À entrada de Válega, freguesia do concelho de Ovar, há um momento em que a paisagem se suspende. Entre campos e casas dispersas, ergue-se uma fachada que não passa despercebida: um revestimento integral de azulejo que transforma a igreja paroquial num dos templos mais invulgares do país.
O impacto é imediato. A luz reflete-se no vidrado, intensificando os azuis, amarelos e verdes que cobrem paredes, torres e frontões. Ao contrário de muitas igrejas rurais, marcadas pela sobriedade da pedra, aqui a narrativa faz-se através da cor.
Uma transformação do século XX
A estrutura original remonta ao século XVIII, mas a imagem que hoje define a Igreja de Santa Maria de Válega resulta de uma profunda intervenção concluída na segunda metade do século XX. Em 1959 iniciou-se o revestimento exterior com azulejos produzidos pela antiga Fábrica Aleluia, em Aveiro.
Não se tratou de simples decoração geométrica. A fachada foi concebida como um grande painel figurativo, representando episódios bíblicos e símbolos religiosos, numa composição que ocupa praticamente todos os planos visíveis do edifício.
A opção pelo azulejo não foi apenas estética. A proximidade da ria e a influência da maresia exigiam materiais resistentes. O vidrado cerâmico revelou-se solução duradoura e eficaz, garantindo brilho e conservação ao longo das décadas.
Um exterior que conta histórias
A igreja funciona como um livro aberto. À medida que se contorna o edifício, surgem cenas religiosas pintadas com detalhe, molduras decorativas e elementos simbólicos que se destacam contra o céu aberto.
A escala das figuras e a intensidade cromática tornam o conjunto particularmente fotogénico. Não é por acaso que este templo se tornou um dos pontos mais procurados por visitantes na região de Aveiro.
O contraste entre a localização rural e a exuberância da fachada reforça o efeito surpresa. Quem chega a Válega dificilmente antecipa esta explosão de azulejo.
O interior: madeira, luz e detalhe
Se o exterior impressiona pela cor, o interior revela outra dimensão. O teto em madeira trabalhada, encomendado com o apoio da família Lopes, introduz uma atmosfera de recolhimento e cuidado artesanal.
A nave é marcada por uma conjugação de mármores, talha e painéis cerâmicos que prolongam a linguagem decorativa do exterior. A luz que entra pelos vitrais projeta tonalidades variáveis ao longo do dia, criando um ambiente que oscila entre o acolhimento e a solenidade.
O conjunto afasta-se da austeridade habitual de muitas igrejas paroquiais e aproxima-se de uma lógica de mecenato comunitário: um espaço onde a devoção se expressa também através do investimento artístico.
Um símbolo construído pela comunidade
A Igreja de Santa Maria de Válega não é apenas um monumento isolado. É o resultado da vontade de uma paróquia que decidiu afirmar a sua identidade através da arte.
A intervenção do século XX transformou um templo tradicional num ícone visual que ultrapassou as fronteiras locais. Ainda hoje, a igreja continua a desempenhar o seu papel religioso, mantendo uma relação direta com a comunidade que a rodeia.
Visitar Válega é perceber que a arte sacra em Portugal não se limita aos grandes centros históricos. Também nas freguesias rurais surgem projetos ambiciosos, capazes de redefinir a paisagem e a percepção do património.
Entre o brilho do azulejo e a solidez da estrutura setecentista, esta igreja afirma-se como um dos exemplos mais singulares da tradição cerâmica portuguesa aplicada à arquitectura religiosa.







