Entre Évora e Estremoz, a Serra d’Ossa sobe o suficiente para que a vila medieval de Evoramonte se veja de longe — muralhas, torre, casas brancas com frisos amarelos.
De perto, o castelo surpreende quem espera a arquitetura militar habitual do Alentejo: é cilíndrico, limpo de ornamentação, com caneleiras verticais que percorrem toda a altura das torres. Parece saído de outro país. E de certa forma foi — a inspiração é italiana, os mestres eram os Arruda, e o patrono era o Duque de Bragança.
Geraldo Sem Pavor e o século XII
A história de Evoramonte começa antes da existência de Portugal, com Geraldo Geraldes — Geraldo Sem Pavor — que ofereceu os seus serviços a D. Afonso Henriques para ajudar a reconquistar o Alentejo aos mouros.
Évora, Evoramonte e localidades vizinhas foram tomadas com uma audácia que ainda hoje alimenta a memória local. A lenda de Geraldo continua viva na região com a intensidade das histórias que não precisam de documentação para sobreviver.
O primeiro foral foi dado em 1248. D. Dinis ordenou a fortificação da vila em 1306, com uma muralha que ainda existe em grande parte com o projeto original — incluindo as quatro portas dionisinas que definem os acessos à vila histórica.
As quatro portas e o que as distingue
A Porta do Freixo é a mais trabalhada: arco gótico ladeado por dois torreões cilíndricos, com uma inscrição que regista o início da construção da muralha. As outras três — Porta do Sol, Porta de São Brás, Porta de São Sebastião — têm cada uma a sua posição na encosta e a sua função no sistema defensivo que D. Dinis concebeu para proteger uma população que tinha dificuldade em fixar-se aqui permanentemente.
A muralha entrelaça-se com a encosta da serra de uma forma que ainda se percebe bem ao subir a pé — não é uma construção sobreposta ao terreno, é uma construção que usa o terreno como parte do sistema.
O Paço que não parece português
O castelo atual — chamado Paço — é fruto da reconstrução após o terramoto de 1531, construído sob orientação dos mestres Diogo e Francisco de Arruda com o patronato de D. Jaime, Duque de Bragança.
A inspiração italiana é evidente nas torres cilíndricas com caneleiras decorativas, na limpeza das linhas, na ausência do adorno gótico que marca outros castelos portugueses da mesma época.
Por dentro, os tetos em abóbada assentam em pilares de cantaria. As frestas de tiro estão posicionadas com a precisão de quem pensou no edifício como instrumento de defesa antes de o pensar como símbolo de poder.
A convenção que acabou uma guerra
O momento mais decisivo da história recente de Evoramonte foi a 26 de maio de 1834, quando D. Miguel — percebendo a derrota iminente na Guerra Civil que o opunha aos liberais — instalou-se neste concelho e assinou a sua capitulação e abdicação do trono a favor da sobrinha D. Maria II. A Convenção de Evoramonte pôs fim a seis anos de guerra civil portuguesa.
É o tipo de episódio que não tem monumento à altura da sua importância — mas que aconteceu aqui, nesta vila pequena entre Évora e Estremoz, e que os habitantes guardam com a consciência de que a história nacional passou por estas ruas.
A vila entre as muralhas
As casas brancas com frisos amarelos ou azuis, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a Igreja da Misericórdia com o Hospital adjacente, a Rua da Misericórdia com os bancos que convidam a parar — Evoramonte percorre-se a pé em menos de uma hora mas exige mais tempo do que isso para ser compreendida. A vista sobre a planície alentejana a partir das muralhas justifica qualquer paragem.
Ao fim da tarde, com a luz a apanhar o granito das caneleiras e a sombra das torres a alongar-se pela encosta, o Paço de Evoramonte tem a aparência de um edifício que não pertence completamente ao lugar onde está — demasiado cilíndrico, demasiado italiano, demasiado limpo para o Alentejo. E é exactamente essa estranheza que o torna difícil de esquecer.







