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Lendas pequenas: 10 histórias tradicionais portuguesas

As lendas pequenas portuguesas são uma óptima forma de ensinar um pouco da cultura e da história de Portugal aos seus filhos e netos.

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lendas pequenas
Galo de Barcelos

A história de Portugal está repleta de pequenas lendas, algumas mais fantasiosas que outras e algumas sobre as quais não se sabe ao certo se foram acontecimentos verídicos ou não. No nosso imaginário, estarão sempre lendas relativas a milagres, como a Lenda do Galo de Barcelos, ou lendas relativas a feitos heróicos, como a Lenda de Deu-la-Deu Martins. As lendas pequenas são transmitidas oralmente, de geração em geração. Muitas delas dizem respeito a acontecimentos verídicos mas com toques de imaginação, provavelmente para aumentar a carga dramática ou heróica do realmente sucedeu. Descubra algumas lendas curtas portuguesas para ensinar aos seus filhos ou netos.

 

1. Lenda do Galo de Barcelos

Há muitos anos, passando em Portugal, uma família de peregrinos foi hospedar-se numa estalagem dessa mesma cidade, levando consigo um saco cheio de farnel. Mas como o estalajadeiro era muito ganancioso chamou a polícia dizendo que a família de peregrinos o tinham roubado. Quando chegou a polícia disseram ao chefe da família de peregrinos que ele estava condenado à morte.

O chefe dos peregrinos disse:
– É tão verdade eu estar inocente como este galo cantar!
E o mais engraçado de tudo, é que o galo ao chefe da família dizer isso o galo cantou mesmo.
E agora além da tradição oral, existe também a canção, a estátua do nosso Sr. do galo e o galo feito de barro colorido. Esta estátua do nosso Sr. do galo situa-se à saída de Barcelinhos.

 

2. Lenda da Serra da Estrela

Há muitos anos havia um pastor que todas as noites se encontrava com uma estrela no alto da serra. Um certo dia chegou aos ouvidos do Rei que o pastor falava com essa estrela e o Rei mandou chamar o pastor e propôs-lhe que trocasse a sua estrela por uma grande riqueza. O pastor disse-lhe que não trocaria a sua amiga, e que antes queria continuar a ser pobre do que perder a sua querida estrela.

O pastor voltou à sua cabana no alto da serra e ouviu a estrela dizer que já sentia receio do pastor se entusiasmar pelo dinheiro e deixar a estrela ir para as mãos do poderoso Rei. O pastor disse-lhe que vale mais uma amiga do que muito dinheiro e disse-lhe também com voz de profeta que daí em diante aquela serra se chamaria “Serra da Estrela”. E até agora diz-se que no alto da serra há uma estrela que brilha de maneira diferente, ainda à procura do velho pastor.

 

3. Lenda do Cativo de Belmonte

Esta é a história de Manuel, um corajoso soldado nascido em Belmonte que combateu com ardor os muçulmanos. Um dia, foi capturado pelos mouros e levado para Argel. Aí ficou longos anos como escravo. Encarava o seu destino como uma penitência e iludia as saudades da terra e da família com as tarefas mais pesadas.

Após muitos anos, um mouro perguntou-lhe qual o significado da palavra que Manuel repetia vezes sem conta: esperança. Manuel disse-lhe que significava o desejo de voltar à sua terra e a sua fé na Virgem da Esperança. O mouro respondeu-lhe que tal fé era impossível e tornou-lhe a vida ainda mais dura.

Conta a lenda que a Virgem se apiedou de Manuel. Apareceu-lhe na véspera do dia de Páscoa e anunciou-lhe a sua libertação. Perante o espanto dos mouros, a arca onde Manuel costumava dormir elevou-se no ar e desapareceu em direcção ao mar.

 

4. Lenda de Pedro Sem

Pedro Sem era um mercador rico mas não tinha títulos de nobreza, o que muito o afectava. Possuía muitas naus na Índia e era também usurário. Vivia rodeado de luxo à custa da desgraça alheia, pois emprestava dinheiro a juros elevados. Um dia, estavam as suas naus para chegar, carregadas de especiarias e outros bens preciosos, quando a sua máxima ambição foi realizada: casou-se com uma jovem da nobreza, em troca do perdão das dívidas do seu pai. Decorria a festa de casamento, que durou quinze dias consecutivos, quando as naus de Pedro Sem se aproximaram da barra do Douro.

O arrogante mercador, acompanhado pelos seus convidados, subiu à torre do seu palácio e, confiante do seu poder, desafiou Deus, dizendo que nem o Criador o poderia fazer pobre. Nesse momento, o céu azul deu lugar a uma grande tempestade! Pedro Sem assistiu impotente ao naufrágio das suas naus. De seguida, a torre foi atingida por um raio que fez deflagrar um incêndio que destruiu todos os seus bens. Arruinado, Pedro Sem passou a pedir esmola nas ruas, lamentando-se a quem passava: “Dê uma esmolinha a Pedro Sem, que teve tudo e agora nada tem…”.

 

5. Lenda da Senhora da Lapa

Diz a lenda que a imagem de Nossa Senhora da Lapa apareceu num penedo de difícil acesso, na Beira Alta. Os devotos construíram-lhe um templo num local mais acessível, mas a imagem da Senhora “fugia” para o seu penedo sempre que a punham na nova capela. Este facto insólito ocorreu tantas vezes que os devotos fizeram a vontade à Virgem e construíram-lhe uma capela no penedo, num sítio em que para a ver o crente tem de entrar de lado, por mais magro que seja.

Conta-se ainda que, um dia, um caminhante adormeceu junto à capela e uma cobra entrou-lhe pela boca. O homem acordou e, aflito, invocou no seu pensamento a Senhora da Lapa. A cobra imediatamente virou a cabeça para fora da boca e saiu, sendo depois apanhada e morta.

 

6. Lenda da Inês Negra

Inês Negra era uma mulher do povo, fiel à causa da independência de Portugal, no início do reinado de D. João I. Nessa altura, algumas terras portuguesas eram a favor de Castela. Por essa razão, Inês Negra abandonou Melgaço. Mais tarde, D. João I decidiu reconquistar Melgaço e Inês Negra juntou-se ao seu exército, mas as duas facções nunca chegaram a defrontar-se. Diz a lenda que a “Arrenegada”, inimiga de longa data de Inês Negra, desafiou Inês do alto das muralhas, propondo que a contenda fosse resolvida entre ambas, com o acordo do exército castelhano. D. João I assistiu espantado à resposta de Inês Negra, aceitando o desafio, e ambos os exércitos consentiram o confronto entre as duas.

No meio da luta, a “Arrenegada” conseguiu retirar a espada das mãos de Inês, mas esta tirou uma forquilha da mão de um camponês e continuou o confronto. Passado pouco tempo, as duas resolveram lutar sem armas e Inês feriu a “Arrenegada” de tal forma que esta fugiu para o castelo. Os castelhanos abandonaram Melgaço no dia seguinte e D. João I quis recompensar a heroína, mas esta respondeu que estava plenamente recompensada pela sova que tinha dado à sua inimiga.

 

7. Lenda do Castelo de Faria

Diz a lenda que D. Fernando quebrou o compromisso de casamento com a filha do rei de Castela quando se apaixonou por Leonor Teles. Tal recusa fez com que o rei castelhano desencadeasse uma guerra contra Portugal. O Minho foi invadido pelo adiantado da Galiza, D. Pedro Rodriguez Sarmento, que se bateu com D. Henrique Manuel, tio do rei português, nos arredores de Barcelos. Os portugueses foram derrotados e entre os reféns ficou D. Nuno Gonçalves, alcaide-mor do Castelo de Faria.

D. Nuno receava que o seu filho entregasse o Castelo de Faria por o saber refém dos castelhanos e como tal resolveu engendrar um estratagema: pediu ao galego D. Pedro que o levasse até aos muros do castelo para convencer o filho a entregar a fortaleza sem resistência. Chegados ao castelo, D. Nuno pediu para falar com o seu filho, D. Gonçalo, e convenceu-o a defender-se a custo da própria vida. Os castelhanos, vendo-se traídos, mataram logo ali o velho alcaide e atacaram o castelo.

D. Gonçalo, lembrando-se das palavras do pai, resistiu heroicamente aos ataques e levou os inimigos a desistirem da luta. Apesar de premiado pela sua coragem, D. Gonçalo pediu depois ao rei D. Fernando autorização para abandonar o cargo de alcaide e tornou-se sacerdote.

 

8. Lenda de Deu-la-Deu Martins

Na época das guerras entre D. Fernando de Portugal e D. Henrique de Castela, vivia em Monção Deu-La-Deu Martins, mulher do capitão-mor da região. Um dia, o galego D. Pedro Rodriguez Sarmento resolveu pôr cerco a Monção com um poderoso exército, aproveitando a ausência temporária do seu capitão-mor. A vila foi aguentando o cerco sob o comando de Deu-La-Deu Martins, mas a escassez de alimentos começava a tornar-se desesperante.

Foi então que Deu-La-Deu se lembrou de mandar fazer alguns pães da pouca farinha que restava. Pegou nos pães, subiu à muralha e atirou-os aos sitiantes, dizendo-lhes que as provisões abundavam na cidade e que, dada a duração do cerco, os galegos poderiam precisar de alimento. O inimigo, também cheio de fome e pensando que o cerco ainda poderia demorar mais tempo, decidiu retirar para Espanha.

 

9. Lenda da Bezerra de Monsanto

Conta a lenda que, há muito tempo atrás, as tropas romanas cercaram Monsanto durante sete terríveis anos. Sem nunca se renderem, os seus habitantes tinham sofrido muito e visto morrer muitos dos seus. Ao velho chefe da aldeia, apenas restava uma filha; os seus irmãos tinham sido todos mortos pelo inimigo. Queria que a sua filha fugisse e se pusesse a salvo com o seu rebanho, mas esta recusava heroicamente.

Perante a coragem da filha, o pai pediu-lhe para sacrificar o seu último rebanho e reparti-lo com os habitantes, uma vez que os alimentos escasseavam. Talvez assim conseguissem aguentar mais uma semana. Essa semana passou e os soldados romanos aperceberam-se da trágica situação dos sitiados. Exigiram novamente a sua rendição.

Vendo o desespero do velho chefe, a filha pediu-lhe que não esmorecesse, pois ela ainda tinha guardado uma bezerra gorda que serviria para os salvar a todos. Contou os seus planos ao pai, que logo os pôs em prática: chegou ao cimo das muralhas e, com uma segurança que a todos surpreendeu, gritou aos romanos que não se renderiam porque ainda tinham muita comida. Como prova disso, atirou-lhes a bezerra. O cônsul romano, cansado de tantos anos de cerco e ante a perspectiva deste se arrastar ainda mais, resolveu então retirar e regressar a Roma.

 

10. Lenda da Mula da Rainha Santa

D. Mafalda, filha preferida de D. Sancho I e irmã favorita de D. Afonso II, era uma jovem e bela princesa. Cedo foi escolhida para mulher de D. Henrique, herdeiro do trono de Castela, que tinha apenas doze anos quando se tornou rei. Contrariada com o casamento do filho, D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar ainda antes da súbita morte do rei, aos 14 anos. D. Mafalda regressou a Portugal virgem, e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por “rainha”.

D. Mafalda viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja, mas quis o destino que morresse em Rio Tinto, aos 90 anos, durante uma cobrança de foros e rendas. Os habitantes de Rio Tinto quiseram portanto que ela lá fosse sepultada, mas os de Arouca discordavam pois D. Mafalda tinha passado grande parte da vida no Mosteiro de Arouca.

Foi então que alguém se lembrou que D. Mafalda costumava viajar de mula e sugeriu pôr-se o caixão em cima da mula. Para onde ela se dirigisse seria o local da sepultura da “rainha”. Assim fizeram, a mula dirigiu-se para o Mosteiro de Arouca e morreu. O sepulcro de D. Mafalda foi por duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos. Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.

 

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