Chamam-lhe “aldeia mágica” e a expressão não soa exagerada quando se chega lá a pé. Escondida numa encosta da Serra da Freita, no concelho de Arouca, Drave surge como um conjunto de casas de xisto encaixadas na montanha, sem fios elétricos, sem carros e sem ruído urbano. O silêncio é parte da experiência.
Integrada no Geoparque de Arouca, a aldeia ocupa uma depressão natural rodeada pelas serras da Freita, da Arada e de São Macário. A cerca de 600 metros de altitude, mantém a traça tradicional: paredes em lousa escura, telhados em xisto e socalcos agrícolas que descem até às linhas de água.
Uma aldeia que ficou para trás – e ficou intacta
As referências históricas remontam pelo menos ao século XIV, no reinado de D. Dinis. Durante séculos, Drave viveu da agricultura de subsistência, criação de gado e exploração dos recursos florestais.
O isolamento, que outrora era condição natural, tornou-se progressivamente um obstáculo. A população foi diminuindo até à saída dos últimos habitantes permanentes no início do século XXI.
Hoje, a aldeia permanece desabitada, mas não abandonada. Parte das construções foi consolidada, mantendo materiais e técnicas originais. Caminhar pelas ruas irregulares é observar o modo como as comunidades serranas se organizavam: casas de dois pisos, espigueiros comunitários, adega, capela e pequenos terrenos cultivados.
O trilho como rito de passagem
Drave não se alcança de carro. O percurso mais conhecido começa em Regoufe, através do PR14 – Trilho de Drave. São cerca de quatro quilómetros por caminho de montanha, com uma subida inicial exigente, seguida de descida até à aldeia.
O esforço é recompensado pelas vistas amplas sobre o vale e pelo contraste entre o granito claro da serra e o xisto escuro das casas. Levar água, proteção solar e calçado adequado é essencial — aqui não há cafés nem lojas.
Capela, ribeira e piscinas naturais
No centro da aldeia destaca-se a capela de Nossa Senhora da Saúde, ainda palco de celebração anual a 15 de agosto, quando antigos habitantes e visitantes regressam para a romaria.
Descendo a encosta, a Ribeira de Palhais cria pequenas lagoas e quedas de água. Nos dias quentes, estas piscinas naturais tornam-se ponto de pausa antes do regresso pelo trilho. A água fria e transparente reforça a sensação de afastamento do quotidiano urbano.
Escuteiros e preservação
Desde 2003, o Corpo Nacional de Escutas mantém na aldeia a Base Nacional da IV – Drave Scout Centre. Jovens caminheiros de vários países participam em atividades de voluntariado, conservação e formação, contribuindo para a manutenção do património.
Este equilíbrio entre preservação e uso responsável permitiu que Drave se mantivesse íntegra, sem se transformar num cenário artificial.
Natureza e geologia
A envolvente integra formações geológicas relevantes do Arouca Geopark, com presença marcante de xisto e granito. A região é rica em biodiversidade, com vegetação de montanha e aves de rapina que aproveitam as correntes térmicas.
Para quem pretende prolongar a visita, a Serra da Freita oferece outros pontos de interesse, como a Mizarela — uma das maiores quedas de água de Portugal continental — e os trilhos que atravessam planaltos e vales encaixados.
Um lugar para sentir o tempo
Drave não é destino de consumo rápido. É um espaço de contemplação e caminhada. A ausência de infraestruturas modernas não é limitação; é parte do carácter.
Entre casas de xisto, ribeiras e montanhas, a aldeia permanece como testemunho de uma forma de vida que desapareceu em muitos outros pontos do país. Quem lá chega percebe que o encanto não está apenas na paisagem, mas na experiência de a alcançar.







