Emprestar o carro a um amigo ou familiar é um gesto habitual, mas que levanta sempre uma dúvida legítima: em caso de acidente, quem fica com o problema nas mãos?
Em Portugal, a resposta simples é que o seguro cobre, mas a realidade é um pouco mais complexa do que parece à primeira vista.
Hoje em dia, com contratos cada vez mais detalhados e seguradoras mais exigentes na análise do risco, convém saber exatamente o que acontece antes de entregar as chaves.
O seguro está ligado ao carro, não a quem conduz
O seguro obrigatório de responsabilidade civil está associado à matrícula do veículo. Isto significa que, se emprestar o carro e o condutor provocar um acidente com culpa, o seguro do veículo irá indemnizar os terceiros lesados, independentemente de quem estava ao volante.
No entanto, essa proteção não é neutra para o proprietário:
- Histórico de sinistros: O acidente fica registado no seguro do dono do carro, podendo levar à perda de bónus e ao aumento do prémio na renovação.
- Franquia: Se existir cobertura de danos próprios, cabe ao proprietário pagar a franquia prevista para reparar o próprio veículo.
A importância do condutor habitual
É neste ponto que surgem muitos problemas. Se a pessoa a quem empresta o carro o utiliza com frequência, mas não está identificada na apólice, a seguradora pode considerar que houve omissão de informação relevante.
O risco é ainda maior quando se trata de:
- Condutores com menos de 25 anos;
- Condutores com carta há menos de dois anos.
Nestes casos, a seguradora pode indemnizar os terceiros, mas exercer o chamado direito de regresso, exigindo depois ao proprietário o reembolso das quantias pagas. Em alternativa, pode aplicar franquias agravadas ou penalizações contratuais elevadas.
Quem conduz e qual o risco associado?
| Situação | Cobertura legal | Risco para o proprietário |
|---|---|---|
| Familiar direto ou cônjuge | Regra geral, sim | Baixo, se experiente |
| Amigo em uso pontual | Sim | Médio (afeta bónus) |
| Condutor jovem não declarado | Sim para terceiros | Elevado |
| Carta recente não declarada | Sim para terceiros | Elevado |
Situações em que o seguro pode falhar
Há circunstâncias em que a proteção do seguro fica seriamente comprometida, mesmo que o carro esteja devidamente segurado:
- Condução sob efeito de álcool ou drogas: O seguro indemniza terceiros, mas pode exigir ao proprietário a devolução integral do valor pago.
- Falta de carta válida: Emprestar o carro a quem não está legalmente habilitado pode anular a cobertura e configurar crime.
- Uso diferente do declarado: Utilização do veículo para fins profissionais, entregas ou transporte de passageiros sem cobertura específica invalida a apólice.
Boas práticas antes de emprestar o carro
Antes de fazer o favor, convém tomar algumas precauções simples:
- Confirmar que a carta de condução do condutor está válida.
- Verificar se a apólice não inclui cláusulas de condutor exclusivo.
- Avaliar se o empréstimo é pontual ou recorrente.
- Combinar previamente quem assume a franquia ou eventuais custos adicionais em caso de acidente.
Emprestar o carro de forma pontual é, na maioria dos casos, legalmente seguro, uma vez que o seguro acompanha o veículo. No entanto, o impacto financeiro de um acidente recai quase sempre sobre o proprietário, seja através da franquia, da perda de bónus ou de agravamentos futuros.
Quando o empréstimo deixa de ser excecional, a solução mais sensata é informar a seguradora e declarar o condutor como ocasional. Evita surpresas e garante que um gesto de confiança não se transforma num problema duradouro.






