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A curiosa origem de 27 expressões populares portuguesas

Ficar a ver navios mesmo sem poder com uma gata pelo rabo são coisas do Arco da Velha. A curiosa origem de 27 expressões populares portuguesas.

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expressões populares portuguesas

A curiosa origem de 27 expressões populares portuguesas

Todos nós as usamos diariamente e não fazemos a mínima da forma como elas surgiram na nossa linguagem. Descubra a curiosa origem de 27 expressões populares portuguesas.

Erro crasso

Significado: Erro grosseiro.

Origem: Na Roma antiga havia o Triunvirato: o poder dos generais era dividido por três pessoas. No primeiro destes Triunviratos , tínhamos: Caio Júlio, Pompeu e Crasso. Este último foi incumbido de atacar um pequeno povo chamado Partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as formações e técnicas romanas e simplesmente atacar. Ainda por cima, escolheu um caminho estreito e de pouca visibilidade. Os partos, mesmo em menor número, conseguiram vencer os romanos, sendo o general que liderava as tropas um dos primeiros a cair.

Desde então, sempre que alguém tem tudo para acertar, mas comete um erro estúpido, dizemos tratar-se de um “erro crasso”.

Ter para os alfinetes

Significado: Ter dinheiro para viver.

Origem: Em outros tempos, os alfinetes eram objecto de adorno das mulheres e daí que, então, a frase significasse o dinheiro poupado para a sua compra porque os alfinetes eram um produto caro. Os anos passaram e eles tornaram-se utensílios, já não apenas de enfeite, mas utilitários e acessíveis. Todavia, a expressão chegou a ser acolhida em textos legais. Por exemplo, o Código Civil Português, aprovado por Carta de Lei de Julho de 1867, por D. Luís, dito da autoria do Visconde de Seabra, vigente em grande parte até ao Código Civil actual, incluía um artigo, o 1104, que dizia: «A mulher não pode privar o marido, por convenção antenupcial, da administração dos bens do casal; mas pode reservar para si o direito de receber, a título de alfinetes, uma parte do rendimento dos seus bens, e dispor dela livremente, contanto que não exceda a terça dos ditos rendimentos líquidos.»

Do tempo da Maria Cachucha

Significado: Muito antigo.

Origem: A cachucha era uma dança espanhola a três tempos, em que o dançarino, ao som das castanholas, começava a dança num movimento moderado, que ia acelerando, até terminar num vivo volteio. Esta dança teve uma certa voga em França, quando uma célebre dançarina, Fanny Elssler, a dançou na Ópera de Paris. Em Portugal, a popular cantiga Maria Cachucha (ao som da qual, no séc. XIX, era usual as pessoas do povo dançarem) era uma adaptação da cachucha espanhola, com uma letra bastante gracejadora, zombeteira.

À grande e à francesa

Significado: Viver com luxo e ostentação.

Origem: Relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot, auxiliar de Napoleão que chegou a Portugal na primeira invasão francesa, e dos seus acompanhantes, que se passeavam vestidos de gala pela capital.

Coisas do arco-da-velha

Significado: Coisas inacreditáveis, absurdas, espantosas, inverosímeis.

Origem: A expressão tem origem no Antigo Testamento; arco-da-velha é o arco-íris, ou arco-celeste, e foi o sinal do pacto que Deus fez com Noé: “Estando o arco nas nuvens, Eu ao vê-lo recordar-Me-ei da aliança eterna concluída entre Deus e todos os seres vivos de toda a espécie que há na terra.” (Génesis 9:16)

Arco-da-velha é uma simplificação de Arco da Lei Velha, uma referência à Lei Divina.

Há também diversas histórias populares que defendem outra origem da expressão, como a da existência de uma velha no arco-íris, sendo a curvatura do arco a curvatura das costas provocada pela velhice, ou devido a uma das propriedades mágicas do arco-íris – beber a água num lugar e enviá-la para outro, pelo que velha poderá ter vindo do italiano bere (beber).

Dose para cavalo

Significado: Quantidade excessiva; demasiado.

Origem: Dose para cavalo , dose para elefante ou dose para leão são algumas das variantes que circulam com o mesmo significado e atendem às preferências individuais dos falantes.

Supõe-se que o cavalo, por ser forte; o elefante, por ser grande, e o leão, por ser valente, necessitam de doses exageradas de remédio para que este possa produzir o efeito desejado.

Com a ampliação do sentido, dose para cavalo e suas variantes é o exagero na ampliação de qualquer coisa desagradável, ou mesmo aquelas que só se tornam desagradáveis com o exagero.

Dar um lamiré

Significado: Sinal para começar alguma coisa.

Origem: Trata-se da forma aglutinada da expressão «lá, mi, ré», que designa o diapasão, instrumento usado na afinação de instrumentos ou vozes; a partir deste significado, a expressão foi-se fixando como palavra autónoma com significação própria, designando qualquer sinal que dê começo a uma actividade.

Historicamente, a expressão «dar um lamiré» está, portanto, ligada à música (cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

8 Comentários

  1. Rés-Vés Campo de Ourique não tem nada a ver com o terramoto. Essa é uma falsa noção, infelizmente muito propagada pela internet.
    Os estragos do terramoto não ficaram limitados por Campo de Ourique.
    A onda pouco subiu acima do Rossio, e Campo de Ourique é muito mais alto. Quanto ao terramoto, atingiu zonas para além de Campo de Ourique, mas poupou outras muito aquém (por exemplo,
    a Sé e o Castelo)
    A expressão tem a ver com a estrada da Circunvalação (1852, um século depois do terramoto), que foi de Alcântara até S. Sebastião da Pedreira, passando pela zona do Arco do Carvalhão, mesmo ao lado de Campo de Ourique: rés-vés Campo de Ourique.
    Isto pode ser confirmado pelos serviços da Câmara Municipal de Lisboa

  2. “Ficar a ver navios”… então e o facto de Junot, quando veio a Portugal com as tropas francesas com o objetivo de aprisionar a família real e não pôde mais que ficar em São Julião da Barra a ver os navios que partiam para o Brasil, sem poder ir no seu ençalço?

    • Que a origem do “ver navios” seja o desapontamento de Junot, concorda com o que sei.
      Já quanto à “lança em África”, tenho opinião diferente da sua, que direi noutra ocasião.
      Mário Ventim Neves

  3. A expressão “meter uma lança em África” parece ter origem muito anterior às citadas dificuldades criados pelos “nativos” à “penetração do continente Africano” .
    Segundo a “Crónica dos Carmelitas….”, de frei Joseph Pereira de Sant’Anna (1745), estaria o
    o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, já professado nos Carmelitas, conversando no convento do Carmo com outras pessoas sobre um possível novo perigo vindo de Castela, quando alguém questionou se a sua idade e estado físico lhe permitiriam lutar novamente. O Condestável teria tomado uma lança, e arremessou-a do alto do Carmo. A lança atravessou o vale da baixa e cravou-se numa porta no Rossio. E D. Nuno teria dito que se fosse necessário para salvar o reino, meteria uma lança, não no Rossio, mas em África.
    O episódio é referido em livros mais recentes, como “A vida misteriosa das palavras”, de J.G.Monteiro e A.C.Leão, Portugália Edit, 1944; e, se estou recordado, em “Ditos Portugueses dignos de Memória” (anónimo), anotado e comentado por José Hermano Saraiva, Europa-América, 1979.
    Outras variantes do episódio (quanto à ocasião e data) podem ser encontradas na literatura, incluindo na internet (por exemplo, na entrada “Nuno Álvares Pereira” na wikipéda)

    MVN

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