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Porque razão o Rei espanhol se intitula Rei de Espanha e do Algarve?

O Rei de Espanha intitula-se também Rei do Algarve. Durante muitos anos a Espanha reclamou o sul de Portugal, mas porque razão usar este título actualmente?

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Faro
Sé de Faro

 

Até 1910, o chefe de Estado em Portugal ostentava o título de Rei de Portugal e dos Algarves, D’Áquem e D’Álem Mar em África, etc. Nesse mesmo ano, após o golpe de Estado republicano, foi abolido o Reino de Portugal, mas curiosamente, por lapso, não aboliram o Reino do Algarve, pelo que, presumivelmente, ainda estaria na ordem constitucional actual. Curiosamente, o Rei de Espanha ostenta o título de Rei do Algarve ainda hoje. Porque razão? Durante a reconquista cristã da Península Ibérica, tanto Portugal como Espanha tinham intenções de anexar o Algarve. Esse é o motivo, mas para perceber como tudo aconteceu, é melhor começar por enquadrar os acontecimentos daquela época com um pouco de história…

A última porção do território de Portugal a ser definitivamente conquistada aos mouros foi a região sul do Algarve, nomeadamente os pequenos enclaves autónomos de Faro, Albufeira, Loulé e Aljezur. Esta reconquista aconteceu durante o reinado de D. Afonso III (quinto monarca português). No entanto, este processo foi dificultado devido às pretensões do reino de Castela que alegava direitos devido à posse de feudos nesse território.

Faro
Faro

A questão acabou por ser resolvida entre os soberanos de Castela e de Portugal, com a assinatura do Tratado de Badajoz, onde se estabeleceram as bases de cooperação e amizade entre os dois reinos. Nos termos do acordo, Don Alfonso X de Castela rendeu todos os direitos para o Algarve a Portugal e estabeleceu-se o Rio Guadiana como a linha de fronteira entre os reinos.

Com tais conquistas, o reino português ficou mais ou menos com a delimitação de fronteiras que actualmente possui, o que nos torna uma das nações com fronteiras mais antigas no mundo.

Este acordo foi o antecessor do Tratado de Alcanizes (1297) que consolidou as fronteiras entre o reino de Portugal e de Leão, uma fronteira muito disputada, principalmente no século XIII. Este foi viabilizado pelo Rei Don Dinis (sucessor de Don Afonso III) que conduziu as negociações ate à fixação da fronteira a norte do Tejo e comportou alguns acertos no tratado que fora negociado três décadas antes e consagrados no Tratado de Badajoz, a 16 de Fevereiro de 1267.

locais para visitar no Algarve
Aljezur

O Al-Gharb dos muçulmanos não era só o Algarve com as fronteiras de hoje. O Al-Gharb de Al-Andalus ia desde Coimbra (Kulūmriyya) até às fronteiras do Algarve dos dias de hoje. Já naquela altura o Algarve era um reino, aliás Silves (Xelb) era a capital desse reino e o Algarve islâmico da época atingiu um elevado esplendor cultural e económico que já vinha a crescer desde a época romana.

A grande conquista cristã que a história de Portugal nos conta quebra com a realidade do que era o Algarve da altura, e com o que realmente aconteceu. Durante mais de cinco séculos (c. 711-1249), sobre o domínio dos povos islâmicos, árabes e beberes, também o cristianismo existia entre a população do Algarve. Durante séculos viveram moçárabes e cristãos sob governos muçulmanos.

Ferragudo
Ferragudo

D. Afonso I (primeiro rei de Portugal), nunca chegou a pisar as terras do Algarve de hoje, foi seu filho, D. Sancho I que em 1189 conquistou Silves e proclamou-se como Rei de Silves e do Algarve, no entanto perde Silves para os árabes em 1191, perdendo também o título. Conseguimos perceber que existia interesse por parte dos reis na conquista (reconquista), pela simples razão de aumentar o seu reino, mas a ordem da conquista era dada pelos Papas, e os portugueses matavam em nome de Deus.

Foram preciso cinco Reis portugueses e a ajuda dos Cruzados para, por mais de um século de guerras conquistarem o Al-Gharb aos muçulmanos, desde 1139 até 1249 (Cento e dez (110) anos). Mesmo, desde 1189 da conquista da grande Cidade de Silves por D. Sancho I, até 1249 da conquista de D. Afonso III, foram precisos setenta e oito anos (78 anos) para conquistar as fronteiras do Algarve de hoje (passaram as passas do Algarve).

Lagos
Lagos

Depois de o Rei de Leão e Castela conquistar Sevilha em Novembro 1248, fez com que D. Afonso III tomasse a decisão de lançar a última ofensiva a sul. Ambos os Reis, de Espanha e Portugal cobiçavam estas terras ricas do Al-Gharb. Na primavera de 1249 chegam as tropas portuguesas à cidade costeira de Santa Maria de Faro. Não houve ataques, nem invasões sangrentas.

D. Afonso III fez apenas um acordo com os mouros estabelecendo o seguinte: deu-lhes as mesmas leis em todos os assuntos, podiam ficar com as suas casas e seus patrimónios e o Rei prometeu, defende-los e ajuda-los contra outros povos invasores. Os que quisessem ir embora poderiam ir livremente e levar seus bens. Os cavaleiros mouros que permanecessem tornar-se-iam seus vassalos, e respondiam quando fossem chamados, e o Rei devia trata-los com honra e misericórdia.

Foi desta forma que D. Afonso de Portugal e do Algarve “atacou” Faro. No final de 1250, os últimos bastiões muçulmanos, em Porches, Loulé e Aljezur rendem-se e aceitam a aliança portuguesa (não é por nada que ainda hoje existe nos brasões das cidades algarvias um rei cristão (D. Afonso III) e um muçulmano).

Tavira
Tavira

Os autores e historiadores contemporâneos portugueses desvalorizaram sempre os registos da verdadeira reconquista, fazendo com que a história ficasse marcada por uma brava e vitoriosa conquista portuguesa, por mouros que fugiram, e banhos de sangue (uma história pouco verdadeira). Os Reis espanhóis consideravam que o Reino do Algarve lhes pertencia por o Rei do Al-Gharb, Musa ibn Mohammad ibn Nassir ibn Mahfuz, Amir de Nieba, ter feito vassalagem ao Rei D. Afonso X de Espanha.

D. Afonso III casou-se com a filha do Rei de Espanha Dona Beatriz de Castela em 1253 com a intenção de criar um laço de aliança (mesmo casado com Dona Matilde de Bolonha). Só em 1267, com o Tratado de Badajoz D. Afonso X de Leão e Castela concede ao Rei de Portugal o Reino do Algarve, fazendo de seu neto D. Dinis o herdeiro do Trono do Algarve.

 

A estratégia de D. Afonso III para conseguir a paz

Em 1253, D. Afonso III desposou D. Beatriz, popularmente conhecida por D. Brites, filha de D. Afonso X de Castela, O Sábio. Desde logo isto constituiu polémica pois D. Afonso era já casado com Matilde II de Bolonha.

D. Afonso III
D. Afonso III

O Papa Alexandre IV respondeu a uma queixa de D. Matilde, ordenando ao rei D. Afonso que abandone D. Beatriz em respeito ao seu matrimónio com D. Matilde. O rei não obedeceu, mas procurou ganhar tempo neste assunto delicado, e o problema ficou resolvido com a morte de D. Matilde em 1258. O infante, D. Dinis, nascido durante a situação irregular dos pais, foi então legitimado em 1263.

O casamento funcionou como uma aliança que pôs termo à luta entre Portugal e Castela pelo Reino do Algarve. Também resultou em mais riqueza para Portugal quando D. Beatriz, já após a morte do rei, recebe do seu pai, Afonso X, uma bela região a Este do Rio Guadiana, onde se incluíam as vilas de Moura, Serpa, Noudar, Mourão e Niebla. Tamanha dádiva deveu-se ao apoio que D. Brites lhe prestou durante o seu exílio na cidade de Sevilha.

 

Tudo se resolve graças ao amor de um avô pelo seu neto

Pelo lado materno, D. Dinis era neto de D. Afonso X de Leão e Castela, um dos monarcas mais influentes do seu tempo, apelidado de o Sábio e que reclamava para si o Reino do Algarve. Ele próprio também poeta (D. Dinis ter-lhe-ia herdado este talento), escreveu vários livros e incrementou a cultura. Entre outras medidas, fundou a Escola de Tradutores de Toledo e um Observatório Astronómico.

merda na boca
D. Dinis

Afonso X  favoreceu igualmente Portugal, ao prescindir dos direitos que tinha sobre o Algarve, a fim de presentear o neto D. Dinis, à altura com apenas cinco anos. Na verdade, D. Dinis era o neto preferido do Rei espanhol, talvez pela sua vertente de poeta, tal como o avô. Conta-se que D. Dinis terá visitado o avô em Espanha quando era criança e D. Afonso X terá ficado tão maravilhado com a criança que resolveu abdicar do Reino do Algarve em seu favor. Mesmo assim, por uma questão de orgulho, manteve o título que ainda hoje é usado pelo actual Rei de Espanha, Filipe VI. Já agora, como curiosidade, o Rei de Espanha também usa o título de Rei de Jerusalém.

 

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