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Provavelmente, a aldeia mais bonita do Alentejo

Santa Susana, perto de Alcácer do Sal, destaca-se pelas casas brancas com barras azuis e ruas alinhadas. Um recanto sereno no coração do Alentejo.

VxMag by VxMag
Fev 16, 2026
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Entre o estuário do Sado e as herdades do interior de Alcácer do Sal surge Santa Susana, pequena e alinhada, quase desenhada a régua. À primeira vista, a aldeia resume-se a duas cores: o branco intenso das paredes caiadas e o azul que contorna portas e janelas.

O efeito não é apenas estético. A uniformidade cria uma sensação rara de continuidade — como se todas as casas partilhassem a mesma história e o mesmo ritmo.

A origem das barras azuis

A tradição local aponta Santa Susana como um dos lugares onde se popularizou o uso do azul nas molduras das fachadas alentejanas. A prática acabou por espalhar-se por toda a região até se tornar uma imagem identitária do sul do país.

Mais do que ornamento, tinha função prática. O pigmento misturado na cal ajudava a afastar insetos e, segundo a crença popular, protegia a casa de influências negativas. A solução doméstica transformou-se em linguagem arquitetónica.

Hoje, percorrer a aldeia é observar essa repetição harmoniosa: portas iguais, janelas semelhantes, chaminés tradicionais a marcar o horizonte baixo.

Uma aldeia planeada

Ao contrário de muitos núcleos rurais que cresceram de forma espontânea, Santa Susana foi organizada de raiz. A malha ortogonal está ligada à necessidade de alojar trabalhadores agrícolas das grandes herdades da bacia do Sado, proporcionando melhores condições de salubridade do que as antigas construções dispersas.

As ruas são direitas e largas, permitindo a circulação de luz ao longo do dia. O resultado é um espaço simples, mas equilibrado, onde a escala humana domina a paisagem.

A proximidade da Barragem de Pego do Altar trouxe novas dinâmicas ao território, mas a aldeia manteve a coerência visual.

A metamorfose das mãos e da terra

A conclusão da Barragem de Pego do Altar, no final da década de 40, marcou o fim de uma era de incerteza para Santa Susana. Até então, a aldeia vivia ao ritmo impiedoso do sequeiro, onde a sobrevivência dependia da generosidade das chuvas para o trigo e para a cortiça.

Com a chegada da água controlada, os hábitos agrícolas sofreram uma mutação drástica: o castanho da terra seca deu lugar ao verde do arroz e de outras culturas de regadio.

Esta abundância hídrica não só estabilizou a economia local, como transformou os antigos ceifeiros em trabalhadores de uma agricultura mais técnica e planeada, trazendo uma nova cadência ao pulsar da aldeia.

O valor da manutenção

O aspeto atual não resulta apenas de herança histórica. A conservação depende de um gesto repetido todos os anos: renovar a cal e reforçar o azul das barras.

Este cuidado coletivo preserva a identidade do lugar sem necessidade de musealização. Santa Susana continua habitada e funcional, não apenas observada.

Um refúgio de simplicidade

Visitar Santa Susana é abrandar. O silêncio das ruas, a repetição das fachadas e a luz aberta da planície criam uma atmosfera de pausa.

Não há grandes monumentos nem equipamentos turísticos. O interesse está na coerência do conjunto — uma aldeia onde a arquitectura popular permanece legível e onde a paisagem não foi interrompida por expansões desordenadas.

Entre o branco e o azul, encontra-se um Alentejo essencial, feito de continuidade, luz e tempo lento.

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