No alto do concelho de Vimioso, ergue-se uma fortificação que mais parece uma testemunha silenciosa da história militar da fronteira nordeste de Portugal.
Construído no século XII, o castelo de Algoso desempenhou um papel central nas tensões entre os reinos cristãos da Península Ibérica, situando-se numa faixa que marcava a fronteira entre o nascente Reino de Portugal e o Reino de Leão.
Um bastião da raia na formação da nacionalidade
O contexto em que o castelo surgiu está ligado às lutas pela afirmação do condado portucalense frente ao poder de Leão.
A sua construção tem sido associada a Mendo Rufino (ou Bofino), um senhor local que, no final do reinado de Afonso Henriques e já com D. Sancho I associado ao governo, ergueu a fortificação como ponto avançado de vigilância e defesa da raia transmontana.
A sua localização sobre o cabeço da Penenciada, com vista para a ribeira de Angueira, permitia monitorizar amplas áreas do território e agir como aviso antecipado perante qualquer movimento de tropas vindas do interior da Meseta.
Nesta fase inicial da história portuguesa, ter um ponto de observação e resistência como Algoso significava afirmar a autoridade do poder régio num território periférico e exposto.
Ordem dos Hospitalários e continuidade defensiva
Em 1224, o castelo foi doado por D. Sancho II à Ordem de Malta – então conhecida por Ordem dos Hospitalários – que aí estabeleceu uma importante comenda com funções militares e administrativas.
Esta transição refletiu a evolução do papel de Algoso: de simples vigia da fronteira para sede de autoridade militar e local de comando. Sob a Ordem, a estrutura foi adaptada à defesa ativa, mantendo-se relevante mesmo após o pico das hostilidades fronteiriças.
A presença dos hospitalários marcou a história do castelo durante boa parte da Idade Média, reforçando o seu estatuto no contexto das fortificações do Nordeste transmontano.
Guardião entre reinos e participante em conflitos
Ao longo dos séculos seguintes, a importância militar de Algoso manteve-se, ainda que reduzida à medida que as fronteiras se consolidavam.
A fortificação integrou um conjunto de castelos que serviam de primeira linha defensiva face a possíveis investidas castelhanas, juntamente com outras praças como Bragança ou Miranda do Douro.
Durante a Guerra dos Sete Anos, no século XVIII, apesar de grande parte das fortificações da região se encontrarem em ruínas, a vila de Algoso resistiu a surtidas espanholas, mesmo com uma guarnição reduzida. Isto demonstra como o espírito defensivo persistia na população local, ainda que a fortaleza já não fosse um ponto estratégico de grande vulto.
No início do século XIX, durante a Guerra Peninsular, a presença francesa na região confrontou as autoridades locais com novas tensões, embora o castelo já não desempenhasse um papel militar direto destacado nessa fase.
Património e memória
Hoje, o Castelo de Algoso é considerado um imóvel de interesse público, testemunho duradouro da história militar transmontana e da forma como Portugal estabeleceu a sua fronteira oriental.
As suas muralhas e vestígios arqueológicos lembram uma época em que a defesa ativa e a vigilância constante eram determinantes para a sobrevivência e afirmação do território.
Visitar Algoso é revisitar décadas de confrontos, alianças e transformações na geopolítica ibérica, onde uma fortaleza isolada desempenhou um papel notável na construção da segurança do reino.







