês referenciou-se pelas suas termas e, desde então, a evolução da Vila do Gerês bem como dos seus arredores viraram um enorme pólo de atracção turística.

No entanto, nos últimos anos, há algo está a mudar no Turismo do Gerês e do Parque Nacional. Com a abertura do Porto ao turismo internacional e uma mudança social cada vez mais virada para as boas práticas naturais, a evolução no Parque Nacional está a ocorrer para as laterais da vila do Gerês. Locais como Castro Laboreiro, Soajo, Peneda, Pitões das júnias, Fafião entre outras dezenas de aldeias, estão a beneficiar deste novo turismo que está em voga, o Turismo Sustentável, o Turismo de Natureza.

Rio Fafião
Rio Fafião

Hoje damos a conhecer um dos mais fabulosos cursos de água do Parque Nacional, e da Serra do Gerês, o Rio Fafião. Sendo um dos maiores afluentes do Cávado, aproximadamente com doze quilómetros de extensão, decidimos dividir o rio em três secções para o podermos explicar melhor.

Desde a sua nascente, no coração do Parque Nacional, ao longo de sete quilómetros, as paisagens são de tirar a respiração nesta que consideramos a primeira secção do Fafião. Há um trilho da Vezeira que passa por estas bandas: o seu enquadramento paisagístico é único e aconselhável apenas a pessoas mais experientes em montanha, ou com requisição a guias de montanha experientes, que abundam por terras de Montalegre.

As mariolas (guias mestras por estas terras) são o fio condutor que nos leva das Fichinhas, prado ou curral usado pelas vezeiras para manter o gado nas épocas quentes, até ao Porto da Laje, uma represa criada na década de cinquenta que desvia as águas debaixo de terra numa extensão de mais de catorze quilómetros até à Barragem de Paradela. Esta hídrica deslumbra pela sua beleza: acumula uma quantidade de água considerável ladeada por uma pequena praia fluvial de areia branca e fina que se foi depositando com o tempo e está rodeada por bosques frondosos e paredes graníticas que nos fazem sentir bem pequenos.

Praia do Fafião
Praia do Fafião

Antes de abraçar o Porto da Laje, mais uma cabana centenária que assinala a inequívoca presença dos pastores Fafiotos, a Touça, prado também activo de Maio a perto do final de Agosto, altura em que o gado bovino de Fafião se desloca para outras paragens. A Touça tem uma particularidade: um conjunto de autênticas piscinas naturais a poucos metros de distância do seu prado a que damos o nome de poços.

Por terras de Fafião não existem lagoas, o nome tradicional é poços. Em tom de brincadeira, e porque naquele local especifico não existe toponímia, apelidaram o escorrega da Touça, um poço utópico que é o término de um tobogã natural em rocha escorregadia por onde o rio atravessa.

Escorrega da Touça
Escorrega da Touça

Partimos do Porto da Laje rio abaixo e é fácil de entender que o rio aqui sofreu algumas alterações causadas pelo Homem. Não foram no entanto de todo negativas. Os amontoados de rocha caiada dão lugar a uma curta passagem de água ao longo de quilómetro e meio e lá encontram-se mais dois poços.

Escorrega da Touça
Escorrega da Touça

Um deles é o Poço do Pereira, mais uma pérola perdida dentro do nosso Parque Nacional, cujo azul reflectido pelo céu sobe as rochas brancas nos eleva a outra dimensão da beleza paisagística. É neste trecho do Fafião que ele volta a ser alimentado pelas cascatas ou fechas (nome utilizado por estas terras para definir um conjunto de cascatas) e ganha novo fulgor para a segunda secção do Rio.

Poço do Pereira
Poço do Pereira

Neste virar de página no Rio Fafião a natureza revolta-se, baralha os dados, e oferece aos mais destemidos um dos melhores cursos de Canyoning do país, talvez um dos mais técnicos e perigosos já que aqui não se entra sem cordas. E nos próximos três quilómetros de rio são saltos de mais de oito metros para a água, sem que seja possível voltar atrás, entre paredes graníticas laterais lisas de mais de trinta metros.

Chamam-lhe o Fafião Superior e são por vezes necessárias mais de seis horas consecutivas para o atravessar. Mas a beleza deste Rio atinge aqui o seu clímax, poço sobre poço, fecha sobre fecha, muralhadas pela rocha mãe do Parque Nacional, com autênticos bosques autóctones de carvalhos com centenas de anos vítimas de intempéries que o clima agreste lhes concede.

Rio Fafião
Rio Fafião

O Sol raramente aqui permanece: é um local húmido, escorregadio e num pequeno teste percebemos que os poços eram iluminados apenas às onze horas da manhã e voltavam a ficar sombreadas pelas duas horas da tarde. Os cumes destas escarpas naturais são habitados por águias cobreiras e águias de asa redonda, tal a impossibilidade de a mão humana lhes chegar.

É neste ambiente que se desemboca num dos maiores poços do Parque Nacional, cuja profundidade descenderá aos quarenta metros e cujas escarpas que o ladeiam ascendem aos trinta metros sendo que única entrada se faz através de um salto de mais de oito metros a jusante. Quem o desce sabe que depois deste santuário a que chamam de Poço da Cabriteira terão que descer sobre outro Poço inferior numa queda que ascende a vinte metros suspensos por uma corda sem apoio de rocha.

Poço da Cabriteira
Poço da Cabriteira

A aventura termina numa ponte que serve o estradão de ligação entre a aldeia de Fafião e a cabana de Pinhô, um dos bastiões da Vezeira da aldeia. Começa aqui aquela que consideramos a terceira e última secção do Rio Fafião. Aqui é convidado o comum dos humanos: as águas acalmam, as paredes afuniladas voltam a ceder terreno a zonas menos perigosas, mas não menos exuberantes.

A recepção começa a alguns metros da ponte, ao sabor do rio, onde encontramos o ex-libris fafioto, o Poço Verde. Se o Poço da Cabriteira é a jóia secreta natural de Fafião, o Poço verde é o orgulho da aldeia. Lá aprenderam a nadar muitos dos habitantes e ainda hoje serve tanto as empresas de animação turística que respeitam a aldeia como os próprios Fafiotos. A sua localização é perfeita, a poucos metros da aldeia. E a sua fauna é imensurável: as bogas e os escalos transformam este poço numa espécie de viveiro e podemos nos seus fundos observar a espécie cujo reinado abraça o Rio Fafião de uma ponta à outra sobrevivendo e prosperando – a truta.

A passagem entre pontes leva os astutos e corajosos a fazer a curta ligação de oitocentos metros, terminando à beira da estrada na ponte da Pigarreira mas, até lá, para além do Poço Verde ainda passamos pelo Poço Negro entre uma dezena de poços recomendáveis, puras piscinas para todos os gostos.

Poço Verde
Poço Verde

A terceira secção do Rio Fafião começa na Ponte da Pigarreira. É uma área de lazer disponível ao turista que goste pouco de aventuras mas que aprecie uns bons banhos ou umas valentes patuscadas. Há um pequeno parque de merendas, uma fonte de água que vem directamente do alto da serra, e um conjunto de poços que se dão pelo nome de Piscinas do Fafião. Convidativo até para os mais novos porque a sua fundura não é grande.

É nestas piscinas que o Rio Conho vê o seu término, fundindo-se com o Fafião. A partir da Pigarreira volta a aventura. Para alguns adeptos mais experientes em montanha, o Rio Fafião vai oferecer nos seus últimos três quilómetros vários moinhos abandonados que ladeiam o rio, poços pequenos mas fantásticos, e até algumas praias de areia fina secretas.

Ali, um pouco abaixo da Pigarreira, existe um Moinho e um Lagar do Azeite comunitário, estando este último ainda ao serviço do povo da aldeia de Fafião. Ainda nesta secção, também escondido dos olhares menos experientes, encontramos outro dos últimos redutos de beleza aquática Fafiota, o Poço da Cancela, fechas que circundam granitos aguçados emparedando uma piscina natural com mais de vinte metros de profundidade.

Poço da Cancela
Poço da Cancela

Esta última secção do Rio apela à aventura de rocha em rocha, onde é possível fazer a ligação do Poço da Cancela à cascata mais visitada do Parque Nacional, a Fecha de Barjas, ou cascata de Várzeas para os habitantes da Ermida, aldeia fronteiriça a Fafião. Pelo caminho não faltarão recônditos fabulosos dentro do que é considerada uma das melhores áreas protegidas do nosso Parque Nacional.

Fecha de Barjas
Fecha de Barjas

O Rio Fafião termina numa área que denominaram “As Dornas”, escondida dos transeuntes que percorrem as zonas comerciais, é aqui que se misturam as águas do Fafião com as do Cávado, límpidas e verdejantes como os poços, efeito causado pelas areias dos seus fundos. Uma bonita forma de terminar um dos melhores e maiores afluentes do Cávado, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, e que merece uma visita certamente de todos aqueles que amam rios de montanha em estado puro.

Fafião tem para oferecer depois de um dia de rio: não apenas alojamento económico como também uma vasta de gastronomia nos seus restaurantes, típicos da região que representam, o baixo barroso, acompanhadas do som dos chocalhos das Cabras autóctones que chegam da serra escoltadas pelos pastores comunitários e que carregam em si todo um legado de histórias de lobos e vivências que só a simpatia do povo Fafioto pode transmitir entre sorrisos.

Autor: Júlio Marques

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