Na freguesia de Lagares e Figueira, no concelho de Penafiel, Quintandona surge como um desvio inesperado na paisagem do Vale do Sousa.
Num território onde o granito domina quase todas as construções, esta aldeia afirma-se como uma rara ilha de xisto e lousa no distrito do Porto, marcada por uma coerência cromática que parece desenhada pela própria geologia.
O ocre das paredes e o cinzento da ardósia criam um conjunto harmonioso, onde o granito aparece apenas como apontamento. A singularidade não é apenas estética: nasce do subsolo.
A presença de xisto obrigou os habitantes a desenvolver técnicas construtivas adaptadas à fragilidade e à estrutura laminada da pedra, dando origem a um núcleo arquitetónico raro nesta região.
Casas que se fecham para proteger a vida
Ao caminhar pelas ruelas, percebe-se que as casas se encostam como quem procura abrigo. Destaca-se a tipologia da casa de pátio fechado, solução que vai além da forma.
O pátio era espaço de trabalho e proteção: guardava o gado, acolhia as alfaias agrícolas e organizava a vida familiar num núcleo reservado, protegido do clima e da exposição aos caminhos públicos.
Esta escala doméstica e comunitária traduz uma lógica de autossuficiência que ajudou a manter a identidade da aldeia, mesmo quando tantas outras perderam traços originais perante a pressão urbana.
Quando a cultura salvou a aldeia
Nos anos 90, Quintandona enfrentou o risco real de abandono. A transformação que hoje se observa não começou com máquinas nem com decretos. Começou com pessoas.
A Festa do Caldo e o grupo de teatro comunitário ComoDEantes inverteram a lógica habitual do património. Primeiro veio a vida cultural — as ruas transformadas em palco, as fachadas de xisto como cenário — e só depois o restauro físico das casas. O entusiasmo coletivo levou proprietários a recuperar habitações e devolveu sentido à permanência.
Este processo criou um modelo singular: a gastronomia tradicional e a expressão artística tornaram-se motores de regeneração, impedindo que Quintandona se tornasse apenas mais uma aldeia vazia.
A dignidade dos detalhes
A reabilitação foi feita também de pormenores. A Capela de Nossa Senhora da Guia e o lavadouro comunitário são paragens que revelam o cuidado colocado na recuperação.
Onde antes existiam cabos elétricos aéreos e pavimentos degradados, surgem hoje lajes tradicionais que respeitam a cor natural do solo.
O lavadouro, já sem a função central de outros tempos, permanece como símbolo do quotidiano feminino e da importância da água na organização comunitária. Pequenos sinais que mostram que preservar não é apenas reconstruir fachadas, mas manter viva a memória.
Um refúgio próximo da cidade
A escassos quilómetros do centro de Penafiel, Quintandona mantém uma atmosfera tranquila. Não é cenário artificial nem parque temático rural. É uma aldeia que soube recuperar a sua identidade sem a transformar em espetáculo permanente.
Entre o xisto, o teatro e o caldo servido em festa, Quintandona confirma que a identidade não se perde — pode ser reaprendida. E que, mesmo no distrito do Porto, há lugares onde o silêncio continua a ser a língua principal e a pedra a melhor guardiã do tempo.






