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Coisas que você não sabia: o Castelo de São Jorge tem apenas 80 anos de idade

Pode parecer estranho, mas o título não engana. O Castelo de São Jorge, em Lisboa, tem na realidade apenas 80 anos. Confuso? É melhor ler o artigo.

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Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

É um castelo medieval com cerca de 80 anos. Confuso? Passamos a explicar: o castelo que vemos hoje foi reconstruído entre 1938 e 1940 a partir das fundações da fortaleza original – que foi abaixo várias vezes. Até aos anos 40 o topo da colina era ocupado por estruturas militares e ruínas. A reconstrução do Castelo de São Jorge não respeitou quase nada da traça original da antiga fortaleza.

Os motivos desta profunda remodelação foram profundamente ideológicos: estávamos em plena ditadura e o interesse do poder dominante era exaltar o orgulho português, considerando especialmente que se estavam a comemorar os 8 séculos da fundação de Portugal.

Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

A intervenção realizada pela DGEMN de 1938 a 1940 incidiu, numa primeira fase, na expropriação e demolição de edifícios, nomeadamente de estruturas arquitectónicas posteriores à época manuelina – séculos XVII e XVIII – operações de desaterros e remoção de entulhos, abrangendo uma escala monumental que correspondeu a cerca de metade da área da freguesia do Castelo e ainda na sua área adjacente, exterior às muralhas, com maior incidência a Norte e Oeste das muralhas.

Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

Na segunda fase da intervenção, realizaram-se obras de restauro e reconstituição do Castelejo ou Fortaleza; restauro de algumas muralhas da alcáçova; intervenções no piso térreo dos quartéis – antigo Paço da Alcáçova – composição de um conjunto de ruínas – possivelmente do Paço – e abertura de um percurso exterior às muralhas Norte e Oeste.

Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

A intervenção no Castelo de S. Jorge foi avultada na medida em que a sua reconstrução foi geral, quase total e foi sustentada por critérios ideológicos onde verdadeiramente se operava com um espírito de reinvenção histórica, relegando para segundo plano a autenticidade do restauro, procurando-se antes de mais fabricar símbolos, mesmo sendo falsos.

Ou seja, esta operação de restauro “seria devastadora, fruto do cariz exemplar que lhe foi atribuído pelo regime” (Correia, 2010, p.403) e modificou em grande escala o tecido urbano envolvente, sendo demolidos vários edifícios do quartel e reaproveitados alguns vestígios de construções anteriores.

Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

As obras efectuadas foram exaustivas e incidiram numa primeira fase sobretudo em escavações e demolições que retiraram da área de intervenção um total de entulho estimado em 120.000 m³, sendo que em alguns casos as escavações atingiram profundidades de 8 metros.

Castelo de São Jorge

O restauro ou reconstrução do Castelo seria a segunda fase da intervenção, sendo que não se pretendia somente uma reconstituição do edifício. Era necessária a valorização do objecto arquitectónico para que este se transformasse em espaço público.

Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

A intervenção no Castelejo incidiu na demolição das edificações existentes no seu interior, libertando os seus dois pátios de qualquer edifício, para posteriormente se reconstruírem os adarves; as ameias e as seteiras seguindo o modelo dos vestígios encontrados, assim como as torres e as muralhas que ameaçavam ruir.

Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

Toda a área monumentalizada do Castelo seria significativamente alterada, devido à utilização de um conceito de restauro integral que conduzia a reconstituições hipotéticas dos edifícios, pois que “a norma adoptada nos trabalhos de restauro foi baseada no aproveitamento criterioso dos vestígios descobertos nas demolições e metodicamente conduzidas, os quais serviram de modelo para as partes idênticas a restaurar ou fazer de novo” (Silva, 1960a, p. 382).

A única torre construída de novo foi a do muro divisório interior, “como se imaginou que seria primitivamente” (Silva, 1960a, p.385) sendo que se desentaipou a porta de ligação aí existente.

Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

Mais do que intentar reconstruir o seu formato primitivo “a intervenção de restauro logrou transformar o Castelo de S. Jorge num edifício profundamente baseado na imagem cultural do castelo medieval português (…) dando ao edifício uma presumível estrutura idealizada, pertencente a um momento intemporal e que possivelmente o castelo nunca terá possuído” (Santos, 2011, p.184).

4 COMENTÁRIOS

  1. Bom Dia, venho por este meio discordar da reportagem sobre o Castelo S. Jorge de Lisboa!!
    Segundo a história escrita e documentada pelo nosso querido e grande e único historiador José Hermano de Saraiva.
    O Castelo S. Jorge de Lisboa foi construído pelos Mouros que foi conquistada aos Mouros por D. Afonso Henriques em 1147 D.C.
    Foi um dos únicos edificios em Lisboa que resistiu ao terramoto de 1755, que a monarquia naltura vivia na baixa e se foi refugiar após o terramoto 1755 no Castelo de S. Jorge de Lisboa.
    É certo que ao longo deste tempo precisou de ajustes de manutenção exteriores e interiores ao longo do tempo até aos dias de hoje.
    Por isso deixo-lhe uma recomendação para não publicar falsas informações sobre tão presados Monumentos Nacionais.

    • O José Hermano Saraiva nunca foi historiador… foi advogado, foi professor, foi ministro e um grande comunicador mas nunca historiador. Era um exímio contador de histórias da história que muitas embelezava a história para a tornar mais interessante, como bom extraordinário comunicador que era. Ainda assim este artigo não contraria nada do que relatou simplesmente explica que o edifício físico não seria igual ao construído pelos mouros e celbremente conquistado por D.Afonso Henrriques tudo isso aconteceu, simplesmente o castelo que D.Afonso Henrriques consquistou não tinha o aspecto que conhecemos hoje em dia.

    • O mesmo inventava ”Histórias” à verdade dele e por vezes não dizia bem as coisas como elas eram…

  2. O que se diz aqui do castelo de Lisboa poder-se-ia dizer da quase totalidade dos castelos “recuperados”/ inventados pelo Estado Novo. Dá uma imagem de uniformização que nunca existiu. P. Ex. só subsistiu um em taipa (Paderne) quando se sabe que existiram vários com este método construtivo, nomeadamente no sul do país.

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