Na encosta da Serra da Lousã, Gondramaz apresenta-se hoje como um dos exemplos mais bem conseguidos de recuperação de uma aldeia de xisto sem perder a leitura do lugar original.
Pequena, compacta e profundamente marcada pela cor escura da pedra, foi durante décadas um território quase silencioso, afetado pelo despovoamento que marcou grande parte do interior serrano.
O que se encontra hoje é o resultado de um processo paciente, feito casa a casa, que devolveu função e legibilidade ao conjunto.
Não se trata de uma aldeia reinventada, mas de um núcleo rural onde o restauro procurou acompanhar a lógica construtiva tradicional, respeitando a escala, a implantação no terreno e a relação íntima entre a arquitetura e a montanha.
Uma aldeia moldada pela pedra
Ao contrário de outras povoações da serra, Gondramaz ficou historicamente associada ao trabalho da cantaria. A proximidade das frentes de xisto e a disponibilidade de matéria-prima explicam a qualidade dos muros, dos embasamentos e das fachadas que ainda hoje estruturam o casario.
Esta herança construtiva foi decisiva no momento da recuperação. As intervenções recentes mantiveram o xisto como material dominante, recorrendo de forma contida ao ferro e ao vidro para responder às exigências contemporâneas de conforto. O resultado é uma leitura clara entre o antigo e o novo, sem artificialismos.
A aldeia integra atualmente a rede das Aldeias do Xisto, o que permitiu consolidar um modelo de valorização patrimonial que ultrapassa a simples recuperação estética.
Do abandono à reocupação
O declínio de Gondramaz acentuou-se a partir da segunda metade do século XX, quando a agricultura de subsistência e a pequena pastorícia deixaram de garantir condições de permanência. Durante vários anos, muitas casas ficaram devolutas.
A mudança começou de forma gradual, ainda antes da criação dos grandes programas de reabilitação. Nos anos 1980, novos moradores — ligados sobretudo a atividades artísticas e culturais — iniciaram a recuperação de algumas habitações, criando uma dinâmica que viria a ser determinante para o futuro da aldeia.
Essa fase inicial foi, mais tarde, integrada num projeto estruturado de requalificação, que consolidou infraestruturas, espaços públicos e percursos pedonais.
Uma aldeia pensada para todos
Gondramaz distingue-se também por ter sido uma das primeiras aldeias de xisto a assumir a acessibilidade como prioridade. O pavimento irregular foi cuidadosamente adaptado, criando percursos contínuos e suaves, compatíveis com pessoas com mobilidade reduzida.
Esta opção não comprometeu a imagem tradicional da aldeia. Pelo contrário, demonstrou que é possível intervir em contextos patrimoniais sensíveis sem transformar o espaço num cenário artificial nem afastar a população.
Mais do que um gesto técnico, trata-se de uma escolha de modelo: uma aldeia recuperada deve continuar a ser habitável e utilizável, não apenas visitável.
A nova leitura da serra
Ao final do dia, quando o nevoeiro frequente da Lousã desce sobre o vale, Gondramaz revela outra dimensão. A iluminação pública discreta valoriza as fachadas de xisto e reforça a leitura volumétrica do conjunto, sublinhando a relação direta entre a aldeia e a encosta.
Não há grandes equipamentos, nem estruturas de animação turística de grande escala. O interesse de Gondramaz está precisamente na contenção do projeto e na forma como a recuperação soube respeitar o silêncio e a densidade visual do lugar.
Entre as aldeias de xisto da região, Gondramaz afirma-se hoje como um caso exemplar de reabilitação rural: um território que não foi transformado para agradar ao visitante, mas reorganizado para voltar a ter vida própria.







