No Parque Nacional da Peneda-Gerês, a uma altitude que ultrapassa os 1100 metros, existe um pequeno conjunto de casas de granito que durante séculos só esteve habitado metade do ano. A outra metade, ficava vazia — os pastores desciam com o gado para as inverneiras nos vales mais baixos, e a Branda da Aveleira ficava entregue ao vento e à neve.
É esta lógica de ocupação sazonal, a transumância, que explica a existência de lugares como este no Gerês. E é ela que, paradoxalmente, os preservou.
O que é uma branda
As brandas eram aglomerados de altitude onde as famílias serranas passavam os meses quentes — de primavera ao fim do verão — enquanto o gado aproveitava os pastos de montanha. Em outubro, desciam. Os campos das brandas ficavam livres, os das inverneiras enchiam-se de gente e de animais durante o inverno.
A transumância não era uma escolha estética. Era a resposta a um território de condições extremas, onde a sobrevivência dependia de usar cada zona no momento certo.
A Branda da Aveleira, em Melgaço, existe pelo menos desde o século XII — oitocentos anos de subidas e descidas sazonais que moldaram tanto as casas como os caminhos que as ligavam aos vales.
Hoje a transumância é rara. Em Fafião, ainda se transporta o gado para a montanha a cada primavera — uma das últimas aldeias do parque que mantém a prática. Na Branda da Aveleira, a última geração de pastores saiu nas décadas de 60 e 70, quando a emigração esvaziou a aldeia quase por completo.
As cardenhas reconvertidas
As casas tradicionais da branda chamam-se cardenhas. Tinham uma lógica vertical simples: o gado ficava no rés-do-chão, os pastores no andar de cima. O calor dos animais subia e aquecia os aposentos durante as noites frias de agosto na montanha — uma solução de engenharia doméstica que não precisava de explicação teórica.
Quando os habitantes que tinham emigrado voltaram para recuperar a aldeia, mantiveram essa estrutura. As cardenhas foram restauradas com a traça original e transformadas em alojamento de turismo rural. O rés-do-chão já não tem gado, mas as paredes de granito, os telhados de lousa e a escala comprimida das divisões continuam iguais.
Há um restaurante na aldeia — apoio ao turismo e ponto de paragem para quem passa. E o Trilho da Branda da Aveleira, com oito quilómetros, sai diretamente daqui.
O que fica em redor
Imediatamente ao lado fica Vale de Poldros — outra antiga branda, com uma particularidade que se tornou famosa: tem um único habitante e um restaurante. A lógica da desproporcionalidade parece ser uma característica da região.
Rouças, Gavieira e o Miradouro do Tibo ficam a curta distância de carro. O Santuário de Nossa Senhora da Peneda também, encaixado nas rochas mais à frente na mesma estrada.
Sistelo — com os socalcos que sobem pelas encostas em camadas — fica a quarenta minutos pelas estradas serpenteantes da montanha. É uma das paisagens mais fotografadas do Alto Minho, e a partir da Branda da Aveleira é uma extensão natural de qualquer visita à região.
No inverno, quando a neve cobre os cumes e a aldeia fica novamente em silêncio, a Branda da Aveleira tem a aparência que sempre teve nesta época do ano. Vazia, fria, à espera. A diferença é que agora há luz nas janelas das cardenhas — e alguém que decidiu ficar o ano inteiro.






