Quando se pensa no Algarve, a imagem mais comum é a linha de costa. No entanto, a poucos quilómetros do litoral existe um território bem diferente, feito de colinas, ribeiras e aldeias brancas. Alte, no concelho de Loulé, é um dos exemplos mais claros desse Algarve interior que preserva ritmos e paisagens próprios.
Situada na transição entre o Barrocal e a Serra do Caldeirão, a localidade desenvolveu-se ao longo da Ribeira de Alte, cuja água permanente permitiu agricultura, moinhos e abastecimento doméstico durante séculos.
Essa presença constante da água explica a disposição do casario e a existência de largos sombreados que continuam a ser pontos de encontro da população.
Apesar do aumento do turismo na região, a aldeia mantém uma estrutura urbana tradicional, com ruas estreitas, casas caiadas e chaminés trabalhadas, típicas do interior algarvio.
Igreja, história e arquitetura
A Igreja Matriz de Alte, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, é o principal marco histórico. A construção atual data do século XVI, embora existam referências anteriores ao templo no mesmo local. O portal manuelino contrasta com o interior posterior, onde surgem elementos barrocos e azulejos azuis e brancos aplicados na abóbada.
Ao redor encontram-se edifícios civis antigos, alguns ligados a famílias locais com influência na economia rural. Pequenos pormenores — molduras de portas em cantaria, escadas exteriores e açoteias — ajudam a perceber como a arquitetura se adaptou ao clima quente e seco.
Fontes e vida comunitária
A relação com a água define a identidade de Alte. A Fonte Grande e a Fonte Pequena são os espaços mais reconhecidos. Durante séculos funcionaram como lavadouros e locais de convívio; hoje mantêm essa função social, agora também partilhada com visitantes.
As piscinas naturais criadas ao longo da ribeira transformaram-se num dos pontos de veraneio do interior algarvio. A água fresca, rara na região durante o verão, faz destas zonas uma alternativa às praias, sobretudo para quem procura um ambiente mais tranquilo.
Moinhos, cascata e paisagem serrana
Nos arredores encontram-se vestígios do passado agrícola, incluindo um antigo moinho de água cuja origem remonta à Idade Média. Estes equipamentos aproveitavam o caudal regular da ribeira para moer cereais e abastecer toda a zona.
A poucos minutos da aldeia surge a Queda do Vigário, cascata com cerca de 20 metros de altura. O acesso faz-se por um percurso pedonal e o local tornou-se um dos mais fotografados do interior do Algarve, sobretudo no inverno e primavera, quando o caudal aumenta.
Cultura local e tradições
Alte também é conhecida por eventos culturais ligados à música e à poesia popular algarvia. Daqui era natural o poeta Cândido Guerreiro, homenageado no Museu Cândido Guerreiro e Condes de Alte, instalado num antigo solar adaptado.
O artesanato continua presente: trabalhos em esparto, madeira e olaria ainda são produzidos localmente. Na gastronomia destacam-se produtos serranos como mel, medronho, queijo de cabra e doces de amêndoa e figo.
A envolvente da Serra do Caldeirão
A paisagem em redor alterna entre pomares de sequeiro e mato mediterrânico. Medronheiros, sobreiros e azinheiras dominam a vegetação, criando um ambiente diferente do litoral. Trilhos pedestres permitem observar a fauna local e compreender a ligação histórica entre agricultura, pastoreio e floresta.
Nas proximidades encontra-se a Rocha da Pena, formação calcária elevada que funciona como miradouro natural sobre o Barrocal. A área integra um sítio classificado pela diversidade geológica e arqueológica.
Um Algarve menos previsível
Alte não vive apenas da memória. Mantém população residente, atividades agrícolas e uma pequena rede de alojamento local que se integra na paisagem. A aldeia tornou-se assim um exemplo de equilíbrio entre preservação e adaptação ao turismo.
Visitar Alte é descobrir uma região onde a identidade algarvia não depende do mar, mas da relação entre água, serra e comunidade.







