No alto de uma colina isolada do planalto raiano, Castelo Rodrigo domina a paisagem com uma presença discreta mas firme. Ao aproximar-se, percebe-se que não se trata apenas de uma aldeia antiga: é um núcleo urbano pensado para defesa, com ruas apertadas, casas encostadas às muralhas e portas que durante séculos controlaram a passagem entre reinos.
Situada no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, perto do vale do Côa e da atual fronteira com Espanha, a aldeia foi um ponto estratégico desde a Idade Média.
Recebeu foral no século XIII, no reinado de D. Afonso IX de Leão, e mais tarde passou definitivamente para a coroa portuguesa. Esta origem explica a mistura de influências arquitetónicas — leonesas, portuguesas e manuelinas — visíveis nas fachadas e nos pormenores esculpidos em granito.
Hoje integra a rede das Aldeias Históricas de Portugal e mantém uma rara coerência urbana. Caminhar aqui não é visitar monumentos isolados, mas atravessar um conjunto que permaneceu quase intacto, adaptando-se lentamente ao tempo sem perder função nem identidade.
Um castelo de fronteira e uma vila fortificada
As muralhas envolvem praticamente toda a aldeia e definem a sua estrutura. O castelo, implantado na parte mais elevada, não era apenas residência senhorial: servia de observatório sobre o território e de primeira linha de defesa em períodos de conflito com Castela.
Da torre de menagem avista-se o vale do Águeda, campos agrícolas e, em dias limpos, território espanhol. Esta visibilidade ajuda a compreender o papel de vigilância permanente que marcou a vida local durante séculos.
Não era uma fortaleza isolada, mas parte de um sistema defensivo articulado com Almeida e outras praças da Beira Interior.
Ao longo das ruas surgem casas com varandas de ferro forjado, janelas manuelinas e escudos heráldicos. Muitos pertenciam a famílias nobres que aqui viveram devido à importância administrativa e militar da vila durante a Idade Média e o período moderno.
O palácio queimado após a Restauração
Entre os edifícios mais marcantes destacam-se as ruínas do Palácio de Cristóvão de Moura. O nobre português foi uma figura central da União Ibérica e tornou-se símbolo de fidelidade à coroa espanhola.
Após a Restauração de 1640, a população revoltou-se e incendiou o palácio, num gesto que ficaria associado à afirmação da independência portuguesa.
O edifício nunca foi reconstruído. Permanece em ruína deliberada, como memória política coletiva. A escolha distingue Castelo Rodrigo de outros lugares onde o património é restaurado até desaparecer o conflito que lhe deu origem. Aqui, a destruição faz parte da narrativa histórica.
Entre judeus, peregrinos e comércio medieval
A aldeia não viveu apenas de guerra. Foi também lugar de passagem. A antiga Rua da Sinagoga recorda a presença de comunidades judaicas e cristãs-novas, importantes para o comércio regional. Nas ombreiras ainda se identificam símbolos gravados que funcionavam como marcas discretas de identidade.
Castelo Rodrigo integrava igualmente caminhos de peregrinação ligados a Santiago de Compostela. A Igreja de Nossa Senhora do Rocamador, de origem medieval, acolhia viajantes e funcionava como ponto espiritual para quem atravessava a fronteira.
No interior permanecem elementos góticos e renascentistas que testemunham sucessivas adaptações ao longo dos séculos.
Outro elemento essencial era a cisterna medieval, que garantia abastecimento de água durante cercos prolongados. Ainda hoje se percebe a sua importância ao observar a posição central dentro das muralhas.
Paisagem, amendoeiras e vida atual
A envolvente agrícola molda a experiência de visita. No final do inverno, as encostas cobrem-se de amendoeiras em flor, criando um contraste com o tom austero do granito. A primavera traz visitantes, mas a aldeia mantém população residente e atividades tradicionais ligadas à agricultura e ao turismo rural.
A intervenção de conservação recente procurou respeitar a traça original: cabos enterrados, pavimento tradicional e reabilitações discretas. O objetivo foi preservar a autenticidade sem transformar o espaço num cenário artificial.
Castelo Rodrigo permanece assim entre duas dimensões — património e lugar habitado. Mais do que um conjunto monumental, é um território onde a memória histórica continua integrada no quotidiano.






