Imagine uma aldeia onde as casas não têm paredes — têm rochas. Onde blocos de granito com milhares de anos servem de teto, de fachada, de alicerce.
Monsanto, encravada nas serras da Beira Interior, não se limita a estar na paisagem: ela é a paisagem. E, ao que tudo indica, os japoneses perceberam isso muito antes de muitos europeus.
A aldeia que viajou até ao Japão pela televisão
A ligação entre Monsanto e o Japão tem uma origem inesperada: um programa de televisão. Filmado na aldeia e transmitido num canal japonês, o documentário foi suficiente para colocar esta pequena localidade do concelho de Idanha-a-Nova no mapa dos viajantes nipónicos.
Hoje, a seguir a portugueses e espanhóis, são os japoneses o grupo que mais visita Monsanto. Existem até roteiros organizados especificamente para estes turistas, que partem do Japão, aterram em Madrid e fazem de Monsanto o destino principal da viagem antes de regressarem a casa.
A explicação não é difícil de encontrar. Para quem vive num dos países mais densamente povoados e tecnologicamente avançados do mundo, a ideia de um lugar onde o tempo parece ter parado — e onde a pedra dita as regras da arquitetura — tem um apelo quase filosófico.
Uma história gravada na rocha
Monsanto não é apenas bonita. É antiga, de uma forma que se sente a cada passo.
Segundo a tradição local, a povoação resistiu durante sete anos ao cerco romano — proeza que está na origem da famosa Festa das Cruzes, celebrada ainda hoje em maio. Mais tarde, D. Afonso Henriques doou o território aos Templários, que reconstruíram o castelo por volta de 1165.
Foi precisamente em 1938 que Monsanto recebeu o título de «aldeia mais portuguesa de Portugal», atribuído pelo Estado Novo num concurso que pretendia promover as raízes rurais do país. O troféu — uma galo de prata — ainda é recordado pelos habitantes com orgulho.
Desse passado sobram vestígios por todo o lado: palacetes brasonados, portais manuelinos, a casa onde viveu o escritor Fernando Namora e a Torre de Lucano, do século XIV, que se ergue entre os penedos como se sempre tivesse feito parte deles.
O que não pode perder em Monsanto
O Castelo, no ponto mais alto da colina, é visita obrigatória. Das suas muralhas avistam-se as planícies alentejanas que se estendem até à fronteira espanhola. As ruínas da Torre de Menagem e da capela de Nossa Senhora do Castelo completam o cenário.
Mais abaixo, o Miradouro Praça dos Canhões oferece uma vista panorâmica sobre a aldeia e a planície envolvente, com canhões que outrora serviam de defesa e hoje servem de moldura à paisagem.
A Igreja Matriz, com origens no século XV e uma porta de aparência romana, guarda séculos de devoção entre as suas paredes restauradas no século XVIII. Nas imediações, a necrópole de São Miguel surpreende pela perfeição das sepulturas esculpidas diretamente na rocha, moldadas ao contorno do corpo humano.
E depois há as casas — talvez o elemento mais singular de Monsanto. Construídas entre e sobre os penedos de granito, algumas usam um único bloco de pedra como telhado. É arquitetura vernacular no seu estado mais puro.
Além de Monsanto: uma região com muito para descobrir
Os arredores completam uma visita já de si rica. Sortelha, considerada uma das aldeias históricas mais bem conservadas do país, fica a menos de uma hora. Sabugal e Penamacor guardam castelos medievais imponentes, herdados de séculos de disputas fronteiriças com Castela.
Com mais tempo, Belmonte — terra natal de Pedro Álvares Cabral e de uma das mais antigas comunidades judaicas de Portugal — e a monumental praça de Almeida, de traçado estrelado único na Península Ibérica, são paragens que justificam o desvio.
Uma aldeia que fica na memória
Há lugares que se visitam e lugares que se habitam, ainda que por breves horas. Monsanto pertence claramente à segunda categoria. Caminhar entre os seus penedos ao final da tarde, quando a luz rasante transforma o granito em ouro, é uma experiência difícil de traduzir em palavras.
Se os japoneses fazem questão de viajar do outro lado do mundo só para a ver, talvez valha a pena fazer o esforço de sair da cidade por um fim de semana. Monsanto está à espera — e não vai desaparecer. Tem resistido a muito mais do que isso.







