Chega-se a Drave a pé. Não há outra forma. O trilho começa em Regoufe, tem quatro quilómetros, e começa com uma subida acentuada que no topo abre para uma vista sobre a serra antes de descer até à cova onde a aldeia está encaixada — entre as serras da Freita, de São Macário e da Arada, a cerca de 600 metros de altitude, sem eletricidade, sem água canalizada, sem rede móvel, sem gás, sem correio.
Drave está desabitada há mais de dez anos. E no dia 15 de agosto tem festa.
O que se encontra ao chegar
As casas são de pedra lousinha com telhados em xisto — os mesmos materiais da encosta em redor, como se a aldeia tivesse crescido da própria geologia. Muitas estão em ruínas, os telhados cedidos, as paredes abertas ao tempo. Outras mantêm a estrutura suficiente para perceber o que foram.
A chapel de Nossa Senhora da Saúde está revestida a cal e cerâmica — um ponto de cor no conjunto dominado pelo cinzento do xisto. O solar tem balcão e dois pisos, com o andar superior caiado de branco. Os restos de uma adega ainda são identificáveis.
Na parte mais baixa da aldeia, dois espigueiros comunitários de grandes dimensões — construções que eram de toda a comunidade e que continuam de pé quando a comunidade já não existe.
Os socalcos das encostas ainda mostram a agricultura que ali se fazia. A terra é fértil — os rios e ribeiras que descem por esta encosta garantiram isso durante séculos. A primeira referência documentada a Drave é do reinado de D. Dinis, no século XIV.
A ribeira e as piscinas naturais
O rio de Drave nasce da confluência do rio de Palhais, do Ribeirinho e do ribeiro da Bouça. Ao longo das margens, as piscinas naturais e as cascatas da ribeira de Palhais são o contraponto fresco às ruínas lá em cima — sombra, água fria, o som constante de uma corrente que não sabe que a aldeia ficou vazia.
É o lugar certo para parar antes do regresso a Regoufe — que pela mesma subida de ida, mas ao contrário, se sente mais no final do dia do que no início.
A festa, a família e os escuteiros
No dia 15 de agosto, Drave tem Eucaristia, procissão e piquenique comunitário em honra de Nossa Senhora da Saúde. A aldeia está desabitada, mas a festa não parou.
A família Martins — uma das mais antigas e numerosas, e a última a abandonar o lugar — reúne-se aqui a cada dois anos. É uma forma de presença que o abandono definitivo não conseguiu apagar.
Desde 2003, o Corpo Nacional de Escutas tem em Drave a Base Nacional IV — um centro para caminheiros entre os 18 e os 22 anos que recebe anualmente milhares de escuteiros portugueses e estrangeiros. São eles que asseguram boa parte da manutenção e reconstrução dos edifícios que ainda resistem.
O trilho
O PR14 de Arouca começa depois da ponte em Regoufe — deixe o carro no largo antes de descer. A subida inicial é a parte mais exigente; o resto do percurso é menos exigente, por estrada rochosa.
Conta com cerca de duas horas em cada sentido. Água, chapéu e lanche não são sugestão opcional — não há nada em Drave para comprar nem ninguém a quem pedir.
Há aldeias abandonadas que transmitem tristeza. Drave transmite outra coisa — talvez porque a festa de agosto continua, porque a família Martins volta de dois em dois anos, porque os escuteiros chegam todos os verões para reparar o que o inverno desfez. O abandono aqui não é definitivo. É uma pausa longa, com pessoas que ainda não se resignaram a que seja permanente.







