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Língua Portuguesa: a curiosa origem dos palavrões e das asneiras

A Língua Portuguesa está repleta de pequenas curiosidades... mesmo nas suas palavras menos bonitas ou educadas. Descubra a origem das asneiras e dos palavrões.

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Caralho
Caralho

 

Apesar de muitas vezes serem considerados ofensivos, os palavrões fazem parte da linguagem do dia-a-dia da grande maioria das pessoas. São um “hábito”, uma “convenção que se aprende”, que dificilmente se consegue largar, como defende o psicólogo norte-americano Timothy Jay. Estão por todo o lado, e não há como lhes escapar. E a Língua Portuguesa não é excepção. Muitos são os palavrões e as asneiras no nosso vocabulário e é interessante perceber quando, como e porque razão é que estas palavras começaram a ser consideradas como impróprias, ou seja, como insultos, palavrões ou asneiras. A maioria dos palavrões existe há várias centenas de anos e está longe de ser uma invenção dos tempos modernos.

Melissa Mohr, especialista em literatura medieval e autora de Holy Sh*t: A Brief History of Swearing, defende que o hábito de dizer asneiras vem desde o tempo dos romanos. “Os romanos são importantes na história dos palavrões porque as asneiras que usavam eram baseadas nos tabus sexuais e de excreção, como acontece na maioria das línguas modernas”, explicou a autora. “Eram baseados no corpo humano e em acções. Mas, como tinham um esquema sexual muito diferente, alguns dos seus palavrões eram usados de maneiras diferentes.”

 

Puta
Puta

Rafael Bluteau, no dicionário Vocabulario Portugues e Latino, editado em 1712, explica que puta chegou a ser “um vocábulo honestíssimo”, sinónimo de “moça puríssima e limpa”. Por corrupção, a palavra terá passado a significar prostituta, de modo a “encobrir a fealdade do vocábulo meretriz ou de outro igualmente feio”.

De acordo com o autor, a definição moderna de puta terá surgido através de uma corrupção da língua, um processo linguístico que consiste na mudança de significado de uma palavra. Originalmente, na base de puta, estaria a palavra putos, um adjectivo latino para puro ou brilhante. Uma outra hipótese, referida por outros autores, é a de que o palavrão se trata de uma derivação do verbo putere que, em latim, significa estar deteriorado ou cheirar mal.

Os antigos romanos tinham também por hábito chamar lobas às prostitutas. O termo terá dado origem à palavra lupanar, usada ainda hoje para descrever um bordel ou uma casa de prostituição. É por esta razão que, segundo Bluteau, alguns estudiosos defendiam que os gémeos Rómulo e Remo, personagens da mitologia romana, não foram criados por uma loba, mas sim por uma prostituta.

 

Porra
Porra

Não se sabe ao certo de onde terá vindo a palavra porra. Na Origem da Lingua Portugueza, obra publicada no século XVII, o historiador Duarre Nunes de Leão refere que o termo é de origem árabe. Porém, a teoria mais consensual é a de que a palavra terá surgido em Espanha.

Segundo Rafael Bluteau, durante o reinado de D. Afonso V (1432-1418), terá chegado a Portugal uma família de nobres castelhanos de apelido Porra, cujo brasão apresentava cinco maças (armas) com cabos verdes sobre um campo dourado.

No Vocabulario Portuguez e Latino, Bluteau explica que a palavra porra é, nada mais nada menos, do que o diminutivo da palavra cachaporra, uma espécie de pão que é mais grosso numa ponta do que na outra. De acordo com a definição de Eduardo Nobre, no Dicionário de Calão, na gíria popular porra serve para descrever o órgão sexual masculino, podendo também significar pau ou bastão.

 

Caralho
Caralho

“A frequência de uso dos termos que designam os órgãos sexuais, tanto femininos como masculinos, é relativamente baixa. Palavras que designam o sexo são normalmente banidas da conversação entre gente educada”, escreveu Heinz Kröll em O Eufemismo e o Disfemismo no Português Moderno. Apesar disso, em português, parecem não faltar palavras para as descrever. Uma delas é caralho.

Apesar de não se saber ao certo de onde terá vindo a palavra caralho, pensa-se que terá tido origem no espanhol carajo, uma expressão que pode designar um pau ou uma parte específica de um navio — a vigia, o lugar mais elevado de uma embarcação. A palavra, “muitíssimo frequente na Península Ibérica”, pode ter “uma origem ainda anterior à romanização”, defende João Paulo Silvestre.

 

Merda
Merda

Apesar de ser muitas vezes associada ao francês merde, a palavra merda é muito mais antiga. No latim clássico, merda era sinónimo de esterco ou de excremento. De acordo com alguns autores, o palavrão será uma derivação da palavra Erda, uma localidade romana conhecida por ser muito suja.

Em português, a palavra é geralmente substituída por outras que rimam com ela, como nas expressões vá a Palmela! ou vá pr’á marela, salientou Heinz Kröll. Mais comum, porém, é a expressão vá pentear macacos!.

 

Foda-se
Foda-se

A expressão foda-se não é recente. O Novo Dicionário de Calão de Afonso Praça, editado em 2001, cita a forma fosga-se, uma interjeição alternativa e menos grosseira para foda-se. Para Clotilde Almeida, isto significa que a palavra já existe há bastante tempo, pois até “já foram cunhadas formas alternativas da mesma que se encontram dicionarizadas”.

José Pedro Machado, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, uma das poucas obras dedicadas à etimologia portuguesa, refere que o verbo foder — do qual provém a palavra foda-se — vem do latim futere, que significa ter relações sexuais com uma mulher. Ainda de acordo com José Pedro Machado, o termo aparece em textos desde o século XII, não se sabendo ao certo quando terá sido cunhado.

“Trata-se de uma expressão de desagrado que é bem portuguesa”, explicou Clotilde Almeida. Através de um processo de redução e de supressão, a palavra foda-se passou a (fo)dasse, mantendo o sentido original. Foi também a partir de foda-se que surgiram as formas fosga-se, fosca-se ou fónix, que querem dizer exactamente a mesma coisa. Estas foram criadas para suavizar (e ocultar) o sentido original do palavrão.

Fonte: observador.pt

 

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