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Carlota Joaquina: a princesa portuguesa que queria ser Rainha da Argentina e do Peru

Foi uma das Rainhas mais polémicas de Portugal e chegou mesmo a planear uma invasão espanhola ao nosso país. E também queria ser Rainha da Argentina...

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Carlota Joaquina

 

Carlota Joaquina viveu em um dos períodos mais conturbados da história. A sua trajectória de vida marcou profundamente países como Espanha, Argentina, Portugal e Brasil. A sua ambição política e personalidade forte tornaram-na uma das personagens mais controversas da realeza. Os seus inimigos acusaram-na de envenenamento, adultério e até chegaram a descrevê-la como um ser débil e incomodativo.

D. Carlota Joaquina passou os primeiros anos da sua vida muito próxima de seu avô Carlos III, de quem era a neta preferida. Sendo primogénita do príncipe herdeiro e neta favorita do rei, o futuro da infanta e o seu casamento sempre foram uma importante questão de Estado. Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon-Parma nasceu em 25 de Abril de 1775 no Palácio Real de Aranjuez em Madrid, na Espanha, sendo a filha primogénita dos sete herdeiros de Carlos IV da Espanha e da sua esposa, Maria Luísa de Parma que na época do seu nascimento ainda ocupavam a posição de príncipes herdeiros.

Carlota Joaquina
Carlota Joaquina

Em 1778 a consorte de D. José I, a rainha D. Maria Vitoria de Bourbon visitou Madrid e discutiu com o monarca espanhol a possibilidade e os benefícios de um casamento entre D. Carlota e seu neto o príncipe D. João. As negociações do matrimónio duraram vários anos até que o mesmo finalmente foi selado e o destino de D. Carlota também.

Em 08 de maio de 1785 com apenas dez anos de idade D. Carlota Joaquina casou-se com o infante D. João Maria de Bragança com então 18 anos, àquela altura senhor do infantado e duque de Beja. D. Carlota foi recebida com receio na corte portuguesa por causa da sua condição de espanhola e acabou por procurar refúgio na rainha D. Maria I que ascendeu ao trono em 24 de Fevereiro de 1777.

A partir de 1788 os acontecimentos que mudariam a vida de D. Carlota Joaquina aconteceram de forma vertiginosa. Em 11 de Setembro desse ano, o herdeiro da coroa portuguesa e irmão mais velho de D. João, D. José, faleceu vítima de varíola aos 27 anos e D. Carlota e seu marido tornaram-se os novos herdeiros. Logo de seguida a sua sogra, a rainha D. Maria, não suportando a dor pela morte de seu filho acabou enlouquecendo e D. João e Carlota Joaquina converteram-se em regentes de Portugal em 1793.

Apesar de ter uma constituição física delicada e não ter um óptimo relacionamento com o marido, homem muito culto mas de tendências místicas e vítima de uma profunda melancolia, D. Carlota concebeu nove filhos com D. João, D. Maria Teresa nascida em 29 de Abril de 1793, D. Francisco António nascido em 21 de Março de 1795, D. Maria Isabel nascida em 19 de maio de 1797, D. Pedro nascido em 12 de Outubro de 1798, D. Maria Francisca nascida em 22 de Abril de 1800, D. Isabel Maria nascida em 04 de Julho de 1802, D. Miguel nascido em 26 de Outubro de 1802, D. Maria da Assunção nascida em 25 de Junho de 1805 e D. Ana de Jesus Maria nascida em 23 de Outubro de 1806.

D. João VI
D. João VI

D. Carlota Joaquina era uma mulher de personalidade forte e com grandes ambições. Em 1806 D. João descobriu que a sua esposa tramava contra ele quando percebeu que a infanta tinha enviado uma carta ao seu pai, que havia ascendido ao trono de Espanha em Dezembro de 1788, incitando-o a invadir Portugal. A partir de então o casal distanciou-se e a sua relação passou a ser marcada pela desconfiança mútua.

Em 1808, quando o seu pai foi derrubado do trono espanhol e substituído por José Bonaparte, irmão de Napoleão, D. Carlota candidatou-se a assumir a regência da Espanha se José Bonaparte fosse retirado do poder. Seria precisamente a França Napoleónica que decidiria o próximo capitulo da vida da infanta.

Em 19 de Novembro de 1807 as tropas de Napoleão comandadas pelo general Junot invadiram Portugal como uma punição pelo país não ter aderido ao Bloqueio Continental imposto pelo imperador francês à Inglaterra, grande parceira comercial do país ibérico. O príncipe regente, aterrorizado, decidiu fugir para o Brasil, a mais grande e rica colónia portuguesa, acompanhado de toda a sua família e da corte. Em 30 de Novembro a família real e a corte abandonaram o pais no navio Rainha de Portugal. As cenas de dor do povo português são até hoje conhecidas e as crónicas descrevem o profundo pesar da princesa D. Carlota e da rainha D. Maria que em um momento de lucidez gritou: “Como fugir sem haver combatido?”.

Carlota Joaquina
Carlota Joaquina

Em 22 de Janeiro de 1808 a família real e toda a corte desembarcaram no Brasil, na Bahia de Todos os Santos, sendo recebidos com festa pela população e logo depois se transladaram para o Rio de Janeiro que passou a ser capital do Império Português.

 

A candidatura a Rainha da Argentina e do Peru

Em terras brasileiras as intrigas políticas nas quais a infanta estava envolvida não cessaram. Em Março de 1808 sabemos que D. Carlota pretendia converter-se na máxima autoridade do Vice-Reino do Rio da Prata (actual Argentina) e do Vice-Reino do Peru, alegando que era a única representante legitima da casa de Bourbon espanhola que não havia sucumbido ao poder de Napoleão. Deste modo D. Carlota autoproclamava-se a protectora dos direitos da Espanha nas colónias americanas.

Naquele período, as manobras políticas da princesa foram vistas como uma amostra da sua ambição pessoal em converter-se em rainha de Espanha e das Índias. Todavia, actualmente os historiadores têm uma opinião mais moderada sobre a sua posição em relação ao Rio da Prata apontando que a ela somente queria, na realidade, defender os domínios da sua terra natal. Seja como for D. Carlota nunca conseguiu alcançar o seu objectivo, pois apesar de ter reunido um grande número de seguidores no chamado Partido Carlotista na Argentina, o governo espanhol jamais a reconheceu como representante dos interesses do país no exterior.

 

Carlota Joaquina: Rainha de Portugal

Em 20 de Março de 1816, D. Maria I faleceu no Rio de Janeiro e o casal de regentes converteram-se finalmente em Reis de Portugal e Algarves e imperadores honorários do Brasil. Enquanto isso, a situação política em Portugal tornava-se insustentável no ponto de vista político e social. Em Janeiro de 1821, as Cortes Portuguesas pediram que os monarcas voltassem para apaziguar os confrontos entre liberais e conversadores. Em Julho do mesmo ano, D. Carlota e D. João regressaram a Portugal, deixando o seu filho D. Pedro de Alcântara como regente do Brasil.

Carlota Joaquina
Carlota Joaquina

Em 06 de Março de 1826 D. João VI faleceu e D. Pedro ascendeu ao trono como D. Pedro IV deixando posteriormente o trono para a sua filha D. Maria da Glória. A posição de D. Carlota Joaquina ficou então muito debilitada e ela passou a residir na Quinta do Ramalhão. Entretanto, a volta dos soberanos foi amarga. D. João VI foi obrigado a jurar uma Constituição Liberal que ia contra as suas ideais absolutistas. D. Carlota por sua vez negou-se a aceitar a Carta Magna e perdeu o título de rainha. D. Carlota começou então a conspirar contra o governo, especialmente através do seu filho favorito, o infante D. Miguel, que liderou uma revolta absolutista, mas acabou derrotado por seu irmão D. Pedro, que havia proclamado a Independência do Brasil em 07 de Setembro de 1822.

D. Carlota Joaquina faleceu em 07 de Janeiro de 1830 aos 54 anos depois de uma vida conturbada e cheia de tramas políticas. Alguns afirmam que a ex-rainha teria cometido suicídio por causa do seu isolamento e afastamento dos filhos, mas nada foi confirmado. D. Carlota Joaquina de Espanha, foi sepultada no Panteão Real da Dinastia de Bragança, ao lado marido, no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa, Portugal, onde repousa até os dias de hoje.

 

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