O pudim de ovos continua a ser um dos grandes clássicos da doçaria portuguesa. Com apenas três ingredientes de base — ovos, leite e açúcar — é uma sobremesa onde a técnica pesa mais do que a receita.
Entre um pudim liso, cremoso e uniforme e um pudim cheio de pequenos orifícios ou com sabor excessivo a ovo, a diferença está quase sempre na forma como se mistura e na maneira como se controla a temperatura.
O caramelo: o primeiro passo certo
O caramelo não serve apenas para dar sabor. É também o responsável pelo aspeto final e por facilitar o desenforme.
O açúcar deve derreter até atingir um tom âmbar escuro, sem chegar a fumegar. Um caramelo demasiado claro resulta num pudim pálido e pouco aromático; um caramelo queimado torna a sobremesa amarga.
Assim que atingir o ponto certo, deve ser espalhado rapidamente por toda a forma, incluindo o cone central. Esta película cria uma superfície antiaderente natural e ajuda a libertar o pudim sem quebras.
Misturar, nunca bater
Este é o ponto mais determinante para evitar os conhecidos “buracos”.
Os ovos, o açúcar e o leite devem ser misturados lentamente, com movimentos suaves e circulares. O objetivo é dissolver os ingredientes, não incorporar ar.
Sempre que se bate com força, cria-se espuma, e essa espuma transforma-se em bolsas de ar durante a cozedura.
Um gesto simples eleva imediatamente o resultado: passar a mistura duas vezes por um coador de rede fina. Para além de remover vestígios de clara ou película da gema, elimina pequenas bolhas e deixa a base perfeitamente homogénea.
O banho-maria bem controlado
A cozedura deve ser sempre feita em banho-maria, a baixa temperatura.
| Elemento | Regra essencial | Motivo |
|---|---|---|
| Água do banho | Deve entrar já quente no forno | Evita um choque térmico inicial |
| Altura da água | Até cerca de metade da forma | Garante calor uniforme |
| Temperatura do forno | Entre 150 ºC e 160 ºC | Impede fervura da água e formação de bolhas |
Temperaturas mais elevadas fazem a água ferver e provocam uma cozedura demasiado agressiva, responsável pela textura porosa.
Aromatizar sem mascarar
Quem prefere um pudim com aroma mais delicado pode aromatizar previamente o leite.
Uma casca de limão, sem parte branca, e um pau de canela devem ser fervidos no leite durante alguns minutos. O leite deve arrefecer totalmente antes de ser misturado com os ovos.
Em algumas versões tradicionais, acrescenta-se ainda um pequeno cálice de vinho do Porto ou de licor, apenas para dar profundidade ao sabor final.
O descanso antes de desenformar
Um pudim acabado de sair do forno ainda está demasiado frágil.
Deve arrefecer completamente dentro da forma e, idealmente, repousar no frigorífico entre seis e doze horas. Este período permite que a estrutura estabilize e que o caramelo se distribua melhor.
Antes de virar, deve confirmar se o pudim está solto, abanando ligeiramente a forma. Se necessário, passe uma faca fina nas extremidades, com muito cuidado, apenas para libertar a lateral.
Um bom pudim de ovos não depende de força nem de atalhos. Depende de uma mistura delicada, de um banho-maria controlado e de tempo de repouso.
Quando estes pontos são respeitados, o resultado é um pudim liso, uniforme e macio, onde a doçura do caramelo se equilibra com a suavidade do creme — exactamente como se espera de um clássico que continua a marcar presença nas mesas portuguesas.







