Há um momento, na estrada de terra batida que atravessa o montado, em que o horizonte se abre e a silhueta do Castelo de Noudar surge no alto da colina. Isolado, austero, quase suspenso entre duas ribeiras, é um dos cenários mais inesperados do Alentejo.
Situado no concelho de Barrancos, junto à fronteira com Espanha, o castelo integra o Parque de Natureza de Noudar. A envolvente é dominada por sobreiros, azinheiras e linhas de água que rasgam a planície. O silêncio é parte da experiência.
Uma fortaleza de fronteira
As origens remontam ao século X, quando os muçulmanos terão erguido aqui uma estrutura defensiva para controlar a ligação entre Beja e Sevilha. Depois da reconquista, o território passou por diferentes jurisdições. Em 1253, integrou o dote de D. Brites no casamento com D. Afonso III.
A incorporação definitiva no reino português aconteceu em 1295, na sequência do Tratado da Guarda. Pouco depois, em 1303, D. Dinis entregou o castelo à Ordem de Avis, que reforçou muralhas e estruturas defensivas. Durante séculos, Noudar foi peça ativa nos conflitos da raia, resistindo a cercos e investidas.
Com o declínio da importância militar, a fortaleza entrou em abandono. A classificação como Monumento Nacional, em 1910, travou a degradação total e permitiu a sua preservação.
Explorar devagar
A planta irregular adapta-se ao relevo. As muralhas, pontuadas por torres circulares e quadrangulares, revelam diferentes fases construtivas. No interior subsistem a cisterna, essencial para garantir água em caso de cerco, e a igreja de Nossa Senhora do Desterro, capela do século XVII onde ainda se identificam vestígios de pintura mural.
Falam-se também das “canhas”, passagens subterrâneas que ligariam o castelo às ribeiras do Ardila e do Múrtega — saídas discretas em tempos de ameaça. Parte dos achados arqueológicos recolhidos ao longo das escavações pode ser conhecida no pequeno núcleo museológico instalado no recinto.
Do topo das muralhas, a vista estende-se pela planície alentejana e pela linha sinuosa das ribeiras. A paisagem ajuda a compreender a lógica estratégica do lugar.
Natureza protegida
Criado em 1998, o Parque de Natureza de Noudar ocupa milhares de hectares de montado e galerias ripícolas. É território de veados, javalis e aves de rapina, mas também de percursos pedestres que permitem descobrir a biodiversidade local com tempo.
A visita ao castelo pode ser conjugada com caminhadas, passeios de bicicleta ou simplesmente uma pausa junto à água. Não há cafés nem restaurantes nas imediações — convém levar água e algo para comer, sobretudo nos meses quentes.
Barrancos, a curta distância, acrescenta outro elemento identitário: o falar raiano e uma gastronomia marcada pelo porco alentejano.
Um Alentejo menos óbvio
O Castelo de Noudar não é um monumento de grandes multidões. E talvez seja essa a sua maior virtude. Entre muralhas medievais e montado protegido, a experiência faz-se de espaço, de horizonte e de silêncio.
Para quem procura um Alentejo menos previsível, este é um desvio que compensa — um lugar onde a fronteira se conta em pedra e a paisagem continua a ditar o ritmo.







