Início Sociedade Mosca, Coito, Murcho: um país repleto de apelidos curiosos

Mosca, Coito, Murcho: um país repleto de apelidos curiosos

Famílias Coito, Bagina, Virgem, Mimo, Mosca, Picamilho... Ao nome próprio juntaram a herança da família – o sobrenome que faz furor em qualquer repartição pública.

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Portugal Feliz tem 79 anos e carecem-lhe razões para acreditar em dias melhores, numa altura da vida em que se multiplicam as maleitas e as urgências no centro de saúde. Está acamado, frágil e triste, à semelhança do país que lhe dá o nome. Paixão Jesus, de 85 anos, não se esquece do dia em que o marido não voltou para jantar – “já lá vão mais de 50 anos que fugiu para o Brasil” – e lhe deixou quatro filhos para criar, um deles ainda na barriga; nunca mais se apaixonou. Estas são algumas das vidas por detrás dos nomes menos comuns da lista telefónica: testámos os números e fomos saber como lidam com essa ‘herança’ dos pais.

PENETRA MURCHO

António habituou-se desde cedo a que comentassem os apelidos tatuados no BI – tanto que estranha quando a conjugação Penetra Murcho não provoca reacção . “Quando vou a uma repartição pública os funcionários levantam-se com o papelinho na mão e abalam lá para dentro. Para rirem à-vontade, claro, e para mostrar aos colegas para que eles se riam também. Quando era mais jovem até me deu bastante jeito com as meninas. Naquela altura demorava-se muito para ter conversas malandras mas eu tinha sempre o pretexto do meu apelido para tentar o assunto, era uma desculpa”. O Penetra Murcho deu-lhe mais proveito do que prejuízo numa altura “em que quando se via o joelho de uma mulher já era um ai meu Deus”.

Hoje, António tem 70 anos e já é raro ouvir: ‘Então mas como é que você faz isso, homem?’ e de responder ‘fazer o quê? Aquilo murcho não penetra’. E se o apelido lhe deu motivos para rir, a vida deu-lhe trabalho desde cedo: “Comecei no campo aos nove anos, passei pela construção civil, fui bombeiro e acabei nos combustíveis”. E, desde há quatro anos, deu-lhe “uma saudade imensa” da mulher que partiu. Ismael Gato Pila partilha com Penetra Murcho o sentimento português e um apelido capaz de provocar o riso nos mais cinzentos. “Andava embarcado e quando chegava aos bares do porto de Leixões eram logo as miúdas: ‘Olha a pila do gato já chegou’.

Agora estou na terceira idade, já ninguém me diz isso”. A marinha mercante foi a solução feliz para conseguir pôr na mesa a comida que a pesca em Sesimbra não lhe dava, bem como um filho na barriga de uma cabo–verdiana que conheceu num porto distante. “Fiz jus ao meu nome e à minha profissão. Dizem que os marinheiros têm uma namorada em cada porto, eu não tinha em todos mas tinha em alguns”. No móvel grande da sala as fotos dos que já partiram servem de pretexto para falar do nome: “Aqui está o meu bisavô Pila, o meu avô Pila, o meu pai Pila e a minha mulher que tinha a minha Pila. A minha filha herdou o nome mas não o quis pôr na minha neta para ela não ser gozada na escola como ela foi”.

Da família alargada conheceu mais parentes com igual apelido: “A Pila Paixão é minha prima, o Cruz Pila é meu sobrinho, o Cristão Pila, o Pila Rocha, o Borracha Pila. Alguns já morreram mas eram todos aqui da zona”. Em Lisboa, a Domingo encontrou mais uma homónima: Maria Pila Cavalheira já garantiu 90 anos de vida, repartidos por Lisboa e Penamacor, e será das últimas, “senão a última”, com esta combinação. “Os outros que o tinham foram morrendo, resto eu. Sempre passou despercebido porque eu só dizia o primeiro e o último”. António Ressurreição Marques Chupa sempre assumiu – “com orgulho” – o último nome. “Claro que as pessoas acham graça ao Chupa mas nunca foram indelicadas”. O empresário de carpintaria reformado preferiu, apesar disso, não o passar aos descendentes.

COITO BOM

‘Ai homem, que nome que você tem’ é frase que Abel Coito Bom, rijo para os 83 anos que mostra o registo, ouve com assiduidade. “Metem-se muito comigo, porque este nome é malandreco, foi o meu pai que mo passou quando eu nasci. Mas não tive muitas namoradas: estou casado com a minha mulher faz 60 anos no dia 23 e somos muito felizes”. Se o nome ajudou ou não ao casamento duradouro, o segredo fica dentro das paredes da casa onde moram, em Arrouquelas, no concelho de Rio Maior. Só podemos adiantar que o pé ligeiro de Abel, em tudo quanto era bailarico, ajudou a cativar o coração de Lídia. Um rapaz e uma rapariga foram os frutos do enlace e a ambos só chegou o Bom, o Coito perdeu-se pelo caminho “para não ficarem com um nome muito comprido”.

Abel, que foi corticeiro, trabalhou em lagares de azeite, numa fábrica de tomate e numa camioneta de farinhas, é apesar disso mais conhecido por ‘Ti Sequinho’ do que por Coito Bom. “Era gordo quando era novo e começaram a chamar-me assim”. A Isabel Azeitona Meio-Tostão não arranjaram nunca alcunha. “Talvez porque o meu nome tem mesmo a ver com a minha vida: apanhei muita azeitona e vi poucos tostões na carteira”. O nome foi prenúncio de uma vida de trabalho no campo, de mãos na terra, na serventia dos outros. Herdou dos avós os dois fados mas maior peso têm os desgostos que carrega. “Morreram-me as pessoas mais importantes, o meu marido e filho. Os vivos estão longe, os mortos é que estão perto. Se calhar Deus quis assim, que eu ficasse para lhes tratar das sepulturas todos os dias”.

CANECA PENETRA

Quando tem de dizer o apelido, o motorista de pesados João Manuel Caneca Penetra nem pestaneja mas há quem o faça por ele. “As pessoas não conseguem evitar rir, ficam espantadas e até são malandras por causa do Penetra, mas eu tenho muito orgulho e não mudava de nome por nada porque é a herança dos meus pais”. Ursília Mosca Disca, António Beleza Mau e Manuel Baixinho Graxinha (que até tem 1,73 m de altura) partilham de semelhante convicção. Com Beatriz foi diferente – foi ela que escolheu o apelido. “Se brincavam comigo na escola por eu me chamar Virgem? Mas como, se eu só comecei a ser Virgem depois do casamento? Quem era Virgem era o meu marido” – responde a idosa de 66 anos, sem se aperceber da graça, à pergunta pelo telefone da Domingo. A chamada seguinte levou-nos a Olhão e a um homem que cumpriu bem os apelidos que carrega: Jacinto Pai Avô teve três filhos e nove netos e não se curvou à missão que o nome impunha. João Ratão Pires, proprietário de uma casa de fumeiros, fez o mesmo: encontrou “uma carochinha” e casou com ela, sem ter de a apanhar em nenhuma janela – cresceram juntos no Nordeste Transmontano – e sem cair no caldeirão. Resolvemos testar o número de Ana Carochinha e fazer igual pergunta no que toca a amores. “Encontrei o meu João Ratão na escola onde na altura trabalhávamos”. Domingos Vida Larga também tem cumprido à risca o apelido: os 80 anos são disso prova. “É um bom nome se realmente eu me aguentar por cá, é uma coisa que toda a gente quer mas nem todos têm”. A vida de Vida Larga é hoje bem menos preenchida do que era, restam as memórias do tempo em que os mármores o mantinham ocupado e evitavam pensar na solidão que a viuvez trouxe.

ALEGRIA BAGINA

António Alegria Bagina toda a vida ouviu a pergunta ‘você chama-se mesmo Vagina?’ e toda a vida respondeu que não: ‘Que é Bagina com B’. Quem nos conta a saga não é o dono do apelido mas sim a mulher, Ana. “Olhe, o meu marido apesar de ter Alegria no nome só foi razoavelmente feliz. Morreu-lhe uma filha de 22 anos debaixo do comboio e nunca mais foi o mesmo. Há onze anos também teve um AVC e isso deitou-o muito abaixo”. Também é a mulher de Mimo Pires que fala ao telefone. “Ele está muito surdo, mas se é para falar do nome posso-lhe dizer que não tem nada a ver: É um velhote rezingão”, graceja Bárbara, de Vila Nova de Paiva. Distante no mapa mas perto no nome está a família Mimo de Mem Martins. Dino Amado Mimo, um impressor litógrafo de 50 anos, passou à mulher Paula e aos dois filhos – um militar do Exército e uma estudante universitária – o último nome e não raras vezes perguntam ao clã se são da família do palhaço de uma conhecida operadora telefónica. Já Vitória Liberdade Sopa viveu 44 anos sem conhecer o significado dos nomes próprios escolhidos pelos pais quando nasceu. A revolução de Abril mostrou-lho em todo o esplendor quando ao passar na rua onde vivia, em Ponta de Marfil, no Algarve, lhe bateram palmas. “Foi o dia em que mais ouvi o meu nome. Aí tudo começou a fazer sentido. As pessoas antes diziam-me: ‘Ai se o Salazar sabe o teu nome vais presa, Vitória Liberdade'”. Tratou de fazer jus ao do meio ao escolher ficar solteira – apesar de ter casado os irmãos todos – “tal como não fui bailarina ou cantora também não quis casar. De mente sempre fui livre naquilo que pude”.

COITO PITA DE PAIS PARA FILHOS (homens)

Ele tem um amigo que se chama Piló e um sócio Tranquada. O advogado e deputado do PSD-Madeira, José Coito Pita, costuma brincar com os amigos. “Nós podíamos fazer uma sociedade: ‘Trancada, Coito e Piló'”, conta. Mas de brincadeiras já chega. Que não venha ninguém de fora buscar segundos significados na sua graça. “É nome de pessoa e não tem qualquer outro significado, embora as palavras tenham sinónimos”, sentencia Coito Pita. Mais do que tudo, é uma herança que tem passado de pai para filho e tem origem na Ponta do Sol, Madeira. Mas só entre homens. A filha do deputado regional já não carrega o apelido paterno. “Em homens não há problemas, mas compreendo que uma senhora não gostasse de ter esse apelido”, conclui. Manuel Coito Pita, de 42 anos, que carrega os mesmos apelidos do advogado e a morada na Madeira, confessa: “As pessoas brincam mais comigo por eu ter o nome do Coito Pita conhecido, o deputado, do que pelo significado dos nomes. Perguntam-me sempre se sou família dele e eu sorrio, porque sou mais malandreco do que qualquer pessoa”.

NOTAS

28 PILAS Há 28 pessoas com o apelido Pila, 178 com Penetra e 433 com Coito na lista telefónica de 2010.

COMUM

Os nomes mais registados em Portugal são José e Maria. O apelido mais frequente é Silva.

PEDIDOS

A média anual dos pedidos de mudança de nome nas Conservatórias de Registo Civil é 650 pessoas.

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