No planalto da Beira Alta, a poucos quilómetros da raia, Castelo Mendo continua a viver à escala do silêncio.
Atravessar hoje as suas portas é entrar num lugar onde a história não se apresenta em vitrinas nem em percursos encenados, mas na própria organização do espaço, nas casas encostadas à muralha e no desenho das ruas que conduzem, quase sempre, ao ponto mais alto da vila.
Durante a Idade Média, esta posição não era apenas paisagem: era estratégia. Castelo Mendo integrou o sistema defensivo da fronteira oriental do reino e teve um papel ativo na vigilância e no controlo das ligações com o território de Leão.
A sua importância explica a existência de duas linhas de muralhas — a cerca primitiva e a cintura que protegeu o arrabalde — algo pouco comum em povoados desta dimensão.
Uma vila mercantil no coração da raia
O momento de maior projecção de Castelo Mendo ocorre no século XIII. Em 1229, o rei D. Sancho II concede à vila o privilégio de realizar feira, considerada pela historiografia como a mais antiga feira régia documentada em Portugal.
Esse estatuto transformou o lugar. A antiga povoação intramuros rapidamente se revelou insuficiente para acolher comerciantes, gado e população sazonal, dando origem ao arrabalde de São Pedro, também ele protegido por muralha própria.
Castelo Mendo deixou de ser apenas uma fortificação de fronteira para se afirmar como pequeno centro económico regional, num território onde o comércio e a circulação eram tão decisivos como a defesa militar.
Ainda hoje, ao percorrer o traçado da vila, é possível perceber essa expansão: a malha urbana alarga-se fora da cidadela inicial, acompanhando a lógica de crescimento associada à feira e às atividades de apoio.
Mendo e Menda: símbolos reaproveitados da Antiguidade
Na antiga casa da câmara, sobrevivem duas figuras de pedra que continuam a marcar a identidade local: Mendo e Menda. A tradição popular transformou-as numa história de amor entre um jovem português e uma jovem castelhana. No entanto, os estudos arqueológicos apontam para uma origem muito anterior.
As esculturas correspondem a verracos de tradição vetona, peças zoomórficas da Idade do Ferro, reaproveitadas na construção medieval.
Este gesto de reutilização é revelador da longa ocupação do território e da forma como a vila foi integrando, na sua arquitectura, vestígios de épocas anteriores, sem qualquer preocupação de musealização.
Em Castelo Mendo, a herança antiga não foi isolada — foi incorporada no quotidiano.
O coração religioso e o controlo do território
No ponto mais elevado da povoação encontram-se as ruínas da Igreja de Santa Maria do Castelo. A antiga igreja matriz ocupava uma posição dominante, como era habitual nas vilas de fundação militar, associando poder religioso e vigilância territorial.
Hoje, o edifício permanece sem cobertura, aberto ao céu, mas o enquadramento permite compreender o papel simbólico e estratégico do templo: daqui controlava-se visualmente a envolvente e afirmava-se, ao mesmo tempo, a centralidade da comunidade dentro das muralhas.
A proximidade ao vale do Côa — eixo natural de circulação — reforçava a relevância militar do local, sobretudo num período em que a fronteira luso-leonesa era ainda instável.
Uma aldeia que nunca foi encenada
Ao contrário de outras localidades históricas profundamente intervencionadas, Castelo Mendo preserva uma relação direta entre património e vida quotidiana. As casas manuelinas coexistem com construções rurais, currais e pequenos anexos agrícolas. Não há separação clara entre núcleo histórico e espaço habitado.
Essa continuidade ajuda a explicar a atmosfera singular da aldeia: menos preparada para grandes fluxos turísticos, mas mais próxima do modo como estes lugares funcionaram durante séculos.
O isolamento geográfico, frequentemente apontado como fragilidade, acabou por proteger o traçado urbano, as muralhas e a leitura global da vila. Castelo Mendo mantém, assim, uma coerência rara entre espaço defensivo, espaço económico e espaço residencial.
Onde a fronteira ainda se sente
Castelo Mendo foi feira, foi sentinela e foi ponto de passagem. Hoje é sobretudo um lugar de memória viva da fronteira medieval portuguesa.
Não tanto pelos monumentos isolados, mas pela forma como todo o conjunto urbano continua a contar a mesma história: a de uma comunidade moldada pela vigilância, pelo comércio e pela necessidade permanente de proteger o território.
Num país onde muitas vilas fortificadas se tornaram cenários, Castelo Mendo permanece, discretamente, uma aldeia real — e é precisamente aí que reside a sua força.







