Entre Évora e a fronteira espanhola, numa ondulação suave da planície alentejana, surgem as ruínas do Castelo Real de Montoito. À distância, parecem apenas um recorte irregular no horizonte. De perto, revelam o que resta de uma fortaleza que já foi peça estratégica na organização do território.
Hoje, o castelo não tem bilheteira nem centro interpretativo. Há pedra exposta, vegetação espontânea e o silêncio largo do Alentejo. A experiência faz-se sem mediação.
Um castelo com selo régio
Montoito ganhou relevância no século XIII, quando recebeu foral de D. Afonso III, mais tarde confirmado por D. Dinis. O estatuto de “Real” indicava ligação direta à Coroa e atribuía à povoação um papel administrativo e defensivo relevante num território ainda em consolidação.
A fortificação, de planta quadrangular e reforçada por torres nos ângulos, seguia o modelo gótico que marcou várias construções militares do Alentejo. Para além da função bélica, o castelo estruturava a vida local: era centro de poder, ponto de controlo e referência na gestão de terras agrícolas e de criação de gado.
Com o tempo e a estabilização das fronteiras, perdeu importância estratégica. Passou para a esfera da Casa de Bragança e, mais tarde, para os Condes de Monsaraz, assumindo funções ligadas à administração rural.
O terramoto e o abandono
O terramoto de 1755 marcou o início do declínio. As estruturas sofreram danos significativos e nunca chegaram a ser plenamente recuperadas. A aristocracia privilegiava então residências mais confortáveis e centros urbanos, deixando as muralhas entregues ao desgaste natural.
Nas décadas seguintes, parte das pedras foi reaproveitada em construções vizinhas, prática comum em muitos monumentos abandonados. O castelo deixou de ser fortaleza e passou a ser pedreira.
Hoje, o que permanece são troços de muralha, arranques de torres e vestígios que exigem alguma imaginação para reconstruir mentalmente a antiga imponência.
A experiência da ruína
Visitar o Castelo Real de Montoito é percorrer um espaço onde o tempo se sobrepõe às intenções humanas. Não há percurso delineado. O visitante caminha entre blocos de alvenaria, mato e silêncios interrompidos apenas pelo vento.
É possível identificar as bases das torres, perceber o traçado original e reconhecer a lógica defensiva que orientou a construção. A planície em redor ajuda a entender o alcance visual que justificava a implantação naquele ponto.
Ao contrário de castelos restaurados e integrados em circuitos turísticos, Montoito mantém uma autenticidade crua. A ausência de intervenção acentua a percepção de fragilidade, mas também reforça a ideia de permanência mínima: mesmo reduzido a ruína, continua a marcar o território.
Um património entre memória e esquecimento
O Castelo Real de Montoito coloca uma questão recorrente no interior português: o que fazer com monumentos que perderam função e investimento? A recuperação integral exigiria recursos significativos. A não intervenção deixa o espaço entregue à erosão.
Entre estas duas possibilidades, a ruína subsiste como testemunho. Recorda um período em que a defesa da raia era prioridade e em que a autoridade régia se afirmava através de muralhas visíveis na paisagem.
Na planície alentejana, onde o horizonte se estende sem obstáculos, as pedras de Montoito continuam a assinalar um passado de vigilância e poder. Mesmo incompleto, o castelo permanece como referência — discreta, mas resistente — de uma etapa fundamental da história do território.







