A ideia de uma sociedade sem numerário deixou, há muito, de pertencer ao domínio da ficção. A generalização dos pagamentos por aproximação, das transferências imediatas através do MB Way e das aplicações bancárias veio alterar de forma estrutural a relação dos portugueses com o dinheiro.
Perante este cenário, impõe-se uma questão prática: que papel terá, nos próximos anos, a rede de caixas automáticas da Multibanco, uma das infraestruturas de pagamento mais completas da Europa?
Longe de desaparecer, esta rede encontra-se numa fase de transformação profunda, procurando redefinir a sua utilidade num ecossistema cada vez mais digital.
Do levantamento de notas ao balcão de autosserviço
Durante décadas, a principal função das caixas automáticas foi a dispensa de numerário. Hoje, esse papel tornou-se secundário.
A tendência aponta para uma evolução clara: os terminais passam a funcionar como pequenos balcões bancários autónomos, orientados para operações que exigem validação forte e presença física.
Entre os serviços que começam a ganhar espaço estão a actualização de dados pessoais, a adesão a produtos financeiros simples ou a validação de operações sensíveis, que dificilmente se realizam apenas através de uma aplicação móvel.
Mesmo num contexto de redução acentuada do dinheiro em circulação, continuará a existir a necessidade de gerir cartões físicos, cartões pré-pagos ou suportes de pagamento alternativos, mantendo estes equipamentos relevantes.
A autenticação sem cartão
Outro dos sinais mais claros da mudança é o progressivo afastamento do cartão físico.
As caixas multibanco estão a caminhar para modelos de acesso baseados em autenticação biométrica ou em validação através do telemóvel. O terminal passa a funcionar como um ponto de segurança presencial, destinado a confirmar a identidade do utilizador em operações de maior risco.
Leitura facial, reconhecimento da palma da mão ou confirmação directa no smartphone surgem como alternativas ao cartão tradicional.
A evolução das funções das caixas automáticas
| Era centrada no numerário | Fase de transição digital | Fase pós-dinheiro físico |
|---|---|---|
| Levantamento de notas | Pagamento de serviços e operações móveis | Validação presencial de identidade |
| Consulta de saldo | Carregamentos e pagamentos digitais | Gestão de operações bancárias sensíveis |
| Cartão físico | Contactless e smartphone | Autenticação biométrica ou móvel |
A função central deixa de ser o dinheiro e passa a ser a confiança na operação.
Pontos de acesso a serviços públicos
Uma das possibilidades em estudo para o futuro destas infraestruturas passa pela sua articulação com serviços do Estado e das autarquias.
A elevada cobertura territorial da rede multibanco, incluindo zonas de menor densidade populacional, transforma estas máquinas em candidatos naturais a pontos de atendimento automático ao cidadão.
Poderá ser possível pagar taxas municipais, consultar processos administrativos simples ou obter comprovativos digitais sem necessidade de balcão físico.
Este modelo surge também como resposta ao encerramento progressivo de serviços presenciais em muitas localidades.
O risco de exclusão digital
Apesar da rápida adopção das tecnologias de pagamento, a transição não é homogénea.
Uma parte relevante da população, em especial pessoas mais idosas, continua a depender de interfaces físicas e de processos mais familiares. A eventual redução do número de caixas automáticas levanta, por isso, um problema social concreto.
As instituições financeiras enfrentam um equilíbrio delicado entre eficiência económica e inclusão financeira, num país onde a literacia digital ainda apresenta assimetrias significativas.
O papel do euro digital
A futura introdução de uma versão digital oficial da moeda europeia, promovida pelo Banco Central Europeu, poderá também vir a influenciar o papel das caixas multibanco.
Neste contexto, os terminais poderão funcionar como pontos seguros de activação, consulta e validação de saldos digitais, especialmente para utilizadores que não pretendam depender exclusivamente do telemóvel para aceder à sua carteira digital.
Mais do que um canal de pagamento, a caixa automática assume-se como um ponto físico de confiança num sistema cada vez mais desmaterializado.
Uma infraestrutura em redefinição
O declínio do dinheiro físico não representa o fim das caixas multibanco, mas o encerramento de um ciclo.
Estes equipamentos deixam de ser, sobretudo, dispensadores de notas e passam a integrar a camada de segurança e validação da banca digital.
A sua relevância futura dependerá da capacidade de responder a necessidades que o smartphone, por si só, continua a não resolver totalmente: identidade, autenticação forte e acesso físico a serviços essenciais.
Num país onde a rede multibanco sempre foi um dos pilares do sistema de pagamentos, o seu futuro parece menos ligado ao dinheiro e mais à gestão da confiança no mundo digital.







