Em 1769, Mazagão era a última praça portuguesa no norte de África. Tinha resistido durante 255 anos, cercada por vizinhos hostis, sustentada à custa de reforços regulares de homens e dinheiro que Lisboa começava a considerar mal empregues. O momento de abandonar chegara.
Sebastião José de Carvalho e Melo — a dois anos de se tornar Marquês de Pombal — teve uma ideia que revelava tanto do seu génio administrativo como da sua indiferença pela opinião dos afectados: em vez de simplesmente evacuar Mazagão, ia transferi-la.
A cidade, os seus dois mil habitantes, e presumivelmente o seu espírito, atravessariam o Atlântico e seriam recolocados na Amazónia brasileira, onde faziam falta colonos para proteger a rota entre o Pará e as minas do Mato Grosso.
No papel, fazia sentido. Na prática, foi uma das aventuras mais caóticas da administração pombalina.
A viagem que ninguém queria fazer
Os habitantes de Mazagão foram convencidos com promessas de vida melhor. Embarcaram, fizeram escala em Lisboa — e foi aí que o plano começou a desintegrar-se.
Quando chegou a hora de voltar a zarpar, a maioria partiu ainda mais contrariada do que tinha chegado, e um número significativo encontrou formas de simplesmente ficar. Partiram de Santa Maria de Belém em direcção a Belém do Pará — uma ironia geográfica que ninguém parece ter apreciado na época.
Em Belém do Pará ficaram à espera, enquanto a nova cidade era construída entre São José de Maçapá e Vila Vistosa da Madre de Deus. O traçado foi feito a régua e esquadro por Domingos Sambucetti — ruas direitas, quarteirões regulares, a ordem iluminista imposta à selva tropical. O terreno escolhido era, em teoria, fértil e promissor.
O detalhe que ninguém mencionou com suficiente ênfase era que aquela mesma área já tinha sido abandonada antes. Um grupo de índios trazidos para ali tinham ficado brevemente e partido, considerando o lugar pouco saudável.
Os de Mazagão, pouco habituados a climas tropicais e vindos de uma fortaleza no norte de África, chegaram às mesmas conclusões com a velocidade que a experiência directa proporciona.
Os militares que não queriam ser colonos
O problema mais fundo não era o clima — era a identidade. Os transferidos de Mazagão eram militares. Tinham defendido uma praça durante gerações, e esse era o seu estatuto, a sua função, a razão pela qual existiam enquanto comunidade.
Pedir-lhes que trabalhassem a terra era, na sua perspectiva, pedir-lhes que se tornassem outra coisa — algo que entendiam ser o trabalho de escravos que não possuíam e que a coroa não lhes fornecia.
O resultado foi uma avalanche de requerimentos às autoridades. Pediam para regressar a Belém do Pará. Pediam para ir para Lisboa. Pediam transferência para terras mais agradáveis — alguns chegaram ao ponto de pedir para ir para o Algarve, um território igualmente periférico mas com melhor reputação climática.
Criticavam as casas, o ar pestilento, a pobreza, a falta de apoio. A coroa respondia enviando mais levas dos que tinham ficado pelo caminho, o que não melhorava o ambiente geral.
A conta do projecto — transporte entre três continentes, pensões, alojamento, alimentação durante catorze anos, construção da cidade, coerção sucessiva dos que resistiam a ocupar os seus postos — nunca foi calculada com precisão. Mas foi claramente muito mais cara do que qualquer benefício estratégico que Mazagão brasileira alguma vez produziu.
O fim
Em 1783, uma epidemia deu aos habitantes o argumento definitivo. Pombal tinha caído entretanto — D. Maria I tinha substituído o pai e afastado o ministro — e a rainha piedosa que ficaria conhecida como A Piedosa não conseguiu recusar os pedidos. A cidade foi praticamente abandonada.
Mazagão brasileira sobreviveu como aglomerado, com novas vagas de população anos depois, e existe hoje no estado do Amapá com o nome de Mazagão Velho. Mas o projecto pombalino — a cidade transplantada de um continente para outro pela força da razão administrativa — durou pouco mais de uma década e terminou com quase toda a gente a pedir para ir embora.
Mazagão foi assim, simultaneamente, a última praça militar portuguesa no norte de África e a última vila fundada na Amazónia no período pombalino. Um recorde duplo que ninguém disputou.







