Haverá poucos lugares em Lisboa onde o peso do passado se sinta de forma tão densa e dourada como no interior da Igreja de São Roque.
Ali, num espaço confinado, repousa uma obra que é, simultaneamente, o triunfo da engenharia setecentista e o testamento de uma Portugal que já não existe: aquela que, sob o reinado de D. João V, acreditava que a devoção se media pelo brilho dos lápis-lazúli e da prata lavrada.
É uma melancolia peculiar observar tamanha riqueza e perceber que, para muitos lisboetas, este tesouro permanece como um segredo guardado à vista de todos, uma herança de um império que gastou fortunas para provar a sua fé ao mundo.
Sentimos uma curiosidade quase física ao imaginar as naus que atravessaram o oceano carregadas de pedras preciosas, apenas para que Roma pudesse erguer o que Lisboa sonhava.
Esta capela não nasceu no chão que pisa; foi montada, benzida pelo Papa e desmontada na Itália, para depois ser reerguida como um puzzle monumental no Bairro Alto.
É este o fado da nossa identidade: uma beleza que muitas vezes vem de fora para nos explicar quem somos, deixando-nos a nostalgia de um tempo em que Lisboa era o centro de um mundo revestido a ouro e ágata.
O puzzle que o Papa abençoou
A história desta capela é um prodígio de logística que desafia a imaginação. Encomendada em 1742 aos arquitetos Nicola Salvi e Luigi Vanvitelli — os mesmos que projetaram a Fontana di Trevi e o Palácio de Caserta —, a obra foi inteiramente construída em Roma. Durante anos, os melhores artesãos do Vaticano trabalharam em segredo e exclusividade para o Rei de Portugal.
O rigor foi tal que, antes de ser enviada para Lisboa, a capela foi montada na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma. O Papa Bento XIV, impressionado com a opulência dos mármores de Carrara e do alabastro, consagrou-a pessoalmente, celebrando nela uma missa única.
Só após a aprovação pontifícia é que a estrutura foi cuidadosamente numerada, desmontada e acondicionada em centenas de caixotes para a sua viagem definitiva.
Mosaicos que enganam o olhar
Para o observador menos atento, as imagens que adornam o altar parecem pinturas a óleo de uma vivacidade invulgar. Contudo, estamos perante um dos maiores feitos técnicos da arte sacra: o micromosaico.
Atualmente, sabemos que a obsessão de D. João V pela eternidade o levou a exigir que a arte não pudesse desvanecer com a luz das velas ou a humidade do Bairro Alto.
Estes painéis são compostos por milhares de minúsculas pedras polidas, encaixadas com uma precisão que torna as juntas invisíveis ao olho humano. O objetivo era criar uma “pintura eterna”.
O custo desta técnica, aliado ao uso extensivo de pedras semipreciosas como ametistas e ágatas, elevou o valor da capela para somas que, hoje em dia, seriam equivalentes a centenas de milhões de euros, consolidando-a como a mais cara da sua época — e, possivelmente, da história.
O tesouro que sobreviveu ao terramoto
Existe uma ironia histórica no facto de esta capela, concluída apenas cinco anos antes do Grande Terramoto de 1755, ter sobrevivido praticamente intacta enquanto grande parte da cidade ruía. Enquanto o ouro do Brasil fluía para pagar as contas de Roma, Lisboa preparava-se para o seu momento mais sombrio.
A sobrevivência da Capela de São João Batista permitiu que o Tesouro de São Roque se tornasse um dos mais importantes acervos de arte barroca italiana do mundo, fora de Itália.
Visitar este espaço não é apenas um ato de contemplação artística; é confrontarmo-nos com a escala de uma ambição que não conhecia limites financeiros. Entre os paramentos de seda bordados a ouro e as custódias de prata maciça, resta a memória de um rei que quis trazer o Vaticano para uma encosta de Lisboa.
Acha que a ostentação de D. João V foi um investimento eterno na cultura portuguesa ou apenas um desperdício de ouro que poderia ter mudado o destino do país?







