No interior do Alentejo, a poucos quilómetros de Montemor-o-Novo, a Serra de Monfurado guarda um conjunto de ruínas que passam despercebidas a quem segue apenas os itinerários mais conhecidos.
O Convento de Nossa Senhora do Castelo das Covas de Monfurado resiste entre mato e pedra solta, testemunho de uma comunidade que escolheu o isolamento como forma de vida.
Hoje, o que resta são paredes abertas ao céu, arcos quebrados e vestígios de um claustro que já foi centro de oração e trabalho.
Um retiro eremítico que ganhou forma
A origem remonta ao final do século XVII, quando um grupo de eremitas procurou abrigo espiritual nas encostas da serra. Viviam em cavernas e antigas explorações mineiras de época romana, numa paisagem marcada pela extração de ouro e prata.
Entre eles destacou-se Baltasar da Encarnação, natural de Évora, que afirmava ter visões de Nossa Senhora. Acreditando ter recebido um sinal para ali erguer um convento, procurou apoio junto de João de Vilalobos e Vasconcelos, proprietário de terras na região.
Com a cedência do terreno e o contributo material da população local, a construção avançou.
O convento ficou concluído em 1738. Seguia o modelo franciscano: igreja de nave única, capelas laterais, claustro de dois pisos, cripta e celas modestas. A sobriedade arquitetónica era coerente com o espírito da ordem.
Cultura no meio da serra
Apesar da simplicidade, o convento tornou-se um pequeno centro cultural no Alentejo interior. Terá possuído uma biblioteca com mais de mil volumes, tipografia própria e oficina de arte sacra. Durante algum tempo, foi destino de peregrinação e referência religiosa na região.
A paisagem envolvente contribuía para essa dimensão contemplativa. A Serra de Monfurado, hoje classificada como Sítio de Importância Comunitária na rede Natura 2000, caracteriza-se por montado de sobro e azinho, linhas de água e uma biodiversidade relevante. A integração do convento nesse cenário reforçava o sentido de recolhimento.
Extinção e abandono
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento entrou em declínio. Sem comunidade que o habitasse, foi progressivamente saqueado e degradado. O teto da igreja ruiu, o claustro perdeu parte da estrutura e a cripta encheu-se de detritos.
Em 1977, o conjunto foi classificado como Imóvel de Interesse Público, mas a proteção legal não impediu o avançado estado de ruína. Situado em propriedade privada e de acesso difícil, permanece fora dos circuitos turísticos convencionais.
Visitar com cautela
Quem decide procurar o Convento de Monfurado deve fazê-lo com prudência. O acesso faz-se por caminhos rurais e trilhos irregulares, sem sinalização turística estruturada. Não existem serviços de apoio no local, pelo que convém planear a visita com antecedência e respeitar o enquadramento natural e patrimonial.
A serra oferece ainda percursos pedestres e zonas propícias à observação de aves, o que permite conjugar a descoberta das ruínas com a exploração da paisagem.
Um eco na paisagem alentejana
Entre o mato e as pedras soltas, permanece a memória de uma comunidade que escolheu o silêncio da serra como caminho espiritual. O Convento de Monfurado não é um monumento restaurado nem preparado para visitas massivas. É antes um lugar de memória — onde a história se lê nas fissuras das paredes e no vazio do claustro.
Num Alentejo frequentemente associado a planícies abertas, estas ruínas recordam que também há serras, recolhimento e histórias menos visíveis à espera de quem decide sair da rota habitual.







