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A curiosa origem de 27 expressões populares portuguesas

Ficar a ver navios mesmo sem poder com uma gata pelo rabo são coisas do Arco da Velha. A curiosa origem de 27 expressões populares portuguesas.

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Embandeirar em arco

Significado: Manifestação efusiva de alegria.

Origem: Na Marinha, em dias de gala ou simplesmente festivos, os navios embandeiram em arco, isto é, içam pelas adriças ou cabos (vergueiros) de embandeiramento galhardetes, bandeiras e cometas quase até ao topo dos mastros, indo um dos seus extremos para a proa e outro para a popa. Assim são assinalados esses dias de regozijo ou se saúdam outros barcos que se manifestam da mesma forma.

 

Cair da tripeça

Significado: Qualquer coisa que, dada a sua velhice, se desconjunta facilmente.

Origem: A tripeça é um banco de madeira de três pés, muito usado na província, sobretudo junto às lareiras. Uma pessoa de avançada idade aí sentada, com o calor do fogo, facilmente adormece e tomba.

 

Fazer tábua rasa

Significado: Esquecer completamente um assunto para recomeçar em novas bases.

Origem: A tabula rasa , no latim, correspondia a uma tabuinha de cera onde nada estava escrito. A expressão foi tirada, pelos empiristas, de Aristóteles, para assim chamarem ao estado do espírito que, antes de qualquer experiência, estaria, em sua opinião, completamente vazio. Também John Locke (1632 1704), pensador inglês, em oposição a Leibniz e Descartes, partidários do inatísmo, afirmava que o homem não tem nem ideias nem princípios inatos, mas sim que os extrai da vida, da experiência. «Ao começo», dizia Locke, «a nossa alma é como uma tábua rasa, limpa de qualquer letra e sem ideia nenhuma. Tabula rasa in qua nihil scriptum. Como adquire, então, as ideias? Muito simplesmente pela experiência.»

 

Ave de mau agouro

Significado: Diz-se de pessoa portadora de más notícias ou que, com a sua presença, anuncia desgraças.

Origem: O conhecimento do futuro é uma das preocupações inerentes ao ser humano. Quase tudo servia para, de maneiras diversas, se tentar obter esse conhecimento. As aves eram um dos recursos que se utilizava. Para se saberem os bons ou maus auspícios (avis spicium) consultavam-se as aves. No tempo dos áugures romanos, a predição dos bons ou maus acontecimentos era feita através da leitura do seu voo, canto ou entranhas. Os pássaros que mais atentamente eram seguidos no seu voo, ouvidos nos seus cantos e aos quais se analisavam as vísceras eram a águia, o abutre, o milhafre, a coruja, o corvo e a gralha. Ainda hoje perdura, popularmente, a conotação funesta com qualquer destas aves.

 

Verdade de La Palisse

Significado: Uma verdade de La Palice (ou lapalissada / lapaliçada) é evidência tão grande, que se torna ridícula.

Origem: O guerreiro francês Jacques de Chabannes, senhor de La Palice (1470-1525), nada fez para denominar hoje um truísmo. Fama tão negativa e multissecular deve-se a um erro de interpretação.

Na sua época, este chefe militar celebrizou-se pela vitória em várias campanhas. Até que, na batalha de Pavia, foi morto em pleno combate. E os soldados que ele comandava, impressionados pela sua valentia, compuseram em sua honra uma canção com versos ingénuos:

“O Senhor de La Palice / Morreu em frente a Pavia; / Momentos antes da sua morte, / Podem crer, inda vivia.”

O autor queria dizer que Jacques de Chabannes pelejara até ao fim, isto é, “momentos antes da sua morte”, ainda lutava. Mas saiu-lhe um truísmo, uma evidência.

Segundo a enciclopédia Lello, alguns historiadores consideram esta versão apócrifa. Só no século XVIII se atribuiu a La Palice um estribilho que lhe não dizia respeito. Portanto, fosse qual fosse o intuito dos versos, Jacques de Chabannes não teve culpa.

 

Ter ouvidos de tísico

Significado: Ouvir muito bem.

Origem: Antes da II Guerra Mundial (l939 a l945), muitos jovens sofriam de uma doença denominada tísica, que corresponde à tuberculose. A forma mais mortífera era a tuberculose pulmonar.

Com o aparecimento dos antibióticos durante a II Guerra Mundial, foi possível combater este doença com muito maior êxito.

As pessoas que sofrem de tuberculose pulmonar tornam-se muito sensíveis, incluindo uma notável capacidade auditiva. A expressão « ter ouvidos de tísico» significa, portanto, «ouvir tão bem como aqueles que sofrem de tuberculose pulmonar».

 

Comer muito queijo

Significado: Ser esquecido; ter má memória.

Origem: A origem desta expressão portuguesa pode explicar-se pela relação de causalidade que, em séculos anteriores, era estabelecida entre a ingestão de lacticínios e a diminuição de certas faculdades intelectuais, especificamente a memória.

A comprovar a existência desta crença existe o excerto da obra do padre Manuel Bernardes “Nova Floresta”, relativo aos procedimentos a observar para manter e exercitar a memória: «Há também memória artificial da qual uma parte consiste na abstinência de comeres nocivos a esta faculdade, como são lacticínios, carnes salgadas, frutas verdes, e vinho sem muita moderação: e também o demasiado uso do tabaco».

Sabe-se hoje, através dos conhecimentos provenientes dos estudos sobre memória e nutrição, que o leite e o queijo são fornecedores privilegiados de cálcio e de fósforo, elementos importantes para o trabalho cerebral. Apesar do contributo da ciência para desmistificar uma antiga crença popular, a ideia do queijo como alimento nocivo à memória ficou cristalizada na expressão fixa « comer (muito) queijo».

12 COMENTÁRIOS

  1. Rés-Vés Campo de Ourique não tem nada a ver com o terramoto. Essa é uma falsa noção, infelizmente muito propagada pela internet.
    Os estragos do terramoto não ficaram limitados por Campo de Ourique.
    A onda pouco subiu acima do Rossio, e Campo de Ourique é muito mais alto. Quanto ao terramoto, atingiu zonas para além de Campo de Ourique, mas poupou outras muito aquém (por exemplo,
    a Sé e o Castelo)
    A expressão tem a ver com a estrada da Circunvalação (1852, um século depois do terramoto), que foi de Alcântara até S. Sebastião da Pedreira, passando pela zona do Arco do Carvalhão, mesmo ao lado de Campo de Ourique: rés-vés Campo de Ourique.
    Isto pode ser confirmado pelos serviços da Câmara Municipal de Lisboa

  2. “Ficar a ver navios”… então e o facto de Junot, quando veio a Portugal com as tropas francesas com o objetivo de aprisionar a família real e não pôde mais que ficar em São Julião da Barra a ver os navios que partiam para o Brasil, sem poder ir no seu ençalço?

    • Que a origem do “ver navios” seja o desapontamento de Junot, concorda com o que sei.
      Já quanto à “lança em África”, tenho opinião diferente da sua, que direi noutra ocasião.
      Mário Ventim Neves

  3. A expressão “meter uma lança em África” parece ter origem muito anterior às citadas dificuldades criados pelos “nativos” à “penetração do continente Africano” .
    Segundo a “Crónica dos Carmelitas….”, de frei Joseph Pereira de Sant’Anna (1745), estaria o
    o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, já professado nos Carmelitas, conversando no convento do Carmo com outras pessoas sobre um possível novo perigo vindo de Castela, quando alguém questionou se a sua idade e estado físico lhe permitiriam lutar novamente. O Condestável teria tomado uma lança, e arremessou-a do alto do Carmo. A lança atravessou o vale da baixa e cravou-se numa porta no Rossio. E D. Nuno teria dito que se fosse necessário para salvar o reino, meteria uma lança, não no Rossio, mas em África.
    O episódio é referido em livros mais recentes, como “A vida misteriosa das palavras”, de J.G.Monteiro e A.C.Leão, Portugália Edit, 1944; e, se estou recordado, em “Ditos Portugueses dignos de Memória” (anónimo), anotado e comentado por José Hermano Saraiva, Europa-América, 1979.
    Outras variantes do episódio (quanto à ocasião e data) podem ser encontradas na literatura, incluindo na internet (por exemplo, na entrada “Nuno Álvares Pereira” na wikipéda)

    MVN

  4. Mas que o terramoto, não maremoto, estragou muita coisa até “quase ou rés-vés” Campo de Ourique é verdade.

  5. Para mim o “arco da velha”
    Acho que se refere a um arco como um lugar
    Ao seja um sitio longínquo ou desconhecido…
    Como “onde o diabo perdeu as botas”

  6. Procurei a não encontrei e expressão:
    Com todos os ss e rr”

    Gostava de saber uma hipótese racional e provável da sua origem.

    Até mais logo.

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