A aldeia de Cerdeira estava abandonada quando Kerstin Thom chegou. A escultora alemã encontrou casas de xisto sem saneamento, sem eletricidade, sem condições mínimas de habitabilidade — e decidiu ficar.
Foi o início de uma recuperação que ao longo de décadas transformou a menor das cinco aldeias de xisto da Lousã num dos projetos de turismo criativo mais consistentes do interior de Portugal.
A aldeia tem mais de quatrocentos anos. O abandono foi do século XX. O regresso foi dela.
O xisto e quem o recuperou
As casas foram restauradas com os materiais da região — xisto, madeira, argila — numa lógica de continuidade com o que ali existia antes. Não há betão aparente, não há fachadas plastificadas, não há a substituição de materiais antigos por equivalentes modernos mais baratos.
O resultado é um conjunto de pouco mais de duas dezenas de casas onde a pedra escura do xisto define a textura de tudo — paredes, caminhos, pontes sobre a ribeira.
O projeto que nasceu dessa recuperação chama-se hoje Cerdeira — Home for Creativity. Os alojamentos não têm televisão — têm ligação à internet e janelas para a serra. A ideia não é desligar do mundo mas mudar a forma de estar nele, pelo menos por alguns dias.
O que se faz em Cerdeira
Os workshops e cursos são parte central da proposta: culinária tradicional, cerâmica, pintura, escrita, música. São atividades que a aldeia organiza com regularidade e que atraem tanto visitantes portugueses como estrangeiros que procuram algo diferente do turismo de consumo.
O Forno Comunitário e o Café da Videira são os dois pontos de encontro naturais — um com a lógica coletiva das aldeias serranas, o outro com a informalidade de um café que serve a aldeia e quem passa.
A estrada de acesso é íngreme mas alcatroada, com aberturas específicas que funcionam como corredores para a fauna — um detalhe que revela a atenção com que o projeto trata o território que o envolve. Veados aparecem com frequência suficiente para que não seja surpresa — mas continua a ser um bónus.
A serra em redor
Cerdeira é a mais pequena das cinco aldeias de xisto da Lousã — as outras são Casal Novo, Chiqueiro, Talasnal e Candal. Cada uma tem a sua lógica e o seu carácter, mas Cerdeira distingue-se pela dimensão artística que a presença de Kerstin Thom lhe imprimiu desde o início.
É a aldeia onde a recuperação foi também um projeto estético, e onde essa intenção ainda é visível em cada detalhe.
A Serra da Lousã em redor tem percursos pedestres que ligam as aldeias, ribeiras com piscinas naturais e a escala de montanha de média altitude que não intimida mas que justifica uma tarde inteira de caminhada.
Ao anoitecer, quando as luzes das casas de xisto acendem devagar e a serra fecha sobre a aldeia, Cerdeira tem uma qualidade de silêncio que as aldeias recuperadas para turismo raramente conseguem manter.
Talvez seja porque quem começou a recuperação veio para ficar, não para vender. E isso nota-se — na pedra, nas pontes, no forno que ainda funciona.






