Início História Do Minho a Lisboa: a história dos Vikings em Portugal

Do Minho a Lisboa: a história dos Vikings em Portugal

Durante séculos foram os terrores dos mares e também chegaram a Portugal, desde o Minho até Lisboa. Conheça a influência dos vikings na História portuguesa.

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Vikings
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Foi por altura do casamento do Rei Beorhtric de Wessex com a Rainha Eadburh que foram avistados pela primeira vez embarcações viking ao largo das ilhas britânicas. Sem saber de quem se tratava, Beorhtric enviou emissários à costa para convidar os estrangeiros a visitarem a residência real. Só que o convite não foi bem recebido e os nórdicos acharam por bem assassinar os homens de Beorhtric ali mesmo. Passados quatro anos, regressaram. Em 793, desembarcaram em Lindisfarne, a “Ilha Sagrada”, em Northumbria, e pilharam e destruíram o mosteiro que ali existia. Os anglo-saxões ficaram aterrorizados. “Nunca apareceu na Grã-Bretanha um terror tão grande como o que acabámos de sofrer”, escreveu o monge Alcuin ao Rei Ethelred de Northumbria, a partir da corte de Carlos Magno. Tinha começado a Idade Viking, a grande época de expansão dos marinheiros do norte.

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Durante cerca de 300 anos, os vikings viajaram, conquistaram e colonizaram vários pontos da Europa, chegaram à América do Norte e passaram pelo Médio Oriente. Destruíram mosteiros, grandes cidades e pequenas aldeias, mas também ajudaram a fundar novas localidades, como é o caso de Dublin, que só passou para as mãos dos irlandeses no século XI. Na Península Ibérica, onde o seu rasto é menos evidente, deixaram uma memória vaga que muitas vezes mistura factos reais com pura ficção.

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De acordo com alguns textos irlandeses, depois da conquista de York, em 867, dois jovens vikings decidiram dedicar-se à pirataria nas ilhas britânicas e na zona da actual França. Seguindo ao longo da costa, Hasting e Björn acabaram por chegar à Península Ibérica, sendo responsáveis por um ataque em solo ibérico antes de seguirem rumo ao norte de África, onde continuaram a pilhagem. Hasting e Björn eram filhos de um viking chamado Raghnall, que alguns autores identificaram como sendo o lendário Ragnar Lothbrok.

 

Corunha, Verão de 844

Não existem muitas informações sobre o que se terá passado naquele verão de 844. Sabe-se muito pouco sobre esse ataque. Sabe-se que foi na Corunha, no início de Agosto, mas quanto tempo durou, o que fizeram ao certo, não se sabe. Na verdade, no que diz respeito à presença viking na Península Ibérica, há mais incertezas do que certezas, mais perguntas do que respostas.

O que se sabe é que, antes de seguirem para a Galiza, os vikings fizeram uma paragem em Toulouse, no sul do território que hoje pertence a França. Entraram pelo Rio Garrone e, depois de pilharem a região, seguiram mais para sul. Atravessaram o mar e entraram na Galiza no início de agosto. Naquele tempo, quem reinava o Reino das Astúrias era Ramiro I (842-850), filho do tal Alfonso II que teria defrontado os ferozes marinheiros nórdicos em 795, segundo Arne Melvinger. Perante a ameaça, Ramiro prontamente organizou um exército para combater os estrangeiros. Felizmente para ele, parte dos nórdicos tinha morrido durante uma tempestade que os apanhou de surpresa durante a travessia. Os que sobreviveram acabaram por ser derrotados perto de Farum Brecatium, local que, apesar de não se saber ao certo onde ficava, é geralmente apontado como sendo a Corunha.

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As baixas causadas pelo exército galego parecem ter sido substanciais — muitos vikings acabaram por morrer e, por vingança, os galegos deitaram fogo a 70 das suas embarcações. Derrotados, os nórdicos fizeram-se ao mar, chegando a Lisboa ainda nesse verão. O que não se sabe ao certo é quem é que os liderava — algumas fontes falam num tal de Horrich, enquanto outras referem um viking chamado Wittingur. Dada a falta de evidências, é difícil dizer como se chamaria afinal o líder dos primeiros marinheiros escandinavos a pisarem solo ibérico.

Depois de uma viagem de quase um mês, os vikings chegaram a Lisboa a 20 de Agosto de 844. Ninguém sabe porque é que demoraram cerca de três semanas (acredita-se que o ataque na Corunha tenha acontecido a 1 de Agosto) a percorrer a costa. Na altura, a viagem demorava apenas alguns dias. Mas existem algumas hipóteses: a demora pode ser indício da existência de outros ataques mais curtos, durante o caminho para Lisboa, ou de que a incursão no norte da Galiza foi mais longa do que se julga, deixando aos nórdicos apenas alguns dias para chegarem ao Tejo. O que também não se sabe é o número de embarcações que chegaram inteiras à actual capital portuguesa: numa carta enviada para Córdova, o Governador de Lisboa fala em “54 navios nórdicos e 54 qaribs” (nome árabe dado a navios de menor dimensão), enquanto outra fonte refere 80 (sem especificar o tipo). Independentemente do número, a informação parece exagerada e provavelmente baseada em estimativas.

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Os escandinavos ficaram 13 dias na região de Lisboa, enfrentando tropas árabes em, pelo menos, três ocasiões e mantendo alguma forma de controlo do território. Porém, não se sabe onde é que estes confrontos ocorreram ou qual foi o seu resultado. Não se sabe se atacaram Lisboa ou os arredores, se chegaram à margem sul do Tejo ou se ficaram pela margem norte, por exemplo. Só se sabe que ficaram 13 dias na zona de Lisboa, um período considerável, o que sugere que se trataria de um grupo menor, com algumas dezenas de embarcações e algumas dezenas de homens e, eventualmente, mulheres.

Depois disso, só voltaram à Península Ibérica em 858. A partir daí, as visitas tornaram-se mais regulares, com os vikings a manterem-se activos em território ibérico durante cerca de 200 anos, principalmente no século IX e finais do século X, inícios do século XI.

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Foi, aliás, durante este período que, a julgar pelas fontes existentes, ocorreu o maior ataque nórdico em território português: em Julho de 1015, os vikings entraram no Rio Douro e, durante nove meses, pilharam a zona que vai até ao Rio Ave e fizeram vários reféns, que depois os nórdicos tentaram vender como escravos. Entre esses encontravam-se as três filhas de Amarelo Mestaliz. Amarelo, que não tinha dinheiro para libertar as raparigas, decidiu recorrer a uma senhora chamada Lupa, oferecendo-lhe uma propriedade em troca do valor necessário (15 sólidos de prata) para pagar o resgate. Só que Lupa não ficou satisfeita com a proposta e o pobre homem teve de se virar para um tal de Froila Tructesindes. Aparentemente mais simpático do que Lupa, Froila aceitou a proposta de Amarelo, que conseguiu assim angariar o dinheiro para libertar as filhas.

O último ataque na Península Ibérica terá acontecido em meados do século XI, por volta de 1086, em Sada, no norte da Galiza. Mais uma vez, não se sabe muito sobre ele, mas acredita-se que tenha sido violento e até prolongado, desestabilizando a região.

 

As lendas e os castelos: o que ficou dos vikings na Península Ibérica

200 anos de invasões vikings na Península Ibérica tiveram, naturalmente, o seu impacto. Além da deslocação da população mais para o interior e de alguma perturbação da vida social local, os ataques constantes obrigaram à fortificação da costa que, antes do aparecimento dos vikings, estava mais ou menos desprotegida. É que os verdadeiros perigos não estavam no mar, mas sim no interior do território. Existem relatos de cidades, antes da Idade Viking, que mandaram abaixo parte das muralhas para construírem outra coisa porque havia um grande sentimento de segurança. Arrependeram-se passados umas décadas porque se aperceberam que precisavam delas. Antes disso, o conflito era praticamente interno.

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Supõe-se que a construção de defesas costeiras se tenha intensificado no século X, mas não existe qualquer vestígio em território ibérico. O impacto a longo prazo foi escassíssimo, quase nenhum. Como a Península Ibérica já era um cenário de guerra — e continuou a ser depois da Idade Viking –, qualquer impacto local ou regional foi apagado por acontecimentos posteriores. As pessoas podem ter ficado traumatizadas mas, passada uma ou duas décadas, começou a haver ataques dos muçulmanos. O primeiro trauma desapareceu porque foi substituído por um segundo. A memória humana não perdura. No entanto, já houve quem acreditasse no contrário. Na zona de Alcobaça, existe uma torre que um antigo arqueólogo português acreditava ter sido construída como defesa contra os vikings. O Castelo de Guimarães, um dos símbolos da identidade nacional, também já foi descrito como um vestígio da passagem dos nórdicos pela península, uma vez que a sua origem remonta a um dos pontos altos da Idade Viking no ocidente ibérico.

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Tanto quanto se sabe, nunca existiu nenhuma colónia nórdica na Península Ibérica. As fontes escritas não são claras nesse ponto e nunca foi encontrado nenhum vestígio arqueológico que permitisse chegar à conclusão contrária. Uma vez mais, avaliando pelas fontes existentes, a actividade viking na península ficou-se pelo saque e pela pirataria, actividade que foi vezes foi mais “intensa e prolongada e outras menos. Não há nada de muito concreto que sugira a existência de uma colónia ou de conquista do território. Existiram, quanto muito, alguns ataques que foram mais prolongados no tempo e, nesse sentido, terão existido bases mas que, eventualmente, foram abandonadas.

Fonte: observador.pt

 

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