No coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês, escondida nas encostas da Serra do Gerês, a Aldeia velha do Juriz é um desses lugares que não se visitam apenas com os olhos. Chega-se a pé, por trilhos de montanha, e entra-se num território onde o granito e o silêncio contam uma história antiga de resistência.
Hoje, o Juriz é um conjunto de ruínas dispersas entre penedos e carvalhos. Mas durante séculos foi uma aldeia de altitude, habitada de forma permanente, moldada por um modo de vida comunitário que ainda hoje marca a memória da serra.
Uma aldeia governada pelos vizinhos
No Juriz, como em muitas povoações serranas do Gerês, a vida organizava-se a partir do conselho de vizinhos. Não havia autoridades formais nem administração distante. Eram os próprios moradores que decidiam o uso dos baldios, a limpeza dos caminhos e a organização da vezeira — o sistema rotativo de guarda do gado.
Num território duro, onde o inverno isolava a aldeia durante semanas, a cooperação não era um valor abstracto. Era uma condição prática para sobreviver.
Casas feitas para o frio e para o gado
As construções de granito seguem o modelo clássico da arquitectura de montanha do Minho interior. No piso inferior ficavam os animais; no piso superior, a família.
O calor do gado ajudava a aquecer a casa e a espessura das paredes protegia do vento e da neve. As habitações foram implantadas de forma compacta, quase encostadas umas às outras, criando corredores estreitos e abrigados — um desenho ditado pela serra, não por qualquer plano urbano.
Um povoado de pastores
A aldeia velha do Juriz vivia essencialmente da pastorícia. Os trilhos que ainda hoje se adivinham entre o mato ligavam o núcleo habitado aos lameiros e às zonas de pastagem de altitude.
Era esta relação directa com a montanha que definia o ritmo da aldeia. O ano organizava-se em função do gado, do clima e da disponibilidade dos pastos, num equilíbrio frágil que só funcionava porque era partilhado.
Quando a modernidade não chegou à serra
O abandono do Juriz não aconteceu de forma súbita. Foi o resultado de décadas de isolamento crescente.
Sem estrada, sem electricidade e sem acesso regular a serviços, a aldeia ficou progressivamente à margem das transformações do século XX. As famílias mais novas desceram para os vales, onde a escola, a saúde e o trabalho estavam finalmente ao alcance.
Quando os últimos habitantes partiram, o Juriz deixou de ter função económica. A serra recuperou, lentamente, o espaço que durante gerações tinha sido humano.
Um lugar para perceber o Gerês por dentro
Hoje, caminhar entre as ruínas da aldeia velha do Juriz é uma das formas mais directas de compreender a dimensão humana do Gerês.
Aqui não há centros interpretativos nem percursos preparados. O que existe é um povoado em ruína, ainda legível, onde se reconhecem casas, currais, muros e antigos caminhos internos.
Entre blocos de granito e vegetação cerrada, o Juriz mostra um outro lado da serra — menos paisagístico e mais íntimo. O de um território que também foi casa, trabalho e comunidade.
Mais do que um lugar abandonado, a aldeia velha do Juriz permanece como um dos testemunhos mais claros da vida em altitude no Gerês e de um modelo de organização comunitária que marcou profundamente a identidade destas montanhas.







