Há poucos lugares em Portugal onde a geologia tenha imposto regras tão claras à arquitetura como em Monsanto. Na encosta granítica que domina a planície da Beira Baixa, as casas não contornam os penedos — acomodam-se a eles. O chão é pedra, as paredes integram blocos naturais e, nalguns casos, o próprio teto é um rochedo suspenso.
Subir as ruas íngremes até ao Castelo de Monsanto é percorrer camadas de tempo. A fortificação medieval, implantada num ponto estratégico da raia, recorda séculos de vigilância e conflito. Lá do alto, a vista abre-se sobre campos e aldeias dispersas, numa paisagem ampla e silenciosa.
1938: um título que marcou o destino
A identidade contemporânea de Monsanto ficou indelevelmente ligada a 1938, ano em que venceu o concurso da “aldeia mais portuguesa de Portugal”, promovido pelo Estado Novo sob impulso de António Ferro. O símbolo dessa distinção, o Galo de Prata, mantém-se na Torre de Lucano.
Mais do que uma medalha honorífica, o prémio teve consequências práticas. A aldeia ficou sujeita a regras de preservação que travaram alterações urbanísticas profundas. Esse “congelamento” parcial ajudou a manter a coerência arquitetónica que hoje define o lugar.
A explosão que redesenhou a aldeia
Mas a forma atual de Monsanto resulta também de um episódio dramático. Em 1815, a explosão do paiol de pólvora no castelo destruiu parte significativa das estruturas fortificadas.
Perante os danos, a população desceu a encosta e consolidou o núcleo habitacional mais abaixo, adaptando as casas às formações rochosas existentes.
Daí nasceu a imagem que hoje se tornou icónica: habitações comprimidas entre penedos, portas abertas em cavidades naturais, telhados que se encaixam sob rochas gigantes.
A chamada “casa de uma só telha” é o exemplo mais citado — um enorme bloco granítico serve de cobertura quase total, demonstrando como a arquitetura local se moldou à montanha em vez de a transformar.
Festa das Cruzes: memória e resistência
A alma coletiva de Monsanto revela-se com particular intensidade na Festa das Cruzes, celebrada em maio. A tradição remete para um cerco antigo.
Segundo a lenda, quando a fome ameaçava a rendição, os habitantes lançaram das muralhas uma vitela — ou, noutras versões, um pote de trigo — para convencer os sitiantes de que ainda dispunham de mantimentos. O estratagema terá levado à retirada dos invasores.
Hoje, o ritual simbólico repete-se com o arremesso de potes adornados com flores a partir do castelo. O cortejo é acompanhado pelo som do adufe, instrumento tradicional tocado sobretudo por mulheres.
As marafonas, bonecas de pano sem olhos nem boca, integram a celebração e evocam antigas crenças de proteção, num cruzamento entre herança pagã e tradição cristã.
Um quotidiano moldado pela pedra
Caminhar por Monsanto é observar soluções práticas de sobrevivência transformadas em identidade. A rocha serve de parede, de suporte estrutural e, por vezes, de cobertura. Não há confronto com a natureza — há adaptação.
Apesar da forte carga simbólica, a aldeia continua habitada. Pequenos negócios, alojamento local e restauração mantêm a dinâmica, evitando que se transforme num cenário estático.
Ao entardecer, quando a luz incide sobre o granito e realça as texturas da encosta, percebe-se que Monsanto não é apenas um título ou um postal ilustrado. É o resultado de episódios históricos, decisões políticas e adaptações forçadas que, em conjunto, consolidaram uma imagem singular no panorama nacional.
Se merece ou não continuar a ser a “aldeia mais portuguesa de Portugal” é discussão aberta. O que parece inquestionável é a coerência entre paisagem, arquitetura e memória — um triângulo raro que faz de Monsanto um caso à parte no interior da Beira Baixa.







