À beira do Tejo, a cerca de uma hora de Lisboa, existe uma aldeia que não tem paralelo na arquitetura ribeirinha portuguesa. As casas de Escaroupim são de madeira, pintadas em cores vivas, e assentam sobre estacas que as elevam do solo — proteção contra as cheias que durante décadas inundavam estas margens com regularidade.
Não são casas que se esperem encontrar no Ribatejo. A razão da sua existência tem a ver com quem as construiu — e de onde vieram.
Os nómadas do rio
Em meados dos anos 30 do século XX, pescadores oriundos da Praia da Vieira, na Marinha Grande, começaram a vir sazonalmente ao Tejo. Chegavam no inverno, quando o sável e as enguias abundavam neste troço do rio, e regressavam ao litoral no verão.
O escritor Alves Redol chamou-lhes “nómadas do rio” — uma designação que captura com precisão o que foi uma das migrações sazonais mais singulares da história contemporânea de Portugal.
Com o tempo, as estadias foram ficando mais longas. As barracas provisórias tornaram-se casas. As casas fixaram famílias. E Escaroupim, que não existia antes desta chegada, foi tomando forma ao longo das margens.
A pesca que as mulheres também faziam
A divisão do trabalho em Escaroupim não seguia a norma. De noite, enquanto o homem lançava as redes ao rio, a mulher remava — mantendo a embarcação no ponto certo durante horas, no escuro, com a corrente do Tejo a trabalhar contra. De dia, era também a mulher quem percorria as aldeias das redondezas a vender o peixe.
Era trabalho duplo, essencial, e durante décadas pouco reconhecido fora da própria comunidade. Alves Redol documentou estas gentes e este modo de vida com uma atenção que poucos escritores portugueses da época dedicaram ao trabalho feminino rural e ribeirinho.
As casas sobre estacas
A arquitetura de Escaroupim é o elemento mais imediato e mais surpreendente. As casas de madeira elevadas sobre estacas não são decorativas — são uma resposta prática às cheias sazonais que tornavam as margens do Tejo inabitáveis a nível do solo.
A madeira, trazida de fora, substituiu o tijolo e a pedra que os habitantes originais desta região usariam. O resultado é um conjunto de habitações coloridas que não se parecem com nada do que existe em redor.
A Casa Típica Avieira, preservada pela Câmara Municipal, permite visitar o interior de uma destas habitações — o mobiliário, os utensílios, a escala comprimida das divisões. É a forma mais direta de perceber como se vivia aqui.
O museu Escaroupim e o Rio reúne a memória das comunidades ribeirinhas do Tejo e contextualiza a aldeia no conjunto mais amplo das povoações avieiras que se foram formando ao longo do rio.
O que resta
Escaroupim tem hoje menos de cem habitantes, quase todos de idade avançada. A pesca profissional acabou. As cheias já não chegam com a mesma regularidade desde que o rio foi regularizado.
As casas sobre estacas perderam a função prática que as justificava — mas continuam de pé, pintadas, cuidadas pelos que ficaram e pelos que regressam ao fim de semana.
Há um parque de merendas, passeios de barco disponíveis, e a Mata Nacional do Escaroupim nas imediações, com zona de campismo e condições para observação de aves ao longo da margem.
Ao fim da tarde, com o Tejo largo e quieto à frente e as casas de madeira a apanhar a última luz, Escaroupim tem a aparência de um lugar que sobreviveu a si próprio.
Os nómadas que chegaram no inverno de 1935 não imaginavam estar a fundar uma aldeia. Fundaram, e ela ainda existe — frágil, colorida, sobre estacas, à beira do rio que a criou.







