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Gondramaz: a aldeia de xisto que renasceu das cinzas na Serra da Lousã

Na Serra da Lousã, Gondramaz mostra como a recuperação de uma aldeia de xisto pode respeitar a arquitetura tradicional e devolver vida ao interior serrano.

VxMag by VxMag
Fev 15, 2026
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Na encosta da Serra da Lousã, Gondramaz apresenta-se hoje como um dos exemplos mais bem conseguidos de recuperação de uma aldeia de xisto sem perder a leitura do lugar original.

Pequena, compacta e profundamente marcada pela cor escura da pedra, foi durante décadas um território quase silencioso, afetado pelo despovoamento que marcou grande parte do interior serrano.

O que se encontra hoje é o resultado de um processo paciente, feito casa a casa, que devolveu função e legibilidade ao conjunto.

Não se trata de uma aldeia reinventada, mas de um núcleo rural onde o restauro procurou acompanhar a lógica construtiva tradicional, respeitando a escala, a implantação no terreno e a relação íntima entre a arquitetura e a montanha.

Uma aldeia moldada pela pedra

Ao contrário de outras povoações da serra, Gondramaz ficou historicamente associada ao trabalho da cantaria. A proximidade das frentes de xisto e a disponibilidade de matéria-prima explicam a qualidade dos muros, dos embasamentos e das fachadas que ainda hoje estruturam o casario.

Esta herança construtiva foi decisiva no momento da recuperação. As intervenções recentes mantiveram o xisto como material dominante, recorrendo de forma contida ao ferro e ao vidro para responder às exigências contemporâneas de conforto. O resultado é uma leitura clara entre o antigo e o novo, sem artificialismos.

A aldeia integra atualmente a rede das Aldeias do Xisto, o que permitiu consolidar um modelo de valorização patrimonial que ultrapassa a simples recuperação estética.

Do abandono à reocupação

O declínio de Gondramaz acentuou-se a partir da segunda metade do século XX, quando a agricultura de subsistência e a pequena pastorícia deixaram de garantir condições de permanência. Durante vários anos, muitas casas ficaram devolutas.

A mudança começou de forma gradual, ainda antes da criação dos grandes programas de reabilitação. Nos anos 1980, novos moradores — ligados sobretudo a atividades artísticas e culturais — iniciaram a recuperação de algumas habitações, criando uma dinâmica que viria a ser determinante para o futuro da aldeia.

Essa fase inicial foi, mais tarde, integrada num projeto estruturado de requalificação, que consolidou infraestruturas, espaços públicos e percursos pedonais.

Uma aldeia pensada para todos

Gondramaz distingue-se também por ter sido uma das primeiras aldeias de xisto a assumir a acessibilidade como prioridade. O pavimento irregular foi cuidadosamente adaptado, criando percursos contínuos e suaves, compatíveis com pessoas com mobilidade reduzida.

Esta opção não comprometeu a imagem tradicional da aldeia. Pelo contrário, demonstrou que é possível intervir em contextos patrimoniais sensíveis sem transformar o espaço num cenário artificial nem afastar a população.

Mais do que um gesto técnico, trata-se de uma escolha de modelo: uma aldeia recuperada deve continuar a ser habitável e utilizável, não apenas visitável.

A nova leitura da serra

Ao final do dia, quando o nevoeiro frequente da Lousã desce sobre o vale, Gondramaz revela outra dimensão. A iluminação pública discreta valoriza as fachadas de xisto e reforça a leitura volumétrica do conjunto, sublinhando a relação direta entre a aldeia e a encosta.

Não há grandes equipamentos, nem estruturas de animação turística de grande escala. O interesse de Gondramaz está precisamente na contenção do projeto e na forma como a recuperação soube respeitar o silêncio e a densidade visual do lugar.

Entre as aldeias de xisto da região, Gondramaz afirma-se hoje como um caso exemplar de reabilitação rural: um território que não foi transformado para agradar ao visitante, mas reorganizado para voltar a ter vida própria.

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