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As incoerências do (des)acordo ortográfico

Termina hoje o prazo para a implementação do acordo ortográfico em Portugal. Um acordo envolto em polémica e incoerências desde o início.

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Antes de mais devo dizer que sou contra este Acordo Ortográfico. Não seria intelectualmente honesto da minha parte não anunciar o mesmo e correr o risco de transmitir a ideia que possa estar a ser imparcial. A verdade é que após verificar muitas das alterações, não posso concordar com o conteúdo do mesmo.

Uma pessoa pode gostar ou desgostar de uma casa. Um militar pode achar a mesma boa ou má para um ataque. Um familiar pode achar a mesma boa ou má para habitar.

No entanto este acordo não é uma casa. É, se tanto, uma edificação em construção, onde o empreiteiro compra material da pior qualidade, as futuras divisões não estão à esquadria, não tem telhado nem ligação à rede eléctrica mas já tem electrodomésticos lá dentro. Existe ainda também uma mesinha de cabeceira, onde repousa um livro, ao lado de uma cama inexistente.

Apesar de todos os problemas que possamos ver nesta descrição, a edificação está  a ser “vendida” para uso imediato como uma casa funcional e sólida.

O Acordo

Se me fosse apresentado um documento que instituía uma completa unificação da Língua Portuguesa, continuava a não concordar, mas ao menos seria algo coerente.

Diz-se que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a afirmação da Língua Portuguesa no mundo e também para a sua simplificação. Um dos argumentos é que com ele será mais fácil a adopção do Português como Língua de trabalho em instituições internacionais, pois terá documento único com grafia unificada. É sem dúvida uma visão interessante… E falaciosa.

Vocabulário

Ao redigir um texto na “grafia unificada”, será que irão usar “pingolim” ou “matraquilho”? “Banheiro” ou “casa-de-banho”? “Paquera” ou “namorico”? E o que irá acontecer gramaticalmente? O texto irá estar repleto de gerúndios como habitual no Brasil ou com a construção frásica mais típica em Portugal (e nas restantes ex-colónias de Língua oficial Portuguesa)?

Outro problema que se coloca é a nível de vocabulário académico/técnico. Passará a utilizar-se o do Brasil ou o Português? E porquê um em detrimento do outro, ou porquê uma palavra em detrimento da outra? Os profissionais actuais serão todos reciclados para aprenderem o novo vocabulário técnico?

Ortografia

Mas as incoerências vão mais além. Veja-se o caso das duplas ortografias. Há palavras que por cá  irão perder as ditas consoantes mudas. Essas mesmas palavras irão manter as mesmas consoantes mudas no Brasil… por lá não serem mudas!

No entanto a senda das consoantes mudas vai mais além, ao ponto de haver um completo atropelo da norma Portuguesa generalizada, como o caso do ‘p’ em ‘Egipto’… Que irá cair. Surpreendentemente parece que “egípcio” manterá o ‘p’, sob o argumento de ser pronunciado tanto cá como lá.

Haverá ainda o caso caricato da palavra “tecto” que passará a ser “teto”. A palavra “acto” que passará a “ato”, o que levará portanto a um aumento das homógrafas, que não sei ao certo se contribuirá para uma rápida e fácil compreensão de um texto escrito.

Ora se a coerência para estas mudanças é a fonética, então para quando um despacho normativo dos sotaques e formas de falar a Língua Portuguesa? Como irão as gerações seguintes compreender que se escreve “Egito” e depois “egípcio”? Isto já para não falar do facto que muita gente diz o ‘p’ em “Egipto” (eu incluído, e não julgo estar a errar).

Hífenes

Uma das minhas incoerências predilectas é sem dúvida o uso do hífen. Não tocando sequer na confusão que lançou mesmo nos dicionários de referência Brasileiros (similar deverá acontecer por cá). Se “fim-de-semana” perde os mesmos, já “cor-de-rosa” ou “pé-de-meia” irão manter por o seu uso ser considerado generalizado. Ora ter este argumento como justificação destas excepções é estar a premiar a ignorância.

Joseph Goebbels disse que uma mentira dita vezes suficientes tornava-se numa verdade. Parece que um erro cometido vezes suficientes deixa de o ser. Só espero que não adoptem a mesma filosofia na ciência ou medicina.

Fonte: http://goo.gl/P1CTxg

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