Na costa ocidental da ilha das Flores, perto da Fajã Grande, existe um pequeno núcleo de casas de pedra negra rodeado por pastagens e pelo Atlântico.
A Aldeia da Cuada não surge nos mapas como uma povoação comum: durante décadas esteve abandonada e acabou por renascer graças a um projeto de recuperação que respeitou a arquitetura original.
Hoje é um dos exemplos mais conhecidos de reabilitação rural nos Açores, mantendo a aparência tradicional enquanto acolhe visitantes que procuram tranquilidade e contacto direto com a natureza.
Uma comunidade isolada
Fundada no século XVII, a Cuada foi habitada por agricultores e tecelões que viviam essencialmente da terra. A posição geográfica — numa ilha remota e num dos pontos mais ocidentais da Europa — condicionou o quotidiano durante séculos.
A produção agrícola era de subsistência e a comunicação com outras localidades dependia de caminhos pedestres.
No século XIX viviam aqui cerca de uma centena de pessoas. As casas eram simples, construídas em basalto, com poucas aberturas para proteger do vento e da humidade. O trabalho repartia-se entre cultivo de milho, criação de gado e produção artesanal de tecidos.
Ao longo do século XX, a emigração para a América do Norte esvaziou a aldeia. Sem habitantes permanentes, as casas começaram a degradar-se até ficar praticamente abandonadas.
O renascimento da aldeia
Na década de 1990 iniciou-se um projeto de recuperação conduzido por particulares que optaram por restaurar cada habitação mantendo materiais e técnicas tradicionais. As paredes de pedra foram consolidadas, as coberturas refeitas e os pequenos quintais preservados.
O resultado não foi a criação de um resort moderno, mas de um conjunto habitacional que mantém a escala original. Os interiores ganharam conforto contemporâneo, mas a circulação continua a fazer-se pelas mesmas veredas estreitas usadas antigamente.
A ausência de urbanização intensiva tornou-se parte da experiência: iluminação discreta, poucas infraestruturas e um ritmo marcado sobretudo pela luz natural e pelo som do oceano.
Paisagem e natureza envolvente
A Cuada integra a paisagem classificada da ilha das Flores, Reserva da Biosfera da UNESCO. Ao redor surgem prados delimitados por muros de pedra e falésias abruptas onde a água cai em cascatas diretamente para o mar.
A poucos quilómetros encontra-se o Poço da Ribeira do Ferreiro, também conhecido como Poço das Alagoinhas, anfiteatro natural onde dezenas de linhas de água descem a encosta. Nas proximidades situam-se as lagoas Negra e Comprida, crateras vulcânicas preenchidas por água doce.
Outra referência é a cascata do Poço do Bacalhau, uma das mais conhecidas da ilha, acessível a partir da Fajã Grande. Miradouros como o do Portal ou o Craveiro Lopes permitem observar a sucessão de fajãs e a linha costeira escarpada.
Trilhos e ligação ao Corvo
A ilha das Flores possui vários percursos pedestres oficiais que atravessam lagoas, turfeiras e encostas verdes. Um deles liga precisamente a zona da Cuada à Fajã Grande e a outras áreas naturais protegidas.
Do porto das Lajes parte ainda a ligação marítima para a ilha do Corvo, a mais pequena dos Açores, conhecida pelo grande caldeirão vulcânico central. A proximidade permite complementar a visita com um dos cenários mais singulares do arquipélago.
Um refúgio diferente
A Cuada tornou-se um exemplo de como preservar património rural sem o descaracterizar. Não funciona como aldeia habitada de forma permanente, mas também não é um espaço musealizado: mantém hortas, caminhos e o enquadramento natural que lhe deu origem.
Mais do que um destino de passagem, é um lugar procurado por quem pretende silêncio, paisagem e a sensação de isolamento atlântico que caracteriza a ilha das Flores.






