A poucos quilómetros do centro de Ponte de Lima existe uma aldeia que passa facilmente despercebida a quem segue apenas os roteiros principais do Minho. Estorãos, encaixada entre encostas verdes e a ribeira com o mesmo nome, mantém uma escala rural onde a paisagem e o património convivem sem pressa.
O enquadramento ajuda a explicar a sua identidade. A água desce da serra de Arga e atravessa campos agrícolas, vinhas e pequenos bosques, criando zonas de sombra e clareiras que sempre sustentaram a agricultura local.
Ainda hoje a ribeira marca o ritmo do lugar, tanto no verão — quando serve de refúgio do calor — como no inverno, quando ganha caudal e transforma a paisagem.
Uma ponte medieval no caminho de Santiago
O elemento mais conhecido da aldeia é a ponte românica sobre a ribeira de Estorãos, construída entre os séculos XII e XIII. Durante a Idade Média integrou uma variante do Caminho Português de Santiago, sendo atravessada por peregrinos vindos do litoral ou de zonas mais interiores do Minho.
Com três arcos irregulares e tabuleiro estreito, foi classificada como Monumento Nacional em 1910. A envolvente mantém ainda o ambiente rural: margens arborizadas, campos cultivados e um antigo moinho de pedra próximo da água. O moinho, reconstruído no século XX, recorda a importância da moagem e da transformação de cereais na economia local.
Igreja, cruzeiro e vida comunitária
No centro da aldeia ergue-se a igreja paroquial de São Paio, reedificada no século XVIII. A fachada é simples, mas o interior guarda retábulo em talha dourada e imaginária devocional típica do Minho rural.
No adro encontra-se o cruzeiro setecentista, peça escultórica trabalhada que revela o papel religioso na organização da comunidade. À volta surgem espigueiros, fontes e pequenas capelas dispersas pelos lugares vizinhos, testemunhando a ocupação contínua do território ao longo dos séculos.
Um território habitado desde a Idade do Ferro
A cerca de dois quilómetros situa-se o Castro do Formigoso, povoado fortificado anterior à presença romana. Escavações revelaram muralhas, habitações e objetos do quotidiano, provando que estas encostas já eram ocupadas muito antes da formação das aldeias atuais.
A proximidade entre o castro e a aldeia atual ilustra uma continuidade comum no norte do país: as populações foram descendo das elevações para zonas mais férteis junto à água, mantendo contudo referências antigas na paisagem.
Caminhadas e natureza protegida
Estorãos funciona também como ponto de partida para percursos pedestres. A ribeira permite caminhadas curtas entre pontes e levadas, enquanto a serra de Arga oferece trilhos mais exigentes com vistas sobre o vale do Lima.
A poucos minutos encontram-se as Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos, área protegida com cerca de 350 hectares de zonas húmidas, turfeiras e bosques ribeirinhos. É um dos locais mais importantes do noroeste português para observação de aves e biodiversidade.
Um Minho mais discreto
A aldeia mantém população residente, agricultura ativa e pequenas produções locais, características cada vez mais raras em áreas próximas de centros turísticos. A proximidade a Ponte de Lima permite visitá-la facilmente, mas a atmosfera permanece distinta da vila.
Estorãos revela assim um Minho menos evidente: pequenas comunidades, património integrado na paisagem e uma relação contínua entre água, agricultura e caminhos históricos.







