Entre o estuário do Sado e as herdades do interior de Alcácer do Sal surge Santa Susana, pequena e alinhada, quase desenhada a régua. À primeira vista, a aldeia resume-se a duas cores: o branco intenso das paredes caiadas e o azul que contorna portas e janelas.
O efeito não é apenas estético. A uniformidade cria uma sensação rara de continuidade — como se todas as casas partilhassem a mesma história e o mesmo ritmo.
A origem das barras azuis
A tradição local aponta Santa Susana como um dos lugares onde se popularizou o uso do azul nas molduras das fachadas alentejanas. A prática acabou por espalhar-se por toda a região até se tornar uma imagem identitária do sul do país.
Mais do que ornamento, tinha função prática. O pigmento misturado na cal ajudava a afastar insetos e, segundo a crença popular, protegia a casa de influências negativas. A solução doméstica transformou-se em linguagem arquitetónica.
Hoje, percorrer a aldeia é observar essa repetição harmoniosa: portas iguais, janelas semelhantes, chaminés tradicionais a marcar o horizonte baixo.
Uma aldeia planeada
Ao contrário de muitos núcleos rurais que cresceram de forma espontânea, Santa Susana foi organizada de raiz. A malha ortogonal está ligada à necessidade de alojar trabalhadores agrícolas das grandes herdades da bacia do Sado, proporcionando melhores condições de salubridade do que as antigas construções dispersas.
As ruas são direitas e largas, permitindo a circulação de luz ao longo do dia. O resultado é um espaço simples, mas equilibrado, onde a escala humana domina a paisagem.
A proximidade da Barragem de Pego do Altar trouxe novas dinâmicas ao território, mas a aldeia manteve a coerência visual.
A metamorfose das mãos e da terra
A conclusão da Barragem de Pego do Altar, no final da década de 40, marcou o fim de uma era de incerteza para Santa Susana. Até então, a aldeia vivia ao ritmo impiedoso do sequeiro, onde a sobrevivência dependia da generosidade das chuvas para o trigo e para a cortiça.
Com a chegada da água controlada, os hábitos agrícolas sofreram uma mutação drástica: o castanho da terra seca deu lugar ao verde do arroz e de outras culturas de regadio.
Esta abundância hídrica não só estabilizou a economia local, como transformou os antigos ceifeiros em trabalhadores de uma agricultura mais técnica e planeada, trazendo uma nova cadência ao pulsar da aldeia.
O valor da manutenção
O aspeto atual não resulta apenas de herança histórica. A conservação depende de um gesto repetido todos os anos: renovar a cal e reforçar o azul das barras.
Este cuidado coletivo preserva a identidade do lugar sem necessidade de musealização. Santa Susana continua habitada e funcional, não apenas observada.
Um refúgio de simplicidade
Visitar Santa Susana é abrandar. O silêncio das ruas, a repetição das fachadas e a luz aberta da planície criam uma atmosfera de pausa.
Não há grandes monumentos nem equipamentos turísticos. O interesse está na coerência do conjunto — uma aldeia onde a arquitectura popular permanece legível e onde a paisagem não foi interrompida por expansões desordenadas.
Entre o branco e o azul, encontra-se um Alentejo essencial, feito de continuidade, luz e tempo lento.







