Chega-se a Cevide por estradas estreitas, de curvas lentas, até o território se abrir sobre a linha de água que separa — e aproxima — Portugal e a Galiza. Aqui, no extremo norte do concelho de Melgaço, o país começa sem anúncio nem monumentos grandiosos. Começa num lugar pequeno, contido, quase discreto.
A aldeia estende-se junto ao encontro do rio Trancoso com o Rio Minho, num cenário onde a paisagem impõe silêncio e o quotidiano parece seguir um compasso próprio. Não há sensação de periferia. Há, antes, a consciência tranquila de um ponto exato no território.
Em Cevide, a geografia não é abstracção. É chão, água e margem.
O quilómetro zero da fronteira
É junto à foz do Trancoso que se encontra o Marco n.º 1 da fronteira luso-espanhola, o primeiro marco da linha que define a fronteira terrestre entre Portugal e Espanha.
Este pilar de granito resulta do Tratado de Limites de 1864, que fixou definitivamente o traçado da raia. A partir deste ponto, a fronteira segue para sul, ao longo de centenas de quilómetros, até ao Algarve.
O local é simples, quase austero. Não há enquadramentos cénicos artificiais nem plataformas de visita. O marco existe porque tem de existir. E é precisamente essa normalidade que reforça a importância simbólica do lugar.
Durante décadas, esta margem foi vigiada de forma permanente pela antiga Guarda Fiscal. A proximidade entre os dois países é evidente: nalguns pontos, basta atravessar o rio para mudar de território. A vigilância fazia parte da paisagem e da rotina de quem aqui vivia.
Uma fronteira que unia mais do que separava
Apesar do peso institucional da fronteira, o rio nunca foi apenas linha de separação. Foi, sobretudo, espaço de passagem.
Durante grande parte do século XX, a vida em Cevide esteve profundamente ligada ao contrabando de sobrevivência. Café, bacalhau, sabão, tecidos ou pequenas mercadorias atravessavam o rio em barcas improvisadas, muitas vezes durante a noite, numa rede informal de trocas entre margens.
Este comércio discreto estruturou relações familiares, cumplicidades e percursos que ignoravam a rigidez dos mapas oficiais. Conhecer o comportamento das correntes, os acessos à margem e os trilhos na vegetação era uma competência essencial.
Hoje, esses caminhos são percorridos com outro propósito. Transformaram-se em percursos de observação da paisagem e da memória, onde é possível reconhecer, ainda, a lógica de um território que viveu da fronteira.
A aldeia entre a água e o granito
O núcleo habitado de Cevide é compacto. As casas de granito alinham-se junto aos caminhos, com quintais pequenos, muros baixos e uma relação muito direta com o rio.
A arquitetura não procura distinção. É funcional, robusta, moldada por décadas de adaptação ao clima e à vida agrícola. A aldeia conserva uma leitura clara do seu passado recente, sem encenação patrimonial.
O verde intenso das margens do Minho, a humidade constante do vale e a proximidade da água continuam a marcar a forma como o espaço é vivido.
Um lugar para abrandar
Visitar Cevide é, sobretudo, aceitar um ritmo lento. Não há equipamentos turísticos nem circuitos estruturados. O interesse do lugar está na experiência simples de estar num ponto concreto da geografia portuguesa.
Aqui percebe-se com facilidade como a fronteira deixou de ser barreira para se tornar paisagem. A abertura do espaço europeu retirou a tensão que durante décadas marcou estas margens, devolvendo-lhe uma tranquilidade rara.
Cevide é hoje um lugar de passagem curta, mas de memória longa.
Onde Portugal começa, sem ruído
Estar em Cevide é tocar o início físico do país. Não o início simbólico, nem o da história política ou cultural, mas o da linha que desenha o território.
Entre o curso calmo do rio e a solidez do primeiro marco, Portugal começa de forma silenciosa, quase doméstica. Um começo feito de água, pedra e quotidiano — num pequeno lugar do Alto Minho onde a fronteira se transformou, finalmente, num espaço de encontro.







