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História insólita de Portugal: um rei condenado à morte depois de morto

Um morto condenado à morte mesmo que seja um falecido rei? Segundo a Inquisição, pode. História insólita de Portugal: condenado a morrer depois de morto.

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Cortejo de D. João IV pelo Terreiro do Paço

D. João IV faleceu a 6 de Novembro de 1656, com “dores de ilharga”. Para ser mais exacto, morreu devido a uma crise renal grave. Sucedeu-lhe no trono D. Afonso, ainda menor, ficando D. Luísa regente do Reino. Conta-se que, tendo D. João IV sido enterrado no Mosteiro de São Vicente de Fora, a meio da cerimónia, delegados da Inquisição irromperam na Igreja, convocaram a rainha e os dois infantes Afonso e Pedro, retiraram o real cadáver do caixão e depuseram-no no chão.

São Vicente de Fora – Joe Price

Depois, despiram-no do hábito de São Francisco e do manto da Ordem de Cristo que envergava, e de seguida o inquisidor-mor leu um acórdão que excomungava o rei, o declarava inimigo da Igreja, o condenava à morte e ao fogo eterno no inferno.

D. Afonso VI, que sucedeu a D. João IV
D. Afonso VI, que sucedeu a D. João IV

Decerto imbuído daquela compaixão que tornou a Inquisição tão famosa, o mesmo inquisidor-mor absolveu então o cadáver do rei, repuseram-no no caixão e cantou-se um Te Deum. D. João, o amante da música, pelo menos teria gostado desta parte.

D. João IV

O resto, a ser verdade, fora uma vingança reles de uma instituição reles – o Santo Ofício – que o rei ousara enfrentar em defesa dos interesses do reino.

 

Biografia de D. João IV

Quando nasceu poucos acreditavam que 36 anos depois viria a ser o Restaurador. Se bem que a Casa de Bragança, de uma forma muito discreta, acreditasse que, mais cedo ou mais tarde, o trono seria de um dos seus membros.

Filho de D. Teodósio, duque de Bragança, e de D. Ana Velasco, o herdeiro da Casa de Bragança recebeu uma educação cuidada. D. João teve como principal mentor Jerónimo Soares, mas outros nomes contribuíram para a sua educação. Roberto Tornar e João Soares Rebelo ensinaram-lhe música, que viria a ser a sua grande paixão e na qual se destacou, e António Galvão de Andrade ensinou-lhe toda a arte de picaria.

D. João IV
D. João IV

A sua juventude foi passada tranquilamente no magnífico domínio da família em Vila Viçosa, no Alentejo, votado quase inteiramente aos prazeres da música e da caça. O jovem D. João apreciava imenso passar uma grande parte do tempo no campo, a lancear touros e a enfrentar javalis.

Em 1633, casou-se com D. Luísa de Gusmão, filha do duque espanhol de Medina Sidónia. A futura rainha era uma mulher ambiciosa, que incentivou o marido a tornar-se rei de Portugal. Desta união nasceram quatro filhos. D. Teodósio, o primogénito, veio a morrer prematuramente; D. Afonso, futuro D. Afonso VI, segundo filho, que herdou o trono após a regência da mãe; D. Pedro, mais tarde D. Pedro II; e, por último, D. Catarina, que viria a contrair matrimónio com Carlos II de Inglaterra.

Segundo uma discrição da época, D. João era um homem bem falante, activo, e pouco dado ao ócio. “Na conversaçaõ foy discreto, agudo, e prompto nas respostas; e naõ sendo as palavras as mais polidas, usava dellas com tal arte, e galantaria, que ainda se applaudem em muitos despachos, que se vem da sua propria maõ (…) Amou a Musica com tanto gosto, e inclinação, que foy eminente nesta Arte (…) todos os dias se levantava às cinco horas, e até às sete se empregava no estudo da Musica, depois continuava com os negocios, e governo de seus Reynos, e tanto que acabava de jantar, nas horas de sésta, que eraõ para o descanço, se empregava em provar as Musicas, que lhe vinhaõ de fóra para ver as que havia de mandar cantar na sua Capella”.

Como homem, D. João era sensível e carinhoso para com a sua família e leal aos seus amigos. Era pouco ambicioso, demorado a tomar decisões e tinha um temperamento pouco dado a excessos. Era uma pessoa determinada e sigilosa, de tal forma que, aquando do movimento dos conjurados, os fidalgos chegaram a afirmar: “(…) o Duque he grande confeçor: ouve, e cala”.

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