Entre becos estreitos e escadarias inclinadas de Alfama esconde-se um dos edifícios mais discretos da cidade — e também um dos mais antigos.
Na Rua dos Cegos, perto de São Tomé, permanece uma pequena construção quinhentista que terá mais de cinco séculos e que atravessou praticamente todos os momentos decisivos da história lisboeta, incluindo o terramoto de 1755.
Lisboa mudou profundamente depois da catástrofe de 1 de novembro desse ano. O sismo, seguido de incêndios e maremoto, destruiu grande parte da cidade medieval.
O plano de reconstrução conduzido pelo Marquês de Pombal substituiu bairros inteiros por edifícios de traça regular e antisísmica. Muitos imóveis que tinham resistido foram posteriormente demolidos para uniformizar a nova cidade.
Alfama constituiu uma exceção. A malha urbana irregular, as encostas íngremes e a menor pressão urbanística permitiram que vários edifícios anteriores ao terramoto sobrevivessem — e entre eles está esta casa.
Um fragmento da Lisboa medieval
A pequena habitação destaca-se pelo ressalto do primeiro piso sobre a rua, um elemento típico da arquitetura urbana medieval. Esta solução aumentava a área útil dos andares superiores sem alargar a base da construção, algo frequente nas cidades densas antes das regras urbanísticas modernas.
Hoje é um detalhe raro em Lisboa. Até ao início do século XX existiam várias casas semelhantes na zona, mas foram sendo demolidas ao longo das décadas de 1930 e 1940 durante intervenções de reordenamento urbano.
A sobrevivência do edifício deve-se sobretudo à localização. Implantado numa das zonas mais altas da colina, assentou em terreno rochoso mais estável, o que terá reduzido os efeitos do terramoto. A estrutura simples, de dimensões reduzidas, também contribuiu para a resistência.
Azulejos, reutilização e vida urbana
Na fachada encontra-se um painel de azulejos aplicado já no século XX, inspirado em modelos seiscentistas. Representa um frontal de altar com uma custódia ladeada por anjos.
Tudo indica que terá sido reaproveitado de um elemento religioso mais antigo, prática comum numa época em que materiais decorativos eram frequentemente recuperados de igrejas ou edifícios em ruína.
Este tipo de reaproveitamento ajuda a perceber a evolução do bairro: casas transformavam-se, acrescentavam-se pisos e elementos decorativos ao longo do tempo, refletindo mais a vida quotidiana do que um projeto arquitetónico planeado.
Alfama antes e depois do terramoto
O valor do edifício não reside apenas na idade. Funciona como testemunho da Lisboa anterior à reconstrução pombalina — uma cidade de ruas orgânicas, casas estreitas e crescimento espontâneo.
Alfama foi durante séculos zona de pescadores, artesãos e também judiaria medieval. Mais tarde tornou-se bairro popular ligado ao porto e ao fado. Essa continuidade de ocupação explica porque muitas casas foram sendo adaptadas em vez de substituídas.
Enquanto a Baixa revela a ordem racional do século XVIII, este pequeno imóvel mostra a escala humana da cidade medieval: espaços reduzidos, proximidade entre vizinhos e construção moldada pela topografia.
Um marco discreto mas raro
Não é um monumento monumental nem um museu. Continua integrado na malha urbana, rodeado por edifícios de épocas diferentes. No entanto, representa um dos poucos exemplos ainda visíveis de habitação lisboeta anterior ao terramoto.
A sua importância está precisamente nessa normalidade: permite imaginar como seria a cidade antes da reconstrução pombalina e perceber que parte da história de Lisboa sobrevive não nos grandes palácios, mas nas pequenas casas anónimas.







