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Cerdeira: a Aldeia de Xisto que renasceu das cinzas na Serra da Lousã

Na Serra da Lousã, a Cerdeira renasceu como aldeia criativa. Casas de xisto recuperadas, ateliers e natureza num refúgio artístico no interior do país.

VxMag by VxMag
Fev 16, 2026
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Na encosta da Serra da Lousã, a Cerdeira surge como um anfiteatro de pedra voltado para o vale. Durante décadas, foi mais silêncio do que aldeia. As casas de xisto, abandonadas à vegetação e à erosão, pareciam destinadas a desaparecer do mapa.

Hoje, o cenário é outro. As mesmas paredes escuras que testemunharam a partida dos últimos habitantes acolhem ateliers, residências artísticas e visitantes que procuram tempo e matéria.

Quando quase tudo se perdeu

Como tantas aldeias serranas, a Cerdeira sofreu com a emigração e o abandono ao longo do século XX. A agricultura de subsistência deixou de ser suficiente e a dureza do território afastou gerações mais novas.

Nos anos 80, quando a maioria via apenas ruína, alguns decidiram ficar. Chegaram artistas, artesãos e famílias que procuravam uma forma de vida diferente. Não havia plano institucional nem grandes investimentos. Havia vontade e trabalho manual.

A recuperação fez-se casa a casa, respeitando a traça original, reutilizando pedra, barro e madeira de castanho. O resultado foi uma reabilitação gradual, sem ruptura estética. O novo integrou-se no antigo sem o apagar.

Um projeto que une tradição e criação

Com o tempo, a Cerdeira tornou-se mais do que uma aldeia recuperada. Passou a ser um espaço de produção artística. O projeto Cerdeira – Home for Creativity estruturou essa vocação, promovendo residências, cursos e workshops ao longo do ano.

A cerâmica ganhou especial destaque. Fornos de alta temperatura, inspirados em técnicas japonesas, atraem criadores nacionais e estrangeiros. O diálogo entre o xisto da serra e o barro moldado à mão tornou-se uma marca da aldeia.

Aqui, não se vem apenas descansar. Vem-se aprender, experimentar, trabalhar com as mãos.

Uma aldeia habitada, não encenada

A Cerdeira integra a rede das Aldeias do Xisto, mas mantém uma identidade própria. As casas recuperadas funcionam como alojamento, ateliers ou espaços comunitários. A circulação faz-se a pé, por ruelas estreitas onde a pedra domina a paisagem.

O som da ribeira mistura-se com o bater de ferramentas e o movimento nos estúdios. Há vida permanente, não apenas sazonal. A presença de residentes e de artistas em trânsito cria uma dinâmica discreta, mas contínua.

O restauro evitou soluções artificiais. Não há fachadas descaracterizadas nem infraestruturas invasivas. A escala mantém-se humana.

Entre floresta e futuro

A envolvente natural também mudou. Depois de incêndios que afetaram a região, a replantação com espécies autóctones, como carvalhos e castanheiros, tornou-se prioridade. A paisagem é parte essencial do projeto.

Visitar a Cerdeira implica aceitar um ritmo lento. Caminhar pelos trilhos da serra, regressar ao fim da tarde a uma casa de xisto, observar o nevoeiro a descer sobre o vale. A experiência é simples, mas exigente: pede atenção ao detalhe e disponibilidade para o silêncio.

A história recente da aldeia mostra que a recuperação do interior pode nascer de iniciativas pequenas, sustentadas e coerentes. Na Cerdeira, a pedra não é memória estática. É matéria de trabalho e ponto de partida para um novo ciclo.

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