Quem sobe à Torre pela estrada principal da Serra da Estrela dificilmente fica indiferente. À direita, talhada diretamente na rocha granítica, surge uma figura monumental em baixo-relevo: Nossa Senhora da Boa Estrela, protetora dos pastores.
A escultura encontra-se no Covão do Boi, a grande altitude, integrada na paisagem agreste da montanha. Foi inaugurada em 1946 e é atribuída ao padre António Duarte, que idealizou o projeto ao perceber o crescente fluxo de visitantes à serra.
A ideia era simples e simbólica: colocar a padroeira dos pastores no coração do território que, durante séculos, foi dominado pela transumância e pela criação de gado.
Homenagem à vida serrana
A Serra da Estrela sempre foi terra de pastores. O ciclo da lã, do queijo e da deslocação sazonal dos rebanhos moldou a economia e a cultura da região. A invocação de Nossa Senhora da Boa Estrela está ligada a essa realidade rural, pedindo proteção contra o frio rigoroso, as tempestades e os perigos da montanha.
A escolha do local não foi aleatória. A escultura está virada para um vale amplo, quase como se vigiasse os antigos percursos de pastoreio. O altar em pedra junto à imagem acolhe celebrações religiosas, sobretudo no segundo domingo de agosto, data da festa anual que reúne habitantes e visitantes.
Um miradouro fora dos roteiros habituais
Embora fique junto à estrada que conduz ao ponto mais alto da serra, o santuário nem sempre integra os roteiros turísticos convencionais. No entanto, vale a paragem demorada.
Daqui avistam-se encostas ondulantes, blocos graníticos modelados pela erosão e, em dias limpos, extensões que parecem não ter fim. No inverno, a neve cobre parcialmente a base da escultura, criando um contraste marcado entre o branco e o cinzento da pedra.
A proximidade à Torre permite conjugar a visita com outros pontos de interesse da Serra da Estrela, como o Vale Glaciário do Zêzere, o Poço do Inferno ou as lagoas de montanha formadas por antigos glaciares.
A lenda do pastor e da estrela
A devoção popular associa a escultura a uma narrativa simbólica. Conta-se que um pastor solitário conversava todas as noites com uma estrela brilhante que o acompanhava do alto do céu. Quando um rei lhe propôs trocar essa amizade por riqueza, recusou, preferindo manter a ligação à sua confidente luminosa.
A história termina com a estrela a dar nome à montanha — Serra da Estrela — e a continuar a brilhar sobre o pastor. A lenda reforça a dimensão poética do lugar, onde o céu noturno, longe da poluição luminosa, mantém uma presença intensa.
Uma visita em qualquer estação
A Serra da Estrela muda radicalmente ao longo do ano. No verão, o planalto revela tons dourados e temperaturas amenas. No inverno, o frio intenso e a possibilidade de neve transformam o cenário.
Em qualquer estação, a paragem junto à Nossa Senhora da Boa Estrela permite observar a montanha numa perspetiva diferente, menos centrada nas atividades turísticas e mais ligada à identidade histórica da região.
Mais do que um simples monumento, esta escultura em rocha é um marco simbólico da serra: une fé, tradição pastoril e paisagem num único ponto da montanha.







