Há edifícios que parecem ter parado no instante em que foram abandonados. Na encosta da Serra da Pena, a poucos minutos de Sortelha, o antigo Hotel da Serra da Pena — conhecido como Termas de Radium — mantém-se de pé como um cenário suspenso no tempo.
A estrada nacional deixa antever paredes altas entre a vegetação. De longe, ainda se percebe a ambição do projeto. De perto, surgem mosaicos partidos, escadarias expostas ao céu e janelas vazias que enquadram o granito da serra.
Quando a radioatividade era promessa
No início do século XX, o rádio representava modernidade e avanço científico. Acreditava-se que águas radioativas tinham propriedades terapêuticas e, um pouco por toda a Europa, surgiram estâncias que prometiam cura e renovação.
As nascentes da Serra da Pena ganharam notoriedade pela concentração invulgar de radioatividade. A fama ultrapassou fronteiras e alimentou a construção de um hotel termal que combinava luxo e saúde num ambiente isolado, longe do ritmo urbano.
Banhos, lamas, ingestão de água mineral: tudo fazia parte de um programa que atraía visitantes em busca de tratamento e descanso.
Um hotel no meio da paisagem granítica
O edifício foi pensado para impressionar. Cerca de 90 quartos, salões amplos, varandas voltadas para o horizonte e uma arquitetura que misturava referências românticas e ecléticas. A serra funcionava como cenário e argumento.
Hoje, o que resta é uma sucessão de volumes parcialmente intactos. As paredes sobrevivem, alguns frisos mantêm-se desenhados contra o céu e o chão ainda revela padrões geométricos sob a vegetação.
A envolvente ajuda a explicar o fascínio contínuo. A Serra da Pena, com os seus penedos imponentes, cria um contraste entre a permanência da natureza e a fragilidade das construções humanas.
O declínio inevitável
À medida que a ciência passou a reconhecer os riscos da radioatividade, o entusiasmo desapareceu. A estância encerrou na década de 1940. O hotel ainda teve usos posteriores, mas acabou por ficar vazio.
Sem manutenção, iniciou-se o processo que hoje se observa: telhados desaparecidos, interiores expostos, madeira consumida pelo tempo. Ainda assim, o conjunto mantém uma dignidade inesperada.
Um desvio que vale a pena
Quem visita pode integrar a paragem num roteiro mais amplo. Sortelha, ali perto, conserva muralhas e casas medievais que contrastam com estas ruínas do século XX. A Serra da Malcata e as praias fluviais do concelho do Sabugal completam o percurso.
A visita deve ser feita com prudência, dado o estado de degradação do edifício. Não há estruturas de apoio nem sinalização formal.
Entre fascínio e reflexão
As Termas de Radium não são apenas um lugar abandonado. São um retrato de uma época em que o progresso científico alimentava certezas que o tempo viria a corrigir.
Caminhar por ali é confrontar duas realidades: a solidez da paisagem beirã e a transitoriedade das ideias humanas. No silêncio da serra, percebe-se que algumas ruínas contam histórias que continuam atuais.







