Na encosta da Serra da Lousã, a Cerdeira surge como um anfiteatro de pedra voltado para o vale. Durante décadas, foi mais silêncio do que aldeia. As casas de xisto, abandonadas à vegetação e à erosão, pareciam destinadas a desaparecer do mapa.
Hoje, o cenário é outro. As mesmas paredes escuras que testemunharam a partida dos últimos habitantes acolhem ateliers, residências artísticas e visitantes que procuram tempo e matéria.
Quando quase tudo se perdeu
Como tantas aldeias serranas, a Cerdeira sofreu com a emigração e o abandono ao longo do século XX. A agricultura de subsistência deixou de ser suficiente e a dureza do território afastou gerações mais novas.
Nos anos 80, quando a maioria via apenas ruína, alguns decidiram ficar. Chegaram artistas, artesãos e famílias que procuravam uma forma de vida diferente. Não havia plano institucional nem grandes investimentos. Havia vontade e trabalho manual.
A recuperação fez-se casa a casa, respeitando a traça original, reutilizando pedra, barro e madeira de castanho. O resultado foi uma reabilitação gradual, sem ruptura estética. O novo integrou-se no antigo sem o apagar.
Um projeto que une tradição e criação
Com o tempo, a Cerdeira tornou-se mais do que uma aldeia recuperada. Passou a ser um espaço de produção artística. O projeto Cerdeira – Home for Creativity estruturou essa vocação, promovendo residências, cursos e workshops ao longo do ano.
A cerâmica ganhou especial destaque. Fornos de alta temperatura, inspirados em técnicas japonesas, atraem criadores nacionais e estrangeiros. O diálogo entre o xisto da serra e o barro moldado à mão tornou-se uma marca da aldeia.
Aqui, não se vem apenas descansar. Vem-se aprender, experimentar, trabalhar com as mãos.
Uma aldeia habitada, não encenada
A Cerdeira integra a rede das Aldeias do Xisto, mas mantém uma identidade própria. As casas recuperadas funcionam como alojamento, ateliers ou espaços comunitários. A circulação faz-se a pé, por ruelas estreitas onde a pedra domina a paisagem.
O som da ribeira mistura-se com o bater de ferramentas e o movimento nos estúdios. Há vida permanente, não apenas sazonal. A presença de residentes e de artistas em trânsito cria uma dinâmica discreta, mas contínua.
O restauro evitou soluções artificiais. Não há fachadas descaracterizadas nem infraestruturas invasivas. A escala mantém-se humana.
Entre floresta e futuro
A envolvente natural também mudou. Depois de incêndios que afetaram a região, a replantação com espécies autóctones, como carvalhos e castanheiros, tornou-se prioridade. A paisagem é parte essencial do projeto.
Visitar a Cerdeira implica aceitar um ritmo lento. Caminhar pelos trilhos da serra, regressar ao fim da tarde a uma casa de xisto, observar o nevoeiro a descer sobre o vale. A experiência é simples, mas exigente: pede atenção ao detalhe e disponibilidade para o silêncio.
A história recente da aldeia mostra que a recuperação do interior pode nascer de iniciativas pequenas, sustentadas e coerentes. Na Cerdeira, a pedra não é memória estática. É matéria de trabalho e ponto de partida para um novo ciclo.







