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Língua Portuguesa: os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos

Com base na opinião de 5 reputados especialistas, a Revista Estante seleccionou um conjunto de obras de enorme valor literário. Estes são os 12 melhores livros da Língua Portuguesa do último século.

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melhores livros portugueses de sempre

 

Quais são os melhores livros da Língua Portuguesa? As opiniões são subjectivas e dependem da opinião e dos gostos literários de cada um. Mas a Revista Estante, pertencente ao grupo FNAC, juntou 5 grandes nomes e deu-lhes o desafio de escolher 12 livros marcantes na literatura portuguesa dos últimos 100 anos. Foi assim que Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia, Carlos Reis, Isabel Lucas e Manuel Alberto Valente chegaram a esta lista de livros. Para além da análise crítica e literária da qualidade da obra em si, analisaram também o impacto do livro no conjunto da literatura Portuguesa. O resultado é uma lista que nos enche de orgulho e que deveria ser de leitura obrigatória para qualquer amante de livros. Estes são os 12 melhores livros da Língua Portuguesa do último século.

 

1. A grande casa de Romarigães (Aquilino Ribeiro)

Sabia que a Casa Grande de Romarigães é real e que aí moraram o ex-Presidente da República Bernardino Machado e o próprio Aquilino Ribeiro (1885-1963)? O escritor beirão sobre quem Fernando Namora disse ser “aquele jovem que trouxera a província para a cidade” conta nesta obra, publicada pela primeira vez em 1957, a história de Portugal através desta casa parcialmente em ruínas. Aquilino Ribeiro encontrou correspondências entre antigos habitantes da casa, datadas entre 1680 e 1828, e decidiu continuar a história. No prefácio, o autor diz que as últimas páginas do livro são “da sua lavra”: “Às outras, sacudi o bolor do tempo e reatei o fio de Ariadna, interrompido aqui e além.”

A PRIMEIRA FRASE: “Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes gerou-se a floresta.”

SOBRE O AUTOR: “É um inimigo político, mas é um grande escritor!” (António Oliveira Salazar)

 

2. A Sibila (Agustina Bessa-Luís)

A Sibila consagra Agustina Bessa-Luís (nascida em 1922) como um dos nomes a ter em conta na ficção portuguesa contemporânea após a sua publicação, em 1954. O sentimento telúrico está presente em quase toda a sua obra e neste livro há uma espécie de chuva torrencial de memórias das personagens, onde o passado legitima o presente e vice-versa. A autora inaugura uma nova forma de narração que irá caracterizar toda a sua obra e tem três eixos fundamentais: o papel das mulheres, a importância da recordação e um discurso que se repete mas acrescentando sempre novas informações. Há uma complexidade na obra de Agustina que a torna única na literatura portuguesa.

A PRIMEIRA FRASE: “– Há uma data na varanda desta sala – disse Germana – que lembra a época em que a casa se reconstruiu. Um incêndio, por alturas de 1870, reduziu a ruínas toda a estrutura primitiva.”

SOBRE A AUTORA: “Agustina é uma génia. Tudo o que escreveu – que foi muito para quem conta a metro, mas pouco para quem conta em momentos de vida a lê-la – é genial.” (Miguel Esteves Cardoso)

 

3. Finisterra (Carlos de Oliveira)

Sobre esta obra, Herberto Hélder deixou-nos estas palavras: “Proposto como romance, é antes uma alegoria ficcionalmente articulada que pode ser lida na perspectiva de uma espécie de cartografia imaginária do autor, constituindo assim a melhor introdução ou o melhor comentário à sua obra.” Publicado em 1978, Finisterra tem como pano de fundo a paisagem gandaresa e explora a decadência de uma família, espelhada numa casa em estado de degradação contínuo. Na obra, Carlos de Oliveira (1921-1981) explora também a interpretação subjectiva do homem no seu contacto com a realidade.

A PRIMEIRA FRASE: “O jardim familiar (primeira fase do abandono): montões informes de silvedo, buxo descabelado, urtigas, flores selvagens.”

SOBRE O AUTOR: “Os grandes escritores não morrem – e Carlos de Oliveira foi um dos mais cintilantes nomes da literatura portuguesa do século XX.” (Inês Pedrosa)

 

4. Húmus (Raúl Brandão)

Publicado em 1917, no ano da revolução soviética, Húmus tem um toque de socialismo cristão. O livro começa e acaba fazendo referências à morte, sendo que o próprio título nos remete para a “camada superior do solo, composta em especial de matéria orgânica, decomposta ou em decomposição”. Nesta obra de Raul Brandão (1867-1930) a ficção dilui-se na prosa, numa vila literária criada pelo próprio autor. Um livro que tem tanto de mórbido como de inovador para a época em que foi lançado.

A PRIMEIRA FRASE: “13 de Novembro. Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste…”

SOBRE O AUTOR: “Raul Brandão tem uma total empatia social mas não é um autor político no sentido estrito da palavra. É um autor que deve muito aos autores russos, àquela espécie de socialismo cristão.” (Pedro Mexia)

 

5. Livro do Desassossego (Fernando Pessoa)

Sabia que este livro foi publicado em 1982, 47 anos depois da morte de Fernando Pessoa (1988-1935)? Sobre o livro, o próprio autor resume: “São as minhas confissões e, se nelas nada digo, é que nada tenho para dizer.” Escrito durante mais de 20 anos sob o heterónimo de Bernardo Soares, personagem criada por Pessoa, são mais de 500 textos sem qualquer sequência entre si. E é um livro inacabado. Os textos passam-nos a inquietação, a angústia, mas também a lucidez e a capacidade de reflexão do autor, demonstrando a complexidade da mente de Pessoa e as inúmeras dúvidas que o próprio tinha acerca da sua personalidade e sobre a vida.

A PRIMEIRA FRASE: “Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê.”

SOBRE O AUTOR: “Fernando Pessoa transforma a sua vida e o seu quotidiano, o seu pensamento e a sua viagem intelectual, numa experiência universal que todos partilhamos.” (Clara Ferreira Alves)

 

6. Mau tempo no canal (Vitorino Nemésio)

David Mourão-Ferreira descreve este livro como “a obra romanesca mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil em toda a nossa história literária”. Mau Tempo no Canal demorou cinco anos a ser escrito por Vitorino Nemésio (1901-1978) e parte da história do casal Margarida Clark Dulmo e João Garcia. Mas Vitorino Nemésio serve-se destes personagens apenas como gancho para nos relatar uma sociedade açoriana estratificada, com todos os problemas que a atingem: angústias, sofrimentos, paixões e o sentimento tão único de ser ilhéu.

AS PRIMEIRAS FRASES: “– Mas não voltas tão cedo… João Garcia garantiu que sim, que voltava. Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua honra. Eram fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes.”

SOBRE O AUTOR: “Nasceu com um talento multiforme que daria, à vontade, para mais dez autores, e todos eles de primeira água.” (David Mourão-Ferreira)

 

7. O ano da morte de Ricardo Reis (José Saramago)

A obra de José Saramago (1922-2010) é tão singular que lhe valeu o Prémio Nobel de Literatura – o único que Portugal recebeu até hoje nesta área. O Ano da Morte de Ricardo Reis é não só peculiar como faz por questionar tudo o que nos rodeia. Quem somos? O que nos acontece quando morremos? Somos únicos ou, como Fernando Pessoa, somos vários? O livro conta a história do regresso a Portugal, vindo do Brasil, de Ricardo Reis, o heterónimo de Pessoa, quando confrontado com a morte do seu criador. É um livro denso mas vai envolvendo o leitor do início ao fim, fazendo também uma viagem pela história de Portugal.

AS PRIMEIRAS FRASES: “Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas do barro, há cheia nas lezírias.”

SOBRE O AUTOR: “Falava e escrevia com o desassombro e com a clareza que a alguns desagradava, mas que para ele eram uma forma inalienável de respiração intelectual.” (Carlos Reis)

 

8. O Delfim (José Cardoso Pires)

Nesta obra publicada em 1968, José Cardoso Pires (1925-1988) procura olhar para outros homens e entendê-los, como tão bem explica Gonçalo M. Tavares no prefácio. Em O Delfim assistimos a uma escrita despojada por parte de um autor que procura transparência. Cardoso Pires descreve o regime salazarista e debruça-se sobre a forma como este afecta as relações entre as pessoas. É este equilíbrio entre a metaforização de um regime e a descrição do seu declínio que torna O Delfim uma obra tão relevante para a literatura portuguesa. Ao analisá-la, o próprio autor confessa ter-se despistado “numa sucessão de planos dialéticos”. Ainda bem que assim foi, pois este é um dos grandes romances portugueses do século XX.

A PRIMEIRA FRASE: “Cá estou. Precisamente no mesmo quarto onde, faz hoje um ano, me instalei na minha primeira visita à aldeia e onde, com divertimento e curiosidade, fui anotando as minhas conversas com Tomás Manuel da Palma Bravo, o Engenheiro.”

SOBRE O AUTOR: “Trata-se, portanto, de José Cardoso Pires ser Aquele que tira e não Aquele que põe. Tira o que está a mais, o que está exactamente a mais.” (Gonçalo M. Tavares)

 

9. Os cus de Judas (António Lobo Antunes)

“A dolorosa aprendizagem da agonia.” É assim que António Lobo Antunes (nascido em 1942) classifica a guerra de Angola. Neste livro, o autor reflecte sobre os horrores a que assistiu durante os dois anos em que esteve destacado na ex-colónia portuguesa em formato de testemunho. É o seu segundo livro, publicado em 1979, e o veículo para uma voz demasiado tempo silenciada, que vem contar a sua versão dos factos, concluindo que aquela guerra não passou de um “gigantesco” e “inacreditável” absurdo. Os Cus de Judas é um relato doloroso das vivências de Lobo Antunes em Angola, no qual o narrador deixa transparecer feridas ainda bem abertas.

A PRIMEIRA FRASE: “Do que gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fios de rebuçado na concha da língua.”

SOBRE O AUTOR: “António Lobo Antunes é um dos que sabe, como o poeta René Char, que certas guerras não acabam nunca.” (Manuel Alegre)

 

10. Os passos em volta (Herberto Hélder)

Publicado em 1963, Os Passos em Volta está entre o conto, o romance e o discurso autobiográfico, num livro que espelha o homem-poeta com um tom refletivo de quem procura respostas.
Sendo um dos pioneiros do surrealismo em Portugal, Herberto Helder (1930-2015) escreve: “Não queremos este inferno. Deem-nos um pequeno paraíso humano.” Este livro retrata a busca incessante de um homem para o sentido da sua existência e é também uma obra que nos transcende.

AS PRIMEIRAS FRASES: “– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.”

SOBRE O AUTOR: “Quando morre um poeta com a dimensão de Herberto Helder, o que sentimos é que não apenas morreu um poeta, mas a poesia.” (José Tolentino Mendonça)

 

11. Para sempre (Vergílio Ferreira)

Este romance semiautobiográfico de Vergílio Ferreira (1916-1996) transpõe para a narrativa, como grande parte da obra do autor, o pensamento filosófico e a sensação de inquietude do indivíduo.
Para Sempre é uma obra onde a morte está presente do início ao fim, mas que surge ao leitor como a única solução para o fim do sofrimento. Nas páginas deste livro acompanhamos a dor do protagonista e partilhamos a sua mágoa, como se fossemos nós a senti-la. A forma como Vergílio Ferreira explora a língua portuguesa para transmitir emoções é de uma mestria digna de destaque.

AS PRIMEIRAS FRASES: “Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olha-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino.”

SOBRE O AUTOR: “Ele escreve como falava, com o mesmo sarcasmo, a mesma capacidade de, com duas ou três palavras, fazer o retrato de uma pessoa e esmagá-la.” (Eduardo Lourenço)

 

12. Sinais de Fogo (Jorge de Sena)

É em paralelo com a Guerra Civil Espanhola que este romance autobiográfico acontece, na década de 1930. Sinais de Fogo é uma obra inacabada e publicada em 1979, um ano após a morte do autor, que tem como eixo central a paixão de Jorge por Mercedes. É nos episódios que rodeiam esta relação que Jorge de Sena (1919-1978) coloca toda a poesia deste romance, considerado por muitos um marco da literatura portuguesa da segunda metade do século XX.

A PRIMEIRA FRASE: “Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.° ano dos liceus.”

SOBRE O AUTOR: “Um grande amor pela humanidade como o de Jorge de Sena não tem lugar em homens de corações pequenos.” (Ángel Marcos de Dios)

 

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