Início História História Insólita de Portugal: uma revolta causada por… um copo de vinho

História Insólita de Portugal: uma revolta causada por… um copo de vinho

Somos um povo deveras curioso. Temos fama de povo sereno, mas por vezes provocamos revoluções por causa de... um copo de vinho.

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Caves do Vinho do Porto

A revolução sangrenta deu-se no Porto em 1757 contra a decisão do Marquês de Pombal de proibir a venda de vinho a “avulso”. Foi um motim que originou centenas de feridos e algumas dezenas de condenações à morte, próprias de alguém que não olhou a meios para afirmar a autoridade do Estado.

Marquês de Pombal
Marquês de Pombal

Tudo começou na manhã de 23 de Fevereiro de 1757. Era quarta-feira de cinzas. Das 9 para as 10 horas da manhã uma pequena multidão juntou-se no Campo do Olival, protestando contra os privilégios da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.

Os amotinados não eram muitos mas eram activos. Uns agitavam pequenas flâmulas de pano vermelho, outros empunham ramos de oliveiras e de carvalho. De tempos a tempos iam gritando “Viva El-Rei! Viva o Povo! Morra a Companhia!” Estava em marcha uma rebelião popular que ficou conhecida pela “Revolta dos Taberneiros”.

Caves do Vinho do Porto
Caves do Vinho do Porto

Da Cordoaria, os amotinados dirigiram-se, pela Rua de S. Bento da Vitória e antigas Escadas da Esnoga, ao Largo de S. Domingos, onde vivia o taberneiro e alfaiate José Fernandes da Silva, por alcunha “O Lisboa”, que desempenhava as funções de Juiz do Povo.

Pretendiam que ele assumisse a cabeça de revolução e, dessa maneira, subscrevesse as reivindicações dos revoltosos que se resumiam a isto que fosse revogada a criação da Companhia e que se restabelecesse o comércio do vinho a retalho da forma que estava antes.

A intenção do Marquês era bondosa. Evitar a degradação da qualidade do vinho do Porto, numa época em que era corrente a prática de toda a espécie de manigâncias sobre este importante produto.

Caves de Vinho do Porto
Caves de Vinho do Porto

O vinho do Porto era uma das principais fontes de entradas de divisas no país, desenvolvendo-se extraordinariamente o seu comércio após a assinatura do tratado de Methuen.

Este tratado conferia condições preferências de acesso ao mercado britânico face aos vinhos provenientes de uma França Colbertista, em troca de uma maior abertura à entrada de lanifícios britânicos.

Com a criação da Real Companhia, o estado assumiu o Monopólio do comércio do Vinho do Porto e assim passou a controlar todo o seu circuito comercial, inclusivamente nos locais de consumo habituais – as tavernas.

caves2

Eis um exemplo de uma realidade que parece insignificante à luz do poder – beber um copo de vinho numa taverna – mas que para o povo era algo considerado imprescindível.

Diz uma antiga lenda que os implicados na Revolta dos Taberneiros foram enforcados no ramo de um velho “ulmus” que existia na Cordoaria e que, por isso, passou à história com a denominação de Árvore da Forca. Pura mentira. Ninguém foi enforcado nos troncos dessa árvore. Mas ela existiu.

Foi um dos muitos negrilhos ou olmos (“ulmus campestris”) que o rei Filipe II mandou plantar na alameda, em substituição dos raquíticos e envelhecidos carvalhos, castanheiros e oliveiras que por ali havia, quando a Câmara pretendeu transformar o campo do Olival em logradouro público. O “ulmus” resistiu e chegou até aos nossos dias. Durou mais de 370 anos, pois só viria a morrer de velhice em 1986.

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